terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

ESCOLA PÚBLICA E SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE: A MESMA LUTA

A Escola Pública é uma conquista, das várias que o movimento popular conseguiu após o derrube da ditadura fascista/colonialista (Estado Novo), assim como o Serviço Nacional de Saúde e, de todas essas conquistas, são as que ainda não foram totalmente destruídas, devido à resistência e luta das pessoas que nelas trabalham e aos movimentos sindical, social e popular, ainda que estes tenham sofrido um retrocesso assinalável, apesar de os sucessivos governos as terem vindo paulatinamente a degradar, ao mesmo tempo que financiam o negócio privado da educação e da saúde, com vista a acabar com a Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde que correspondem a um direito básico de todas as pessoas.

Sejamos claros, foram conquistas obtidas com a participação activa empenhada e determinada de milhares, mesmo milhões de pessoas, ao contrário do que nos impingem, que envolveram as pessoas que neles trabalham e muitas outras dos mais variados sectores de actividade. Por isso, para travar a continua destruição da Escola Publica e do Serviço Nacional de Saúde e defender a retoma do desenvolvimento e consolidação de ambos, é necessário e urgente agregar as lutas, unir e mobilizar todas as pessoas que, de facto, querem assegurar o direito à educação, à saúde, à medicina preventiva públicas e universais, que satisfaçam as necessidades das actuais e futuras gerações.

Porque, o nível de degradação a que o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública, assim como as condições de trabalho de todas as pessoas que neles trabalham, chegaram, demonstra-nos que as lutas travadas até agora não foram suficientes para parar o processo de destruição, apesar de conseguirem defender o essencial e não permitirem a sua destruição total, ainda que a sua degradação seja real, como pretendiam os sucessivos governos, presidências da república e maiorias parlamentares.

A defesa da Escola Pública e do Serviço Nacional de Saúde é um imperativo de todas as pessoas e não apenas das pessoas que neles trabalham, muito menos, contra as pessoas que lutam em sua defesa.

Nada nos foi oferecido, tudo foi conquistado com muita luta, trabalho e algumas derrotas, como, por exemplo, a destruição, o desmantelamento, por imposição governamental, das Caixas Sindicais de Previdência dos Trabalhadores, existentes em vários sectores de actividade, entre outros, nos Jornalistas e Tipógrafos.


sábado, 11 de fevereiro de 2023

 

Devemos abolir os jatos privados? – Noah Zino

Este janeiro soube-se que a desigualdade de emissões entre classes é maior que entre países. Uma viagem de jato privado emite, por pessoa, 10 vezes mais gases com efeito de estufa que um voo comercial. Menos de 0.1% das pessoas alguma vez puseram pés num.

Aos ouvidos de uma criança, razão suficiente para os abolir não falta, falta sim bom senso. E este brota abundantemente no movimento pela justiça climática.

Não bastava a aviação privada ser a indústria de transporte mais desigual, é também a mais poluente: as emissões causadas por um voo de jato privado entre Londres e Nova Iorque são superiores às que uma família portuguesa média fará num ano inteiro da sua vida.

Não nos acanhemos de apontar responsáveis. Segundo o Emissions Gap Report de 2020, da ONU, este minúsculo grupo (<1%) é responsável por mais de 97% das emissões e tem de as cortar na mesma proporção para que o mundo fique abaixo dos limites definidos pela ciência para prevenir o colapso climático.

Se os jatos privados já são o meio de transporte mais poluente e injusto em plena crise climática, porque continuam a existir e estão aliás em proliferação? Em todas as cimeiras do clima se pergunta: porque vão os governantes para lá de jato?

Os jatos privados são o cúmulo da hipocrisia e da inação climática, o sintoma perfeito da razão pela qual vivemos em crise. Quem governa, ou quem rege quem governa, é efetivamente responsável pela crise climática. E se historicamente todas as grandes mudanças sociais exigiram resistência ativa à injustiça, a maior crise que já enfrentámos não será diferente.

Nos anos 80 populações no norte de Portugal tiveram de arrancar ilegalmente 200 hectares de eucaliptos para a serra parar de arder, face a um estado e mercado ossificados. Terão de ser as pessoas normais a colocar mais uma vez a vida acima do luxo, desta vez perante um planeta em chamas.

Internacionalmente, esta é a tendência. No aeroporto de Schiphol, nos Países Baixos, um grupo de 300 pessoas invadiu a pista e impediu descolagens, cortando durante essas horas mais emissões da aviação do que o governo português planeia cortar esta década.

Em Portugal lançou-se a campanha Abolir Jatos Privados, focada em ações diretas e sem precedentes, tomando as crises do clima e da desigualdade com a seriedade que merecem.

Se nem nos conseguimos livrar das emissões absurdamente desnecessárias, como vamos chegar ao zero? Se é preciso cortar emissões comece-se pelas que só aos culpados fazem falta.


Artigo originalmente publicado no Expresso a 10 de Fevereiro de 2023.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Lützerath: sabotagem e radicalismo verde – Diogo Silva

Tinha chovido a potes nos últimos dias e a polícia foi convocada para trazer toda a força do Estado contra as últimas pessoas resistentes. O cenário parecia de guerra: lama e polícia por todo o lado; casas ocupadas em terra e nas árvores, num ato de resistência final; e, a apenas umas dezenas de metros, um precipício sobre a mina de carvão com dragas enormes que transformam com a sua passagem qualquer paisagem rural num campo uniforme e preto digno de filmes de ficção científica. Lützerath pode vir a não ser mais do que uma memória. As casas serão demolidas, o entulho mandado para outro lado, todo o solo terraplanado, e aquelas belas máquinas do tamanho de prédios poderão então escavar a memória ainda mais fundo para chegar à matéria orgânica multi-milenar decomposta e ali arquivada debaixo do solo: o carvão.

O Governo federal tem Verdes, o Governo estatal tem Verdes, as palavras são verdes e até a destruição foi pintada de verde. Lützerath será destruída para que outras aldeias não o sejam, num acordo celebrado com a empresa RWE (agora proprietária do solo da aldeia), por “permitir” manter a meta de não haver mais exploração de carvão na Alemanha a partir de 2030 e reduzir a dependência energética da Rússia.

Este cenário de celebração Verde assume um radicalismo que não vê alternativas, que sabota o seu próprio discurso e as nossas vidas. Podemos ter independência energética sem ter dependência fóssil, nem a dependência nos interesses anti-democráticos dos 1% de ricos subsídio-dependentes que lideram economias inteiras a partir do seu luxo (des)confortável, à custa da injustiça gritante do nosso custo de vida a aumentar cada vez mais. Como se vê pelo investimento na guerra, basta querer e o dinheiro aparece.

Na Alemanha, como em Portugal, Governos que muito falam de ação climática estão radicalmente presos a ideias que sabotam qualquer justiça climática. Só podemos contar com eles para lutar contra nós: veja-se Lützerath, e veja-se a detenção e acusação recente de ativistas pacíficas nas Ocupas pelo Fim ao Fóssil.

Na Alemanha, como em Portugal, este movimento só vai ser bem-sucedido se além de saber que não nos vão salvar, estiver unido na sua diversidade tática e a inspirar quem ainda nos vê a juntar-se a nós. Em Lützerath, mais de 35.000 pessoas manifestaram-se de no local, outros milhares se juntaram pela Alemanha fora, a solidariedade internacional fez-se ouvir, e o bloqueio no terreno permitiu que uma aldeia, que facilmente teria sido despejada se não houvesse resistência ilegal a uma lei legal e injusta, resistisse durante mais de duas semanas contra o avanço de uma polícia em força máxima, e a anos de intimidação prévia.

Sem a concordância de base na necessidade de defender Lützerath e a coordenação do movimento na diversidade de táticas, não teria havido a resistência prolongada que trouxe visibilidade ao confronto desigual e reforçou um movimento que tem estado mais separado do que coordenado.

Temos até 2030 para cortar 50% das emissões globais. Ao dia de hoje, elas continuam a aumentar, e as nossas hipóteses a diminuir a cada hora. Temos cada vez menos tempo para tornar inevitável o que agora ainda parece impossível e só na mobilização da sociedade podemos depositar a nossa esperança. Por isso é que o movimento em Portugal se vai reunir em fevereiro em Coimbra, num Encontro Nacional por Justiça Climática.

Possa Lützerath inspirar-nos a passar da fraqueza da ação temporária à força da coordenação permanente no bloqueio de qualquer avanço radical, mesmo que pintado de verde, e construção de um futuro em que a economia esteja sempre ao serviço da vida, e a desigualdade atroz que vivemos hoje seja relegada para os livros de História de amanhã.


Artigo originalmente publicado no Público a 04 de Fevereiro de 2023

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

 

A batalha de Lützerath – João Camargo

Em Lützerath estiveram em confronto duas forças históricas. De um lado, o movimento pela justiça climática, que há décadas se organiza e que desde 2019 se tornou um movimento global de massas. Em oposição a este, a RWE, multinacional alemã de carvão, e milhares de polícias vindos de pelo menos 14 cidades alemãs, em defesa das decisões do governo federal alemão e do governo da Renânia do Norte – Vestfália. Mais do que simbólica, a batalha de Lützerath travou-se por iniciativa do movimento pela justiça climática para travar a extração de 280 milhões de toneladas de carvão que estão por baixo da devastada aldeia.

Durante os últimos dois anos, centenas de ativistas ocuparam as casas da aldeia. Entretanto os governos federal e estadual e a RWE negociaram e coagiram os habitantes de Lützerath, abreviada para Lützi, a desocuparem as casas que habitavam. No início deste ano, mais de 300 pessoas montaram várias estruturas para resistir ativamente à destruição, evitando o despejo e a demolição das casas e abate da floresta, marcada para 10 de Janeiro. Os ativistas que lá estavam, assim como outros que se juntaram, barricaram casas, portas e janelas, ruas, construíram casas nas árvores e prepararam-se para o embate.

Do outro lado, não estava apenas uma empresa, mas grande parte do aparelho de Estado alemão, posto em campo a favor da expansão da mina de Garzweiller e da indústria fóssil. O estado alemão mobilizou milhares de polícias e sua infraestrutura, vindos de todo o país, para expulsar os ativistas e deixar passar as máquinas. A polícia alemã usou as empresas de comunicação da RWE, camiões, instalações e máquinas da RWE na sua ação, numa verdadeira parceria público-privada. O Estado alemão gastou milhões de euros para garantir o direito à destruição de Lützi pela RWE.

No centro da decisão da destruição da aldeia para expansão da mina de carvão está o partido “Os Verdes”. Faz parte do governo da Renânia do Norte – Vestfália, em coligação com a CDU (direita) e faz parte do governo federal alemão em coligação com o SPD (centro-esquerda) e o FDP (centro-direita). O Vice-Chanceler e ministro da Economia e Ação Climática é mesmo Robert Habeck, ex-líder e dirigente d’Os Verdes. Os resultados eleitorais deste partido em 2021, com 14,8%, foram conseguidos após as enormes mobilizações pelo clima no país. O partido justifica o seu apoio à decisão de destruir Lützi para expandir Garzweiler indicando que assim a RWE antecipará para 2030 o fim do carvão em vez de em 2038. No entanto, a expansão de Garzweiler significa apenas que queimará o carvão mais rápido, o que na verdade ainda piora a situação em termos de crise climática.

Na quarta feira, 11 de Janeiro, filas de polícias a perder de vista, a pé, a cavalo e em jipes marcharam sobre este lugarejo como se fossem um exército, com tanques, helicópteros e canhões de água, preparados para combaterem um autêntico inimigo. Em Lützi encontraram dezenas de ativistas pendurados em tripés em todas as ruas, nos telhados de casas, presos e equilibrados no topo das árvores. O aparato policial precisava de escaladores, mas trazia escudos, cassetetes e gás pimenta, à procura de violência, que só a espaços e em pequenos recontros encontrava. Entretanto, funcionários da RWE cortavam com serras elétricas as árvores onde ativistas resistiam, abatendo a floresta para dar espaço a mais carvão. Não pararam um momento durante os três dias seguintes, com turnos de polícias a retirarem e a prenderem um a um os ativistas pela madrugada dentro. Parecia que tudo ia acabar antes do fim-de-semana. Foi nessa altura que receberam a notícia de que havia um túnel subterrâneo, escavado pelos ativistas, onde duas pessoas – autodenominadas Pinky e Brain – resistiam debaixo de Lützi, mais perto do carvão mas longe da mão pesada da polícia. A força bruta, os milhares de polícias mobilizados, os milhões de euros gastos, não podiam tudo.

Fora de Lützi, a questão tornou-se enorme em termos de comunicação, com uma parte da imprensa alemã a chamar aos ativistas “terroristas climáticos”, enquanto sedes dos Verdes e da RWE eram ocupadas e ações internacionais de solidariedade aconteciam em países um pouco por todo o mundo. Foi feita uma sondagem na Alemanha acerca da manutenção de Lützerath, e 59% das pessoas pronunciaram-se a favor, com 33% a favor da demolição.

No sábado, pelo menos 35 mil manifestantes vieram até Lützi, incluindo Greta Thunberg. Milhares de polícias cercaram a manifestação enquanto esta avançava, outros cercavam a aldeia. Milhares de manifestantes invadiram a mina de Garzweiler e obrigaram à paragem dos trabalhos de extração de carvão. A polícia fez cargas violentas em pequenos grupos, experimentando táticas de guerrilha contra os ativistas, embora as imagens mais marcantes tenham acabado por ser a detenção de Greta e um grupo de polícias atolados na lama, gatinhando para tentarem pôr-se de pé, perante um “monge da lama”, imune a afundar-se. A polícia conseguiu evitar que os manifestantes “reconquistassem Lützerath”, mas precisou de usar toda a espécie de meios para fazê-lo. Nos dias seguintes, a coligação Ende Gelaende invadiu a mina de Garzweiler e obrigou à paragem da extração de carvão inúmeras vezes.

Apenas no dia 16 de janeiro Pinky e Brain saíram do túnel debaixo de Lützi, por sua vontade, uma vez que a polícia não tinha de retirá-los. No dia 23 a polícia e a RWE declararam a aldeia despejada.

Lutzerath está neste momento arrasada. Ao seu lado, a mina de carvão que a vai começar a engolir parece a superfície da Lua, um território irrecuperável por milhares de anos. Esta foi a conquista da aliança capital fóssil – Estado alemão.

A detenção de centenas de ativistas e a expectável condenação de alguns deles a penas de prisão serão os passos institucionais que se seguem. Mas algo essencial mudou com a Batalha de Lützerath. A mobilização e utilização massiva dos recursos do Estado para garantir a continuação da destruição foi necessária. E sê-lo-á muito mais vezes, com o agravar da crise climática.

No Reino Unido, novas leis draconianas contra o direito à greve e sobre as manifestações políticas foram aprovadas para tentar conseguir travar o Just Stop Oil, o Insulate Britain, o que sobra do Extinction Rebellion e a forte onda de greves no território. Ativistas climáticos em vários países da Europa estão a ser detidos preventivamente para tentar travar grandes ações disruptivas. Nos Estados Unidos um ativista climático que protegia uma floresta na Geórgia foi assassinado a sangue frio pela polícia.

Claro que nada disto é novidade em países mais pobres na América Latina, na Ásia ou no continente africano. A novidade é estarem a acontecer mesmo nos centros de poder do capitalismo.

Na escolha entre travar o colapso climático ou acabar com o privilégio do lucro capitalista, o sistema decidiu: vai mobilizar todos os recursos que forem necessários para manter a destruição. Não só não vai fazer o que reconhece ser necessário e o que assinou em acordos como o de Paris, mas usará da força bruta para manter a máquina imsaciável do lucro a funcionar, mesmo que tal custe o colapso climático. Aliás, sabendo que isso custaria o colapso climático se o movimento desistisse ou se resignasse.

Qualquer protesto climático (ou social) consequente terá de ser proibido.

Isto será feito tanto com o aval dos Verdes na Alemanha como com o do Labour no Reino Unido, e por tantas organizações políticas mais preocupadas com a ordem do que com a vida. Escolheram o campo da catástrofe.

Se recordarmos que o anunciado presidente da cimeira do Clima deste ano é o presidente de uma das maiores petrolíferas do mundo, fecha-se o nó: a via institucional para travar a crise climática enforcou-se em público e todos podemos observar o seu cadáver a baloiçar. Nenhuma eleição e nenhuma cimeira vai travar o caminho para a catástrofe desenhado pelo capitalismo. Sem a ação e a coragem do movimento pela justiça climática não haverá caminhos para o futuro. Além de parar o dano atualmente feito, tem de construir a transformação que o momento histórico em que vivemos exige.

A batalha de Lützerath marca o início de uma nova etapa. O sistema já escolheu: quer o colapso e confrontará violentamente quem se lhe opuser. Em Lützi o movimento já mostrou que não vai recuar. Chegou a hora do movimento avançar.


Artigo originalmente publicado no Expresso a 01 de Fevereiro de 2023

sábado, 28 de janeiro de 2023

O que há de errado com o gasoduto de António Costa? – João Camargo, Mariana Rodrigues

Na altura, foi preciso o esforço das melhores agências de comunicação para arrancar da derrota do gasoduto dos Pirinéus uma vitória para o governo. Para dourar a pílula, era preciso anunciar algo novo e espampanante, pelo que se tornou prático dizer que se ia construir em compensação um gasoduto de hidrogénio verde. Fazer o anúncio ao lado de Pedro Sánchez e em teleconferência com Emmanuel Macron tornava a coisa ainda mais solene. A direita em Portugal reclamava do abandono de Sines e da promessa de fazer desse porto a entrada do gás de fracking dos Estados Unidos para o centro da Europa. O principal problema do PSD era não ter qualquer plano e – ao contrário do governo do PS – nenhuma capacidade de inventar um soundbite sonante como “corredor de energia verde” ou “primeira grande corredor de hidrogénio da União Europeia”.

O tempo foi passando e, quatro meses e dezenas de secretários de Estado e ministros mais tarde, António Costa voltou a socorrer-se deste guião para dizer que a produção de hidrogénio verde vai ser a nova “reindustrialização” do país.

É preciso olhar para os projetos em cima da mesa, em particular o gasoduto de Celorico da Beira até Zamora (chamado CelZa), para clarificar a sua natureza e objetivos. Este projeto serve principalmente para expandir a infraestrutura de gás fóssil na Europa e em Portugal. O segundo objetivo é favorecer os interesses dos acionistas da Galp, da EDP e da REN em particular, criando um novo negócio que é queimar gás para produzir hidrogénio para exportação. Um terceiro objetivo é criar desde já a capacidade de exportar eletricidade produzida a partir de renováveis, apesar das mesmas não conseguirem sequer suprir as nossas necessidades elétricas atuais.

Clarificamos então algumas questões sobre este projeto:

– A primeira razão pela qual foi anunciado que ele era para 100% hidrogénio é ser financiado com fundos europeus para a transição, corrompendo a mesma de forma imediata;
– Não reduz nem faz parte de qualquer plano de eliminação de combustíveis fósseis, garantindo, em vez disso, que o negócio do gás continua a ser viável durante décadas;
– Em nada contribui para a eletrificação da economia em Portugal;
– Produz inovação no sentido de perverter estímulos à descarbonização para entregá-los às empresas fósseis e manter o seu modelo de negócio;
– Nada acrescenta em termos de segurança energética, mas antes reduz a disponibilidade de eletricidade de origem renovável, orientando-a preferencialmente para a exportação, em vez de servir para descarbonizar, por exemplo, as indústrias pesadas com ciclos locais de produção de hidrogénio verde.

O Celza é um projeto de, por e para a indústria fóssil. Um gasoduto construído para transportar gás “natural” não serve para para transportar hidrogénio, mas um gasoduto construído para transportar hidrogénio serve para transportar gás “natural”, e este não é um detalhe. Mas há uma grande diferença: o gasoduto para hidrogénio é muitíssimo mais caro. Assim, o CelZa é um gasoduto que serve perfeitamente para transportar gás natural, o que sem qualquer dúvida fará.

Os percursos propostos esclarecem-nos sobre objetivos. Serão desenterrados quilómetros de gasoduto desde a Figueira da Foz até Celorico da Beira e reconvertidos para permitirem o transporte de hidrogénio. De onde virá este hidrogénio? O Plano Nacional do Hidrogénio não o esconde: só na década de 2040 se produzirá mais hidrogénio “verde” (de origem renovável) do que hidrogénio de origem fóssil, isto é, o gasoduto não vai ser nenhum corredor de energia verde, mas sim de hidrogénio, na sua maioria produzido pela queima de gás. É na Figueira da Foz que se encontra a central a gás de Lares da EDP, de onde pode seguir para o gasoduto ou gás ou hidrogénio feito a partir da sua queima. Em qualquer um dos cenários, é um resgate à indústria fóssil.

Todas as cidades, aldeias e campos no percurso por onde passará este gasoduto não terão qualquer benefício e, pelo contrário, ocorrerão expropriações, destruição e devastação. Tudo para a foto de António Costa poder manter-se um pouco como o retrato de Dorian Gray e o gás que precipita o colapso climático poder continuar – sob a forma normal ou de hidrogénio cinzento, a alimentar os lucros dos acionistas da Galp, da EDP e da REN.

Este artigo foi publicado originalmente no Expresso.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

8.º Encontro Nacional pela Justiça Climática - Programa para Sábado, 11 de Fevereiro de 2023

Tantas crises. E eu sou só uma pessoa.

Aumentam os preços, no fim do mês o dinheiro escasseia. Aumenta a temperatura, há cada vez menos floresta e menos água. Aumentam os lucros dos milionários, torna-se um luxo o acesso a casas, cuidados de saúde, energia e alimentos de qualidade. Estou em pânico com as notícias. Multiplicam-se as secas, as ondas de calor, os incêndios, os furacões, as cheias,… Soam os alertas. Logo normalizados. 

O que fazer quando um território está a arder? O que fazer quando um terço do Paquistão fica submerso e sabemos que só vai piorar? Dizem-nos que não há outro caminho. Que não temos poder. Dizem-nos que estamos isoladas. Mas nós não estamos sozinhas. Tu não estás sozinha. 

O sistema capitalista e extrativista em que vivemos está a afundar-nos numa crise civilizacional que deriva da sua incapacidade de aceitar limites e suplantar a sua natureza predadora. Nestas condições, a complexidade e gravidade ligada à criação de crises constantes, que agravam as injustiças, as desigualdades e a exploração, são inevitáveis. Perante esta rotina sempre muito justificada, mas pouco justificável, somos empurradas para uma espécie de “normalização de uma realidade adaptada a estas crises”. As lutas começam a parecer cada vez mais particularizadas e afastadas umas das outras. 

Mas porquê, se tudo isto é inerente ao sistema que coloca constantemente o lucro e não as pessoas e a Vida no centro? 

De 10 a 12 de fevereiro, junta-te a centenas de pessoas e dezenas de organizações do movimento pela Justiça climática no 8o Encontro Nacional pela Justiça Climática (ENJC). Pela primeira vez, o ENJC sai de Lisboa e vai para o centro de Portugal, de forma a sermos muitas mais, unindo sul e norte do país em Coimbra. Este é um espaço de partilha de conhecimento e experiências, onde tu podes conhecer as lutas que enfrentamos, as pessoas que as travam e as soluções e caminhos por percorrer. Este é o espaço e momento para conheceres e escolheres como te podes envolver nos próximos passos do movimento pela justiça climática em Portugal. 

Lê as 8 razões para ir ao 8º Encontro Nacional pela Justiça Climática, aqui!

Já podes ver o Programa para Sábado!

A tua inscrição é importante para termos uma clareza de quantas pessoas podemos contar e planearmos o evento de forma a torná-lo o mais acessível possível para todas.

Temos uma equipa a tratar de alojamento solidário para todas as participantes que se inscrevam e irás ser contactada para perceber qual a forma preferencial para ti de ser acolhida. As opções serão:
– Um local que arranjamos para 30 pessoas.
– As pessoas que se inscrevam de Coimbra e podem receber uma pessoa na sua casa.
– As repúblicas de Coimbra receberão pessoas na sua casa.
– Alugamos duas camaratas na pousada da juventude para 10 pessoas. (esta opção fica a pagamento por parte do participante)

Quanto a transporte público para o evento estamos atualmente à procura de alternativas mais acessíveis para as nossas participantes.

A alimentação será vegana. Será nas cantinas universitárias.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

[Vídeo] Pesticidas SDHI: a bomba-relógio dos agroquímicos


A POLLINIS lidera há 5 anos a luta contra os agrotóxicos SDHI ao seu lado, e luta com seus modestos meios para trazer à tona o que sem dúvida será um dos maiores escândalos sanitários e ambientais das próximas décadas.

Graças ao seu apoio e mobilização histórica , conseguimos reunir mais de 400.000 cidadãos dispostos a lutar contra as empresas agroquímicas: isso é mais do que todos os habitantes de Nantes, Lille ou Montpellier!

Conseguimos levar a sua voz ao Parlamento Europeu e depositar as suas assinaturas nas mãos dos representantes da Comissão Europeia em Bruxelas.

Finalmente, conseguimos obter o apoio de dezenas de parlamentares europeus (1) para que esses venenos fossem removidos de nossos territórios o mais rápido possível – para a saúde das abelhas e da biodiversidade, e para a saúde e bem-estar das próximas gerações.

Nas próximas semanas, vamos levar o estilingue aos tribunais para acabar definitivamente com esses matadores de abelhas.

Para colocar as probabilidades do nosso lado, é essencial poder contar com o apoio do maior número possível de cidadãos .

Ao reunir centenas de milhares de assinaturas adicionais à nossa petição nos próximos dias, queremos exercer a máxima pressão sobre as autoridades nacionais e europeias...

… para forçá-los a ouvir a ciência e, finalmente, tomar partido pela saúde e pelo meio ambiente dos cidadãos que deveriam representar !

Por favor nos ajude:

Dedique dois minutos para assistir a este pequeno vídeo que explica de forma muito simples como os pesticidas SDHI matam a biodiversidade e por que representam um perigo inaceitável para a saúde humana …

ASSISTA O VÍDEO ►


E, acima de tudo, divulgue-o o mais amplamente possível ao seu redor, para mobilizar seus entes queridos que ainda não ouviram falar desse escândalo de saúde!

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Juntos, podemos vencer:

Muitos cidadãos ainda desconhecem os sérios danos que os pesticidas SDHI estão causando às abelhas e a todos os seres vivos (2); a sua presença dramática na nossa alimentação (3) e na dos nossos filhos (4); seus efeitos mortais nas células humanas (5)...

… e a inação aberrante das autoridades de saúde que se recusam a ouvir as advertências de cientistas e cidadãos (6) para proteger os interesses financeiros de um punhado de empresas agroquímicas.

Com a mobilização de todos, temos meios para evitar que os líderes políticos fechem os olhos à alarmante toxicidade dos pesticidas SDHI - para os polinizadores e toda a biodiversidade, para a nossa saúde e a das nossas crianças!

Por favor, transfira este vídeo com urgência para as pessoas ao seu redor que possam se mobilizar conosco.

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Desde já agradecemos a sua indispensável participação.

Com determinação e esperança,

A equipe POLLINIS


Referências :

  1. POLLINIS, Em Bruxelas, cerca de trinta deputados já apoiam a petição contra o SDHI , 12 de julho de 2022.
  2. POLLINIS, Estudos científicos estão se acumulando sobre os efeitos adversos dos fungicidas SDHI , 1º de março de 2022
  3. Słowik-Borowiec, M., Szpyrka, E., Rupar, J., Podbielska, M. & Matyaszek, A. Ocorrência de resíduos de pesticidas em vegetais frutíferos de fazendas de produção na região sudeste da Polônia . Roczniki Panstwowego Zakladu Higieny 67, 359–365 (2016).
  4. Nougadere, A. et al. Exposição dietética a resíduos de pesticidas e riscos associados à saúde em lactentes e crianças pequenas - Resultados do estudo francês da dieta infantil total . Meio Ambiente Internacional 137, (2020).
  5. Benit P, Kahn A, Chretien D, Bortoli S, Huc L, Schiff M, et al. (2019) Suscetibilidade evolutivamente conservada da cadeia respiratória mitocondrial a pesticidas SDHI e sua consequência no impacto de SDHIs em células humanas cultivadas . PLoS ONE 14(11): e0224132.
  6. “ Vários dos cientistas que estiveram presentes neste encontro [com a ANSES] ainda hoje falam dele como o pior dia da sua vida profissional, tanto se sentiram desprezados e não levados a sério ”. Basta!, SDHI, esses pesticidas massivamente aplicados que atacam todos os seres vivos , 21 de fevereiro de 2020.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Precisamos de um serviço público de energias renováveis – Leonor Canadas e Daniel Borges

O ano começa com a promessa da subida generalizada de preços. O aumento das contas do gás e eletricidade, a que 2022 nos habitou, vai continuar. As soluções que nos estão a ser oferecidas pelos
nossos representantes políticos ficam muito aquém das necessidades reais das pessoas.

O Governo, em Outubro, atribuiu três mil milhões de euros para apoiar as empresas intensivas em energia com as faturas de gás e luz. Este é um apoio que acaba nas mãos das empresas de energia e da indústria fóssil. Mais recentemente anunciou que vai oferecer 240 euros às famílias mais vulneráveis, uma ajuda temporária que não traz soluções para um problema estrutural. Em 2020, 19% da população portuguesa encontrava-se em situação de pobreza energética*.Ora, este valor é mais elevado do que o número de famílias que vão receber este apoio, e certamente com a crise que vivemos esta percentagem já aumentou.

Esta crise tem na base um sistema energético pouco resiliente, dependente da indústria fóssil e gerido por um mercado que é monopólio de umas poucas empresas. Precisamos de uma solução que garanta que este cenário de preços incomportáveis e lucros recordes não se repete. Precisamos de um serviço público de energias renováveis. O sistema atual não nos serve.

A Agência Internacional de Energia anunciou no seu último relatório que “os altos preços da energia estão a causar uma enorme transferência de riqueza dos consumidores para os produtores”**. A Galp nos primeiros nove meses de 2022 atingiu valores de lucros de 608 milhões de euros, um valor que superou em 86% os lucros atingidos no mesmo período do ano anterior. A Galp e a EDP registaram juntas mais de mil milhões de euros em lucros nos primeiros nove meses do ano.

Se não fosse suficiente olhar para os seus lucros para perceber que o interesse público não está na sua agenda, estas são as mesmas empresas que têm de forma consciente arrastado a humanidade para uma crise climática. A Galp anunciou no final de Dezembro um contrato de acesso por 20 anos a gás liquefeito num projeto no Texas, acordo que vem complementar outros assinados pela empresa de forma a garantir o seu abastecimento de gás. Mas no seu site, a empresa diz-nos “que é tempo de regenerar o futuro”. Certamente não se refere ao futuro de todas as pessoas que já sofrem com as consequências da crise climática.

Enquanto entram no mercado das energias renováveis, estas empresas continuam a investir massivamente em energias fósseis. Esta diversificação de fontes de energia está a ser apresentada pelas empresas fósseis como uma transição energética mas não o é. O projeto delas é de expansão energética e expansão dos lucros. Por isso, 2022 bateu novamente o recorde de ano com o maior nível emissões de gases com efeito de estufa alguma vez registado.

A transição energética não está a falhar por falta de fundos, por falta de capacidade técnica, ou pelos potenciais impactos económicos na sociedade. Está a falhar porque o mercado da energia fóssil é precisamente isso: um mercado.

E se vivemos uma crise energética é também em parte porque não houve pensamento estratégico no investimento num sistema energético que funcione em prol do bem comum por parte dos últimos governos, especialmente daqueles que privatizaram a EDP e a REN. Portugal é dos poucos países europeus onde a rede de transmissão de energia é completamente privatizada. A privatização da REN foi imposta em 2011 pelo Fundo Monetário Europeu e pela Comissão Europeia. Assim, neste momento a energia é vista como mais uma mercadoria e o sistema energético é construído a favor dos interesses dos donos deste mercado. Por isso sentimos agora os efeitos de uma inflação marcada por lucros recordes.

Ora, a energia é um bem essencial, e por isso deve ser gerida democraticamente na ótica do serviço público. Isto é especialmente importante face ao papel do sistema energético nas alterações climáticas. Precisamos de uma empresa pública de energias renováveis porque os serviços essenciais e o futuro da humanidade não podem ficar à mercê das mãos invisíveis das corporações fósseis. Produzir e distribuir energia de acordo com o interesse público é fundamental para qualquer plano de transição climática justa, estabilizando os preços e garantindo acesso universal a energias renováveis, enquanto se criam milhares de Empregos para o Clima. Precisamos de um serviço público de energias renováveis porque uma transição energética justa, que sirva as pessoas só pode acontecer se for liderada pelo setor público com participação e escrutínio das pessoas. Esse é o plano para travar o colapso climático e garantir segurança, resiliência e soberania energética. A Galp, a EDP, a REN e os seus acionistas têm outros planos.


*Nos dados divulgados a 6 de janeiro de 2020 pelo Eurostat, Portugal consta como o quinto país da União Europeia
onde as pessoas têm menos condições económicas para manter as casas devidamente aquecidas, sendo que cerca de
19% dos portugueses estão em situação de pobreza energética.
**https://www.iea.org/reports/world-energy-outlook-2022


Este artigo foi públicado originalmente https://www.publico.pt/2023/01/08/azul/opiniao/precisamos-servico-publico-energias-renovaveis-2033757.

domingo, 25 de dezembro de 2022

NATAL - MIGUEL TORGA

 NATAL

 

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. «Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser» - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no Céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera.se.lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhe a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer! Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo.. Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.

E caía, o algodão-em-rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como o moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro de ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças! 

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.

- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.

Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pala negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca;; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.

- É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias-medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.


Obras Completas de Miguel Torga, Contos, Círculo de Leitores, 2002, p.p. 399 a 402.


terça-feira, 20 de dezembro de 2022

8º Encontro Nacional pela Justiça Climática

10 e 11 de Fevereiro

Departamento de Física da Universidade de Coimbra, Coimbra

Junta-te a centenas de pessoas e dezenas de organizações do movimento pela Justiça climática no 8º Encontro Nacional pela Justiça Climática (ENJC)!

Inscreve-te AQUI!

Tantas crises. E eu sou só uma pessoa.

Aumentam os preços, no fim do mês o dinheiro escasseia. Aumenta a temperatura, há cada vez menos floresta e menos água. Aumentam os lucros dos milionários, torna-se um luxo o acesso a casas, cuidados de saúde, energia e alimentos de qualidade. Estou em pânico com as notícias. Multiplicam-se as secas, as ondas de calor, os incêndios, os furacões, as cheias,… Soam os alertas. Logo normalizados. 

O que fazer quando um território está a arder? O que fazer quando um terço do Paquistão fica submerso e sabemos que só vai piorar? Dizem-nos que não há outro caminho. Que não temos poder. Dizem-nos que estamos isoladas. Mas nós não estamos sozinhas. Tu não estás sozinha. 

O sistema capitalista e extrativista em que vivemos está a afundar-nos numa crise civilizacional que deriva da sua incapacidade de aceitar limites e suplantar a sua natureza predadora. Nestas condições, a complexidade e gravidade ligada à criação de crises constantes, que agravam as injustiças, as desigualdades e a exploração, são inevitáveis. Perante esta rotina sempre muito justificada, mas pouco justificável, somos empurradas para uma espécie de “normalização de uma realidade adaptada a estas crises”. As lutas começam a parecer cada vez mais particularizadas e afastadas umas das outras. 

Mas porquê, se tudo isto é inerente ao sistema que coloca constantemente o lucro e não as pessoas e a Vida no centro? 

Dias 10 e 11 de fevereiro, junta-te a centenas de pessoas e dezenas de organizações do movimento pela Justiça climática no 8o Encontro Nacional pela Justiça Climática (ENJC). Pela primeira vez, o ENJC sai de Lisboa e vai para o centro de Portugal, de forma a sermos muitas mais, unindo sul e norte do país em Coimbra. Este é um espaço de partilha de conhecimento e experiências, onde tu podes conhecer as lutas que enfrentamos, as pessoas que as travam e as soluções e caminhos por percorrer. Este é o espaço e momento para conheceres e escolheres como te podes envolver nos próximos passos do movimento pela justiça climática em Portugal. 

Se és de Coimbra e queres ajudar a criar este evento incrível é só nos deixares um comentário e entramos em contacto contigo!

Este evento dependerá de muita esforço coletivo e esforço em angariar fundos para que o mesmo tenha uma participação acessível a todas. Para tal, se gostarias de contribuir e ajudar-nos, criámos Esta Página onde podes doar para o nosso evento 🙂

Aqui ficam os links para os encontros anteriores:

7º Encontro Nacional pela Justiça Climática

6º Encontro Nacional pela Justiça Climática


O 8º Encontro Nacional pela Justiça Climática  é co-organizado por:

AmbientalIST, ClimaçãoCentro, Climáximo, EcoMood, Greve Climática Estudantil, Sciaena, Scientist Rebellion, ProTejo, Último Recurso, Um Coletivo, UMAR, Youth Climate Leaders, Zero.

Com o apoio de : Centro de Estudos Sociais, Coopérnico, EcoPsi, IMVF, Já Marchavas, Linha de Fuga, M.A.E., PTRevolution,

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

"Livre não sou,..." - MIGUEL TORGA

Nestes tempos de destruição em massa e repressão sobre as pessoas que resistem e lutam em defesa da vida. Partilhamos dois poemas de Miguel Torga que também foi perseguido e preso, na sequência da publicação de O Quarto Dia da Criação do Mundo, em 1939.

 

Conquista

 

Livre não sou, que nem a própria vida

Mo consente.

Mas a minha aguerrida

Teimosia 

É quebrar dia a dia

Um grilhão da corrente.

 

Livre não sou, mas quero a liberdade.

Trago-a dentro de mim como um destino.

E vão lá desdizer o sonho do menino

Que se afogou e flutua

Entre nenúfares de serenidade

Depois de ter a lua!



S.O.S

 

Vai ao fundo o navio,

Mas eu sou o homem da telegrafia.

O que lança nas asas do vazio

O adeus da agonia...


Sei que ninguém acode à íntima certeza

De que tudo acabou quando naufraga

O veleiro do sonho.

Mas honrado poeta sinaleiro

Do destino de quantos aqui vão,

Ponho

A correr mundo o grito derradeiro

Da nossa desgraçada perdição.

 

Em: Miguel Torga, Antologia Poética, Círculo de Leitores, 2001, pp. 126/7

NÃO ESTÃO SOZINHAS! PORQUE TEMOS QUE NOS LIBERTAR DO SISTEMA ECOCIDA

Francisco Pedro (Kiko) – Jornalista e Activista da ATERRA

Não estão sozinhas porque eu também cá estou.
Não estão sozinhas porque a vossa coragem, sensibilidade e inteligência nos juntaram a todas nós, nesta linda tarde de outono, junto a este horrível tribunal. 

Não estão sozinhas porque somos muitas a dar aquilo que de mais precioso temos – o nosso tempo e os nossos talentos – para travar os projectos ecocidas duma pequena elite ignorante e imatura.

Não estão sozinhas porque somos cada vez mais homens a aprender, com a vossa ajuda, a abrir-nos às nossas emoções, a calar a boca e a escutar.

Não estão sozinhas porque as nossas antepassadas estão connosco. Porque estamos a continuar a dança de todas as que antes de nós ousaram desobedecer, cuidar e amar por entre a ignorância e a injustiça.

Não estão sozinhas porque estão connosco as nossas filhas, todas as crianças que já nasceram e que vão nascer, e é por elas que lutamos e cuidamos nesta nossa fugaz e preciosa passagem.

Não estão sozinhas porque há sempre flores de ervas daninhas a romper o betão e raízes de árvores a levantar calçadas.

Porque há imensa vida para além dos muros das cidades.

Porque todos os outros animais da terra, do ar e das águas, plantas e fungos, bactérias e vírus, estão connosco também, e nós estamos com eles.

Porque por toda a parte a vida quer regenerar-se e prosperar, e temos a curiosidade de redescobrir o nosso papel nesse natural e misterioso re-equilíbrio da mãe Terra.

Não estão sozinhas porque nenhuma de nós o está. Porque juntas superamos as ilusões da separação, da solidão e da depressão. Porque juntas fazemos a nossa história, aquela que vem depois do patriarcado, do capitalismo e do colonialismo, em que nenhum ser vivo ficar para trás.

Não estão sozinhas porque a vida é muito mais divertida, simples e verdadeira quando desobedecemos ao que dizem as elites e obedecemos ao que diz o coração.

Não estão sozinhas.
Não estamos sozinhas.

Mensagem às activistas presas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, posteriormente, levadas a tribunal. Processo judicial que se arrasta, com nova audiência marcada para dia 16.

 Publicada, entre outras, em: https://naoestaosozinhas.pt

Notas: O Kiko, também já foi preso e levado a tribunal por dizer publicamente umas verdades, na presença do primeiro dos ministros (o que preside ao concelho) e seus correlegionários politico-ideológicos e patrões/empresários/empreendedores/corporativos, cujos interesses o Estado garante e os contribuintes pagam e sofrem as consequências, dos crimes pelos mesmos cometidos. 

Ecocida: que ou o que é agente ou causador de ecocídio.

Ecocídio: destruição intencional de um ecossistema.

Dicionário da Língua Portuguesa - Porto Editora, Lda, 2009


 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

NÃO AO NOVO GASODUTO!


Comunicado | Não ao novo gasoduto!

Campanha Gás é Andar para Trás opõe-se à construção do novo gasoduto entre Portugal e Espanha.

Hoje os governos de Portugal, Espanha e França reúnem para decidir os detalhes de um plano criminoso: a expansão da infraestrutura fóssil em plena crise climática. Trata-se da construção da terceira conexão via gasoduto entre Portugal e Espanha, de Celorico da Beira até Zamora, com seguimento no gasoduto entre Barcelona a Marselha (nova ligação entre Espanha e França).

A Campanha Gás é Andar para Trás opõe-se à construção desta infraestrutura ociosa que nos prende ao vício do gás fóssil e impede reais soluções.

O novo gasoduto não vai transportar energia renovável

A denominação “corredor de energia verde” é mais uma tentativa do governo português de pintar de verde um projeto poluente e criminoso. As energias renováveis – solar, eólica, ondas, etc – não necessitam de um gasoduto.

Segundo o governo, o gasoduto é “verde” porque servirá para transportar hidrógenio, algures no futuro.
Em primeiro lugar, Hidrogénio não é uma energia renovável, precisando de uma fonte de energia para ser produzido. Não há garantia de qual será a energia utilizada para produzir esse hidrógenio, sendo a maioria do hidrógenio atualmente produzido através de combustíveis fósseis.
Em segundo lugar, sabemos que a infraestrutura de gasodutos não tem capacidade técnica para transportar 100% hidrógenio visto ser um gás instável e que cria microfissuras nos gasodutos. Assim, a infraestrutura de gasodutos atual é capaz de transportar no máximo 20% de hidrogénio necessitando de ser misturado com gás fóssil. Assim, mesmo no melhor cenário, será necessário que no mínimo 80% da matéria a ser transportada seja “gás natural”, um combustível fóssil.

Descobre mais sobre hidrogénio AQUI.

O novo gasoduto bloqueia uma transição energética

Este projeto fóssil desvia financiamento público. Tratam-se de milhões de euros de fundos públicos a serem utilizados para uma nova infraestrutura fóssil ao invés de serem utilizados para a construção de infraestruturas de energias renováveis e para garantir uma transição justa para todos os trabalhadores da indústria fóssil. Estes investimentos em gás fóssil não são compatíveis com a trajetória de neutralidade climática da União Europeia e não podem ser considerados investimentos sustentáveis ou com contributo para os objetivos climáticos europeus. Fazê-lo é apenas estender novamente o tapete à promoção de projetos obsoletos e extremamente prejudiciais para a vida de todas as pessoas.

Em plena crise climática, em que enfrentamos cheias e secas extremas, um gasoduto é uma arma de crime contra a vida e uma infraestrutura ociosa que nos prende ao caos climático e impede a real transição.

O novo gasoduto não vai levar a preços de energia e gás mais baratos

A causa principal da inflação atual é gás fóssil, como refere a Agência Internacional de Energia: “Os altos preços da energia estão a causar uma enorme transferência de riqueza dos consumidores para os produtores, para níveis similares aos de 2014 no caso do petróleo, mas totalmente sem precedentes no caso do gás natural. Os preços altos dos combustíveis são responsáveis por 90% do aumento dos custos médios da geração de eletricidade a nível global, com o gás natural à cabeça, sendo responsável por mais de 50% do aumento.”

Ao mesmo tempo que os preços de gás dispararam os lucros das empresas fósseis bateram recordes. O nosso dinheiro está a ir diretamente para os bolsos dos acionistas. A construção de novas infraestruturas de gás fóssil só alimentam este vício e especulação.

Ao mesmo tempo, as energias renováveis como solar e eólica nunca tiveram tão baratas e acessíveis. Aliás, com o mesmo investimento que a Europa tem feito na expansão de gás fóssil – com mais importações e mais infraestruturas – seriamos capazes de produzir mais 10% de energia, se fosse antes utilizado para aumentar de capacidade de energia solar.
O plano para soberania e democracia energética que garante energia acessível a todas é energia pública e 100% renovável.

Hoje voltamos a dizer Não ao Novo Gasoduto!

Não é a primeira vez que o governo português tem este plano criminoso. Em 2018 o movimento pela justiça climática lutou contra este mesmo projecto, que foi cancelado por pretender atravessar património mundial. Hoje o movimento pela justiça climática reitera a sua posição: não deixaremos a construção de mais armas de crime contra a vida de todas as pessoas que têm como único fim o lucro da indústria fóssil.

Via: https://www.climaximo.pt/2022/12/09/comunicado-nao-ao-novo-gasoduto/

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

GÁS NATURAL?

O gás é tão natural como o petróleo, o carvão e as areias betuminosas. Estão todas entre as energias extremistas...

Vejamos como é extraído e as consequências daí resultantes. 

No ano 2000 houve uma expansão exponencial no Estados Unidos da América (do Norte), recorrendo à extracção através da fractura hidráulica (fracking, em inglês). Com este método, para extrair petróleo e gás, fazem-se furos nas rochas do subsolo injectando um fluído a alta pressão. Fluído que tem entre os seus componentes ácidos, biocidas, espumas, gel formaldeído, benzeno, xileno, crómio, antimónio, hidróxido de sódio, tolueno, etanol, naftaleno e areia, entre centenas de outros produtos químicos. 

Após a abertura do furo, as areias mantêm-no aberto para assim o gás e o petróleo poderem sair das jazidas geológicas, usualmente através de condutas. Este fluído contamina solos, subsolos e a escassa água doce e potável subterrânea.

Como o fluído é injectado a alta pressão provoca e aumenta a frequência de tremores de terra. Este processo, como está documentado em, por exemplo, Gasland, destrói e contamina os terrenos, ás águas ficam cheias de metano dissolvido e o ar irrespirável, provocando doenças a pessoas e animais. Em suma: destruição absoluta, matando toda as formas de vida.

Segundo João Camargo, as fugas de gás nos poços de petróleo, de gás e nos solos desestruturados pode atingir, em volume, os 9% do gás extraído. A introdução da extracção do gás por fractura hidráulica (fracking) levou a que os Estados Unidos sejam os maiores produtores de gás do mundo, e as emissões de gás metano, para a atmosfera, no país, aumentaram em 30% desde 2002. O gás metano tem um efeito de estufa muito superior ao do dióxido de carbono (25 a 84 vezes maior, ainda que fique menos tempo na atmosfera). 

Este método de exploração e extracção de gás e de petróleo, para além de destruírem os territórios onde se instalam, tornando-os inabitáveis e matando todo o tipo de vida,  aumentam e aceleram exponencialmente as emissões de gases com efeito de estufa. Os EUA são os maiores produtores de gás por fractura hidráulica, mas também a China, Argélia, África do Sul, Argentina, México, Inglaterra e Canadá o fazem. A Irlanda, Escócia, Bulgária e Alemanha, não utilizam esse processo, e a França, Holanda e Tunísia adoptaram uma moratória contra a sua utilização.

Respigado de: Manual de Combate às Alterações Climáticas, João Camargo, Edições Parsifal, Lda, Lx., 2018, p.p. 189/190.