quarta-feira, 23 de setembro de 2026

REQUIEM POR SALVADOR ALLENDE

 

Foi de súbito no outono juro solenemente que o foi
mas as árvores fora tinham de novo folhas recentes
primavera no chile primavera no mundo
Sinto-me vivo habito muito de pé numa casa
leio vagarosamente os jornais sei devagar que os leio
enfrento meu velho borges o muito meu destino sul-americano
Acabara um poema enchia o peito de ar junto da àgua
sentia-me importante conquistara palavras negação do tempo
o mar era mais meu sob a minha voz ali solta na praia
talvez voz metafísica decerto voz de um privilegiado
ombro a ombro com gente analfabeta uma gente sensível e leal
mas que não pode ler e vive muito menos por o não saber
embora saiba olhar o mar sem o saber interpretar
acabara um poema enchia o peito de ar junto da água
quando o irmão miguel veio pequeninamente pela areia
e convulsivamente me falou da situação no chile
veio pela praia e punha nas palavras mãos de solidão
mãos conviventes com outras palavras mãos que palavra a palavra
erguem um poema no silêncio só circundante
Allende tinha uns óculos os óculos tinham-no
com eles via a vida com eles via os homens via homens
via problemas de homens e as coisas que via eram coisas de homens
hoje apenas uns óculos sem nenhum olhar por detrás
Nos finais de setembro nos princípios de novembro
tu meu amigo que não posso nomear sem te denunciar
dar-me-ás talvez notícias meramente pessoais
já que projectos sociais projectos cívicos profissionais
ficariam decerto nas policiais desertas mãos dos generais
mãos que mataram mãos que assaltaram a casa de neruda
mãos limpas já do sangue despojadas já das alianças
que caridosamente deram que assim conseguiram
solucionar os prementes problemas do país
Ouvi falar também desse cargueiro playa larga
praia comprida mas praia deserta e não só na palavra
pois quanta praia tinha hoje só tem o sangue dos milhares das pessoas fuziladas
A onze de setembro nesta praia portuguesa só uns passos pela areia
algum poema terminado alienado algum termo conquistado
tão inefável como por exemplo o de tancazo
atribuído ao golpe orientado por pablo rodriguez
homem que vai modelando palavras ao ritmo martelado pelo ódio
na tentativa vã de destruir frases hoje históricas
do grande cavalheiro que decerto foi allende
e já antes de o dizer com a vida dizia que por exemplo
mais vale morrer de pé do que viver ajoelhado ou então
se as direitas me ajudam a ganhar ganharão as direitas
País amável calorosa entrada em santiago
e ver-me em frente desse homem sozinho relutante em recorrer às armas
e que depois de o ter visto e o ter ouvido
ao homem que for homem poderei chamar-lhe
seja qual for o nome salvador allende
Que nestas minhas minerais palavras de poeta
vibre um pouco o vigor da tua voz
bafejando de paz primeiro o bom povo do chile
depois o povo bom de todo o mundo
Que a ignomínia da história não demore em cobrir com o seu manto
os que têm a força mas não têm a razão
pois o nazi-fascismo não ganhou nem nunca ganhará
Mando-te uma ave preta rente à leve ondulação do mar
tu mandas-me no mar a ave branca do teu rosto
vento que vem do mar vento que vem do chile
Aqui neste dia de súbito cinzento
somente povoado pelo meu sofrimento 
e pelo pensamento desse sofrimento
voo também vou também eu nesse lenço
que retiro do bolso aqui à beira-mar
e o meu lenço ao vento é uma ave avesíssima uma ave de paz
uma ave avezada a cada uma das derrotas existentes no mar
somente agora destruída trespassada pela bala que leva uma vida
ave que ao entoar seu canto profundíssimo afinal apenas diz
muito obrigada salvador allende
obrigada por essa tua vida de cabeça erguida
só agora tombada trespassada pela bala que leva uma vida
mas não pode levar de vencida a obra por allende começada
selada por essa promessa de lutar até ao fim até à hora de morrer
nesse importante posto onde te investiram a lei e o povo
Foi no ano de mil novecentos e setenta
ano em que eu fiquei a apodrecer no meu país
que uma coligação do tipo frente popular tomou
pela via legal conta do poder no chile
legalidade sempre respeitada por ti allende
mas por fim desrespeitada pelos militares pelas direitas pela
cristã democracia partido bem pouco cristão e pouco democrático
Falavas com palavras de verdade
uma bala na boca nessa boca donde ainda pouco antes
saíam as palavras na verdade belas como balas
salvador allende guerrilheiro sem metralhadora e sem boina
de casaco e gravata para essas guerrilhas no parlamento
guerrilhas todas elas tão contrárias à guerra quão favoráveis à paz
essa palavra alada como ave ave não só de georges braque
mas de nós todos aves verticais aves a última estação
árvores desfolhadas num definitivo inverno
allende do cansaço dos problemas da preocupação constante em jogares limpo
com quem em vez de mãos utensílio de paz vinha com bombas em lugar das
                                                                                                                  mãos
allende já há muito tempo sem uns olhos para olhares o mar
e sem poderes olhar as pedras preciosas de que fala
pablo neruda teu e meu poeta teu íntimo amigo
em las piedras del cielo esse livro puríssimo
e são pedras do céu mas mais do que do céu pedras da terra
Sol que te pões e nascerás no chile
leva-me a um país que em criança conhecíamos apenas
dos sacos de serapilheira com o nome impresso de um nitrato
e não por dar o nome a uma pequena mas confusa praça de lisboa
nem por sair nas páginas diárias dos jornais
Do chile chegou-me não há muito a amizade do hernán
que me madrid conheci e não responde há muito às minhas cartas
e a de mais chilenos de olhos vagamente tristes sérios quase portugueses
e desse país mais comprido do globo veio-me também
o lápis-lazúli pedra não já de esperança pedra de amizade
Os camiões há muito já que não sulcavam as estradas do país
estradas bafejadas pela aragem enviada pelo mar por esse
oceano pacífico de um país ainda há pouco bem pacífico
O washington post falava já do golpe dias antes do golpe
ninguém falava delas mas elas encontravam-se ali mesmo
as autoridades militares as autoridades militares as autoridades americanas
vestiam mesmo as fardas do exército chileno
esses americanos gente do dinheiro e do veneno
de um veneno talvez chamado dinheiro
que terá pago em parte as modificações dos foguetes do tipo poseidon
montados já a bordo dos divinos submarinos nucleares americanos
assunto de política estrangeira americana
Hernán urrutia meu amigo austral
que em barajas vi olhar voltar
para mim a cabeça pela última vez
marcelo coddo professor em concepción
com quem que bem me lembro conversei sobre o poeta cardenal
e sobre a jovem poesia nicaraguense
e tantos outros que nem mesmo me terão deixado o nome
mas me deixaram alguma palavra a música da fala um certo sorriso
um certo olhar visível por detrás de uns óculos
talvez hoje quebrados por quem não considera
talvez suficiente o quebrar da vida na haste da vida
embora porventura tenha visto aquela sequência de fellini
e desconhece que afinal a vida reproduz a arte
Escrevo este poema no jornal com as notícias frescas
após ter evitado ver as caras de triunfo desses locutores luzidios da televisão
e mesmo ter ouvido até a voz desse pedro moutinho
a voz das afluências ao nosso principal estádio o da cova da iria
e dos cortejos presidenciais e dessas tão espontâneas manifestações
voz afinal da cia e da itt e dos demais tentáculos
do imperialismo norte-americano
maneira americana de se estar no mundo
que pagarão agora o preço da cabeça dos trabalhadores chilenos
que marcham mas decerto em vão na direcção
do centro de santiago onde vingara
a rebelião dos marinheiros vindos de valparaiso
cabeça dos imensos deserdados deste mundo
Sabíamos decerto um pouco em que consistia
essa via chilena para o socialismo
e líamos talvez um livro acerca do programa da chamada unidade popular
e discursos de allende naquela cidade distante
embora houvesse muito mais notícias nos jornais
e a gente nos cafés falasse mais em futebol
livro por certo lido com a janela aberta sobre a noite do outono
sobre campos relvados de momento habitados pela escuridão
donde talvez se erguiam cantos pouco menos que religiosos
exaltadores de ideologias já e sem remédio ultrapassadas
Era uma vez um chileno chamado salvador allende que
fez um grande país de um país pequeno onde
talvez três anos nós houvéssemos depositado a esperança
quando fosse qual fosse a nossa nacionalidade
todos nós fomos um pouco chilenos
Mas que diabo importa em suma a qualquer de nós
que um homem se detenha quando a história caminha
em frente sempre altiva e serena
como mulher de muito tempo sabedora
Posso dizer por certo como há já muitos anos
acerca dos milicianos espanhóis dizia neruda
allende não morreste estás de pé no trigo 

Ruy Belo

Em: Todos os Poemas, Círculo de Leitores, 2000, pp. 517 a 521

Nota: Ruy Belo registou, neste poema, um 11 de Setembro que o império capitalista, e toda a choldra que o veneram e o servem, servindo-se, está determinado e empenhando em fazer com que os povos, inclusive o chileno, esqueçam, apaguem da sua memória e não o transmitam às novas gerações... 

Por isso, não podíamos deixar de contribuir para relembrar, aos mais esquecidos, e dar a conhecer aos mais novos o que o imperial poder e seus vassalos escondem...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

FOI EM AGOSTO DE 1978!

Foi em Agosto, dia 8, decorria o ano de 1978, quando, prematuramente - tinha completado, a 27 de Fevereiro, apenas quarenta e cinco anos de vida - o edema pulmonar nos levou o poeta, Ruy Belo é o seu nome. Mas, para além da poesia - a que se deu por inteiro - também foi, durante cerca de três anos, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo, assim como exerceu o cargo de leitor de Português na Universidade de Madrid, entre 1971 e 1977. Ano em que regressa a Lisboa.

Tendo requerido um lugar de assistente na faculdade de Letras de Lisboa, é-lhe recusado, apesar da falta de professores com que o ensino universitário se debatia, e ter qualificações e experiência que o habilitavam a exercer essas funções, tendo apenas conseguido um lugar de professor na Escola Técnica de Cacém, em horário nocturno.

Ruy Belo, para além de grande poeta, foi também um excelente, sério e eficiente tradutor de obras clássicas e primordiais para a humanidade:

Antoine de Saint-Exupéry (Piloto de Guerra, Cidadela e Um Sentido para a Vida), Montesquieu (Confidências sobre as Causas da Grandeza e da Decadência dos Romanos), Blaise Cendrars (Moravagine), Raymond Aron (Ensaios sobre as Liberdades), H.-I. Marron (Do Conhecimento Histórico) e Jorge Luís Borges (Poemas Escolhidos).


Rematamos, esta singela nota sobre o poeta que deu o que tinha: deu-se por inteiro, com um dos seus poemas:


O PORTUGAL FUTURO


O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Em: Ruy Belo, Todos os Poemas, Círculo de Leitores, 2000, p. 199.



  

terça-feira, 11 de agosto de 2026

DOIS POEMAS DE JORGE LUÍS BORGES

 

O truque

Quarenta cartas deslocaram a vida.
Pintando talismãs de cartão
fazem-nos esquecer os nossos destinos
e uma criação risonha
vai povoando o tempo roubado
com as floridas brincadeiras
de uma mitologia doméstica.
Nos limites da mesa
se detém a vida dos outros.
Dentro dela há um estranho país:
as aventuras do invejo e do quero,
a autoridade do ás de espadas,
como Don Juan Manuel, omnipotente,
e a manilha de ouros tilintando esperança.
Uma lentidão indolente
vai demorando as palavras
e como as alternativas do jogo
se repetem e repetem,
os jogadores desta noite
copiam antigas vazas:
facto que ressuscita um pouco, muito pouco,
as gerações de antepassados
que legaram ao tempo de Buenos Aires
os mesmos versos e as mesmas diabruras.



Um pátio

Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive
por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna.


Jorge Luís Borges, Obras completas I, 1923 - 1949, Círculo de Leitores, 1998, pp. 20, 21. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

RONDÓS PARA AS FESTIVAS GUERRILHEIRAS SARAUÍS

 Eppur si muove (Galileu)


Não há sistros; é o punhal cheiro de rosa;
salta da areia e vai destruir. Na chã
tudo o que bole é água e
vem depois a ser o fruto. Oh raparigas festivas
de deserto que levais a morte justa
ao corpo dos assassinos.
São soberbas e húmidas de alto musgo e greda,
rododentro, as vossas paredes, os olhos
com que a luta se faz. Tendes as armas
no sangue.
Oh festivas mulheres do deserto:
aqui não há falésias, nem paisagens abruptas
sobre o mar; os nomes castos das coisas
- a faca, a língua solar, o púbis, a sede -
dão flores como se fossem seios ou granadas.
Nos gestos mais simples voam detritos
e lenços rasgados de tanto assoar;
a morte canta com os seus peixes de areia.
Continuai a matar os bichos rampantes.
Oh festivas guerrilheiras sarauís de todos os desertos.

Um dia o oásis será a vossa casa campestre
porque o sangue misturado na areia costuma ser
branco e pedra voraz. E tereis abelhas e
outros punhais: agora a luta continua
também nos vossos rins em brasa, corpos fulvos
quase trevo. Oh indomáveis raparigas.
estais sentadas, eu sei, por uns momentos
preparando as balas, ateando o lume,
vigiando os poços da noite e as cabras de água.
Tudo o que bole vem depois a ser o fruto,
as armas no sangue, a greda.
Oh mulheres festivas à porta do deserto.
O segredo não tem manchas para vós,
nem os beijos se desfazem pelo fogo.
O corpo que mostrais é casto, asa sonhada.
Não há cheiros de rosa que vos desviem
de erguer a faca justiceira.
Ireis de cavalo até ao mar. Festivamente.
Oh garbosas raparigas sarauís que
trazeis a morte e a liberdade.


Estoril - Janeiro de 1980

Em: Fernando Grade, QUEM DIZ MACHO DIZ FÊMEA, Edições Mic, Colecção Salamandra/2, 1982, p. 15



sábado, 9 de maio de 2026

OS ESTATUTOS DO HOMEM

                                           (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

 

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

 

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

 

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

 

Artigo IV.

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


Parágrafo Único:

O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.


Artigo V.

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

 

Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

 

Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

 

Artigo XI.

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

 

Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

 

Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

 

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198

Em: um poema - jornalmaio.org

sábado, 11 de abril de 2026

"QUADRAS POPULARES" - JOSÉ AFONSO

 

Nestas quadras vão notícias
Pr'a quem está mal informado 
Dá-me o tom desta cantiga
Quero estar bem preparado

Quero estar bem preparado
O Sol e Dó bate fino
Quando o compasso é folgado
Entra melhor no ouvido

Os ricos mentem ao povo
Com artes de feiticeiro
Dizem que são pela Pátria
Mas só pensam em dinheiro

Hoje os tempos estão mudados
Mal vai para quem trabalha
Sai das tuas tamanquinhas
E luta contra a canalha

Sobem as rendas de casa
A habitação é um luxo
Mas há quem tenha palácio
Piscina, parque e repuxo

Foi dar a Lisboa um Pinto
Habitar um aviário
Fizeram dele ministro
Mas não passa dum falsário

Nunca vi na minha vida
De uniforme ou à paisana
Um guarda republicano
Bater num capitalista

Franco, Pinochet, Somoza
Salazar o mais matreiro
São todos filhos dilectos
Do fascismo carniceiro

Mandarins e milionários
Senhores da Alta Finança
Sempre atamancam a pança
A cavalo nos operários

Tu chamaste-me Comuna
Pensando que me ofendias
Com esse nome viveu
Paris os seus melhores dias

Foi no século dezanove
Que houve um governo do Povo
Dão-lhe o nome de Comuna
Aí sim, o Homem novo


Em: Quadras Populares, José Afonso, Edição de José Antunes Ribeiro/Ulmeiro, 2.ª Edição, 1983, pp. 7, 8 e 9.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Poemas e uma História Fabulosa de Joaquim Pessoa

 

PORTUGUÊS SUAVE

Sorrir. De vez em quanto e apenas. A longínqua e doce primavera virá florescer mais perto, num bosque de sangue onde vagueia ainda uma horda de visigodos a embebedar-se todos os dias nesse mesmo sangue. Ah, mas não faz mal, como diria a legenda do mapa azul das terríveis vinganças. Vingar-nos-emos todos deste lapso de história em que estamos para nascer completamente roxos com o cordão umbilical a apertar-nos o pescoço mais e mais, já sem doer o que antes foi dor de parto e de partida. Apertemo-nos pois, todos, os mais fracos, para que cada forte possa ficar mais à vontade. E se alguém vier dizer que o nosso lugar não é aqui, já sabeis, nada de quezílias ou de maus modos. Sorrir. Sorrir de vez em quando e apenas.


CONTRA A MANIFESTAÇÃO   

Aconteceu de repente: o homem vinha já a gritar, de braços abertos, abraçando coisa nenhuma, quando se ouviu o estampido. Sei lá que horas eram disse a testemunha cruzando as pernas no tribunal. A polícia não sabe de nada, não temos nada a declarar a não ser que o agente disparou para o ar, compreende, tem que se intimidar esta malta, mas o inquérito está quase concluído, além de que, compreende não é, se não querem que as coisas aconteçam não se metam nisto, nós apenas estamos aqui para defender a ordem, a ordem pois, nada mais do que isso, e depois olhe aqui na esquadra só não houve feridos por milagre, até a mãe do rapaz - (1) - se atirou a um dos nossos homens mas depois passou tudo, acalmou-se, compreende, sempre perdeu um filho e um filho é um filho, nós sabemos, etc.

(1) Chamava-se José Jorge Morais, 23 anos de idade, estudante de medicina, assassinado, em 1978, no dia 10 de Junho.
 

UM DIA O MEU PAI CHEGOU

E disse-me: não sei se sabes a história daquele leiteiro que mandou fazer umas casas à custa de misturar água no leite mas numa noite de abril águas mil desabaram em trovoada e na força da enxurrada lá se foram as casas do leiteiro que na manhã seguinte comentava coçando a cabeça « Sim senhor, água as deu água as levou...»


OS FIGOS
 
Já uma vez lhes falei das figueiras do Diabo. Volto agora ao assunto porque as colheitas têm sido cada vez melhores, isto é, cada vez piores, em matéria de figos. E que isto seja considerado um aviso, uma advertência ao menos, para aqueles glutões que comem tudo o que têm à mão e gostam de ir aos figos com tipos mais pequenos. Pois, então, antes de colherem seja o que for nas figueiras do Diabo, muita atenção ao fruto que nem sempre é o figo tradicional, mas pode muito bem ser qualquer traidorzito enforcado numa pernada alta, um pequeno Judas inteiriçado e roxo, com a  língua de palmo toda para fora. Nesse caso não toquem nos figos. Hão-de estar de todo envenenados. Tragam apenas a bolsa que, decerto, ele ainda segura na mão direita, se alguém não se tiver antecipado, claro. Sempre lhes dará um certo jeito, embora, hoje em dia, com trinta dinheiros já ninguém vá longe.


A PROBLEMÁTICA

Afinal, a europa começa ou acaba aqui?, perguntou ela enquanto eu comia a sopa. Bem, disse eu, não te sei responder, mas peço-te que não espalhes a pergunta ou toda a gente poderá ficar carregada de dúvidas e é mais um problema que nos vai trazer preocupados, nomear-se-á uma comissão de inquérito, é o costume, acabam por não chegar a conclusão nenhuma, bem sabes, e essa frustração pode, inclusive, levar ao suicídio. Eu, já agora, aproveito para te dizer que também ando um bocado apoquentado, cheio de dúvidas sobre as andorinhas: não sei se são nossas e emigram para o estrangeiro ou se são estrangeiras e emigram para cá..., mas, mais tarde, quando tivermos as questões de fundo resolvidas, irei pôr pessoalmente este problema ao secretário de estado da emigração, que deve andar com a cabeça em água. Por enquanto, como deves compreender, para problemas já basta o que basta!


O CARNEIRO

Quando o carneiro tomou a chefia do rebanho, fez uma aliança com os lobos para que o protegessem e não o devorassem. Em troca, entregaria diariamente um cordeirinho no covil. Assim, o rebanho começou a enfraquecer e ao mesmo tempo a odiar o carneiro, enquanto os lobos passaram, de um, a exigir dois cordeiros por dia. Quando uma tarde o carneiro voltava do covil dos lobos, olhando o já reduzidíssimo rebanho, concluiu que, a manter-se aquela situação, em breve restaria apenas ele e seria devorado, mas devorado seria se não continuasse a entregar mais cordeiros para satisfazer o apetite da alcateia. Ainda pensou pedir ajuda ao rebanho mas decerto lha negariam os seus irmãos de raça. Decidiu então que o melhor era fugir e, sem hesitar, meteu cornos a caminho.   


Em: Joaquim Pessoa, PORTUGUÊS SUAVE, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa 1979, p.p. 19, 21, 30, 31, 46 e 50.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

O MAR DOS MEUS OLHOS

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

LIBERDADE


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

 

EXÍLIO


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades


AS ROSAS


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.


A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ter melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos


DATA


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo da ameaça


MAR

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

INICIAL

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras: O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.


AUSÊNCIA


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num País sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


OS RITMOS


Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.


POEMA AZUL


O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia os cabelos do meu bem
Que olha o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu e a lua cheia
um beijo meu

sábado, 7 de março de 2026

Sindicatos iranianos dizem: “A classe trabalhadora não ganha nada com a guerra”

 


Os trabalhadores do Irão – operários, professores, enfermeiros, reformados e outros assalariados – não ganharam nem ganharão nada com a guerra, a crescente militarização, os bombardeamentos ao país ou as políticas imperialistas e exploradoras

Dadas as actuais condições instáveis e perigosas no Irão e na região, as organizações signatárias acreditam ser seu dever tomar uma posição colectiva.
Os trabalhadores do Irão – operários, professores, enfermeiros, reformados e outros assalariados – não ganharam nem ganharão nada com a guerra, a crescente militarização, os bombardeamentos ao país ou as políticas imperialistas e exploradoras.
Os ataques de Israel e o bombardeamento de centenas de alvos em diversas partes do Irão – incluindo infraestruturas, locais de trabalho, refinarias e zonas residenciais – fazem parte de um projecto belicista cujo preço é pago pelas pessoas comuns, especialmente as classes trabalhadoras, com as suas vidas, meios de subsistência e bem-estar.
A alegação de que Israel não tem nada contra o povo iraniano não passa de mentira e propaganda política. O ministro da Defesa israelita ameaçou “incendiar Teerão”. As repetidas ameaças de Trump e de outros responsáveis norte-americanos, juntamente com o apoio irrestrito dos governos ocidentais a tais acções, apenas alimentaram ainda mais a tensão, a insegurança e a destruição na região.
Os governos de Israel e dos Estados Unidos estão entre os principais perpetradores do genocídio em curso em Gaza e de muitos outros crimes na região e no mundo. As Nações Unidas e outras instituições internacionais que, hipocritamente, se apresentam como defensoras da paz enquanto se mantêm em silêncio perante tais atrocidades, também fazem parte desta estrutura de dominação. Todo o sistema capitalista global – a sua lógica orientada para o lucro e os seus poderes imperialistas – é uma das principais causas das guerras, das catástrofes humanas e da destruição ambiental.
A classe operária iraniana não só não ganha nada com a guerra, como é directamente afectada por estes conflitos em termos de vida e segurança. As sanções económicas contínuas, as alocações orçamentais maciças para fins militares e a supressão das liberdades conduzirão a uma pobreza ainda maior, à repressão generalizada, à fome, à morte e ao deslocamento de milhões de pessoas.
Nós, trabalhadores independentes, organizações populares e activistas do Irão, não temos ilusões sobre a pretenção dos EUA e Israel de trazer-nos liberdade, igualdade ou justiça – tal como não temos ilusões sobre a natureza repressiva, intervencionista, aventureira e anti-operária da República Islâmica.
Nós, trabalhadores e operários iranianos, pagamos há anos um preço elevado – prisão, tortura, execução, despedimento, ameaças e espancamentos – na nossa luta para conquistar os direitos mais básicos e condições de vida dignas, e ainda estamos privados do direito de nos organizarmos, de nos reunirmos e de falarmos livremente. Os trabalhadores e os oprimidos deste país estão justificadamente revoltados e desiludidos com a República Islâmica e as elites capitalistas que acumularam riquezas astronómicas à nossa custa durante mais de quatro décadas, enquanto nos mantêm sem direitos e num estado de insegurança perpétua. Todos os funcionários e instituições envolvidos na repressão e no assassinato de trabalhadores, mulheres, jovens e do povo oprimido do Irão devem ser julgados e punidos pelo próprio povo.
A nossa luta enquanto trabalhadores é uma luta social e de classe. Avançará com base na nossa própria força, dando continuidade a movimentos recentes como o Pão, o Trabalho, a Liberdade e Mulher, a Vida, a Liberdade, e através da solidariedade com a classe trabalhadora internacional e com as forças humanitárias, amantes da liberdade e que lutam pela igualdade.

A continuidade do atual caminho da guerra resultará apenas em mais destruição, danos irreparáveis ao ambiente e repetidos desastres humanos. A classe trabalhadora iraniana e a população desfavorecida do país – bem como os oprimidos noutras nações da região – estão entre as principais vítimas desta situação.
As organizações signatárias apelam a todos os sindicatos, organizações de direitos humanos, grupos pacifistas, activistas ambientais e forças amantes da paz de todo o mundo para se unirem para exigir o fim imediato da guerra, dos bombardeamentos, do assassinato de inocentes e da destruição ambiental, e para apoiarem as lutas do povo do Irão e da região nos seus esforços para pôr fim ao genocídio, à beligerância e à repressão.
Os povos do Médio Oriente necessitam do fim das tensões devastadoras entre as potências regionais e globais e do estabelecimento de uma paz duradoura – uma paz na qual as pessoas possam determinar os seus próprios destinos através da organização, das associações de massas, do alargamento dos protestos e da participação directa e colectiva.

Não à guerra – Não às políticas belicistas
Cessar-fogo imediato é a nossa exigência urgente.

Assinado por:
Sindicato dos Trabalhadores de Autocarros de Teerão e Subúrbios
Sindicato dos Trabalhadores da Cana-de-Açúcar de Haft-Tappeh
Trabalhadores Reformados do Khuzistão
Aliança dos Reformados
Comité Coordenador para a Formação de Organizações de Trabalhadores
Grupo de Unidade dos Aposentados

artigo transcrito de: https://bandeiravermelhablog1.wordpress.com/2026/03/03/sindicatos-iranianos-dizem-a-classe-trabalhadora-nao-ganha-nada-com-a-guerra/    Março 3, 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

MAU TEMPO NOS CANAIS - Joaquim Pessoa

 

Nos canais televisivos
há mau tempo. Ciclones.
Cultura em preservativos.
muitos filmes dos camones.

Nos canais televisivos
devíamos ter o rosto
coberto com adesivos
mas temos sorrisos vivos
de um senhor muito bem posto.

Nos canais televisivos
pasmam-se noites inteiras.
Dão-nos como aperitivos
folhetins rebarbativos
para as angústias caseiras.

Há mau tempo nos canais
que entopem com porcaria.

Apascenta-se a manada
nos pastos da nostalgia.
E lá vem dia após dia
(de uma forma descarada)
a brilhante apologia
da morte ressuscitada.

Sessões de necrologia
sempre à hora programada.

Nos canais televisivos
fazem-se mesas redondas
sobre cultura quadrada.
Diz-se uma boa piada
quando a conversa se afunda.

Nos canais televisivos
ameniza-se a tristeza
num jogo sensacional
em que ganha Portugal
por duas bolas a uma.

E depois desta proeza
não há pobreza nenhuma!

Por dentro destes canais
de anemia encaixotada
a mentira é por demais
uma verdade adiada.

Há telepublicidade.
Telefoto, Teledisco.
Teledor. Telejornal.
Tele-etcetera e tal.

Mas diz o telechovisco
que há bom tempo em Portugal.


Em: Joaquim Pessoa PORTUGUÊS SUAVE, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa/1979, p.p. 75 e 76.

RUY BELO PORTUGALÊS - Joaquim Pessoa



Ruy Belo porque é que já não escreves para A Bola?
Agora A Bola está mais pobre sem os poetas do futebol
que fazem versos com a mesma saúde de quem faz
                                                                   [desporto.

Só nos resta o Carlos Pinhão mas é um gozão
leva tudo a brincar só quer a bola para ele e quando
chega a vez de a passar finta-nos transforma a bola
num bolo ou num bicho e nunca
numa laranja para os jogadores descascarem
uns nos outros.

Ruy Belo não viste a malta ganhar à Áustria
nem o Benfica dar uma tareia no Sporting
(cinco a zero vê bem cinco a zero)
e a GNR dar muito mais no Alentejo.
Ai há quanto tempo a gente não via uma coisa e outra!

Olha abro este livro Português Suave
com o primeiro verso do teu Portugal sacro-profano
lugar onde
a tua poesia ficou por ler e a gente espera
que o Ruy Belo era uma vez
seja dado morto ou vivo
ao povo português.

Ruy Belo não era mau rapaz
e eles não te mereciam.

Apetece dizer como diria
a Raquel Maria

Bando de cagalhões!

Em: Joaquim Pessoa, PORTUGUÊS SUAVE, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lx/1979, p. 74.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

UM DIA UMA VIDA - RUY BELO

 


Não vazes tantas vezes vozes rente ao vento
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças nem sequer o vento se soprar
ouve o tempo passar escuta a sua voz
pois o tempo tem voz o tempo fala
Está atento abertos os ouvidos ouve
a vida é uma vasta música suave
É esta praia esta dúzia de casas
curiosas do mar que as lambe lá em baixo
a verdadeira capital da noite
Nos limites marítimos do burgo
de casas calmas sobre as pálpebras da morte
dormindo à luz da lua sobre as ondas
que trocam mais abaixo espuma com as rochas
nos extremos atlânticos de aquesta povoação precária
o homem abafado pelo alvo algodão do sono
transforma-se num peixe e devora esse peixe
sem pressentir sequer que a si mesmo se devora
Outras vezes o homem sempre vítima do sono
afaga na almofada um vulto imaginado
e dá-lhe mesmo um nome sem saber
que nomear as coisas é criá-las
Entretanto a sereia sulca o nevoeiro
nas masmorras erguidas na orla do sonho
depois de o náufrago nadar nu nos lençóis do leito
sob a noite cerrada sobre a cru cruel
concórdia do convénio conjugal
E há sonhos e segredos vislumbrados véus
nos que dormem nas casas onde o mar mergulha
vêm flocos de neve à tona da memória
e doses simples ou dobradas meias doses
de uma lua embalada em lenta trajectória
sulcam o céu de telha ou de betão das construções
Inexploradas conchas sobressaltam os caminhos
calcados por aqueles que o mar chama
e favas e feijões inaugurais rompem a terra
sensível à semente que a fecunda
cavada num convívio de indistintos mortos
que em sua noite metafórica articulam só
a imutável voz possível às inscrições pétreas
Mas já o coro das primeiras aves ergue um cântico
na vasta catedral do céu ainda indeciso
quando a alva alveja os sonhos dos vizinhos
embora ainda os embale o naufrágio do sono
A povoação ondula como um lago
levemente mexido pela névoa que inaugura
o espaço disponível para o dia
Ao sol horizontal saem de casa os habitantes
que após o sol não são os mesmos de antes
O tempo passa ouve o tempo passa
faz um breve ruído e passa irrefragável incontido
Já o primeiro sol surge e retira
a sonolenta capa que cobrira cada face
e as gaivotas filhas da manhã
trazem no bico a fímbria da recente luz
E começam as colunas de neblina a irromper
das chaminés de renda das recém-despertas casas
As árvores são verdes é sólido o mar
o tempo passa há raparigas novas
sinto-me em paz as coisas estão no seu lugar
Uma criança chora a terra rola há roupa suja
eu morro bem o sei mas o mundo melhora
Para quê destruir um por um os relógios
se não existe rosto onde não poise pés o tempo
que é feito de passar como de água o mar?
Sabe-me bem sentar sentir-me vivo
sem ter que sujeitar-me à morte mísera do sono
Leio o futuro nas folhas de chá
e vou verificar se o mar ainda lá está
no extremo ocidental do forte onde as gaivotas
procuram povoar ou abolir a solidão
O sol senhor despótico domina
o vasto principado que ilumina
O tempo continua a emitir a sua voz
Pudesse eu eleger por mim a companhia
decerto levaria apenas árvores ao lado
Um deus somente podia afogar
a cabeça no mar da minha vida
Começo a caminhar na madrugada
entre sardinhas e mulheres saltitantes
e ao chegar ao mar penso pregar
o meu sermão de algas e sargaços sobre a esperança humana
sob o canto dos pássaros e a língua dos vizinhos
Neste jardim só cresce a roupa seca pelo sol
as coisas são ou não não são verdade ou não
o povoado cheira a comida e maresia
e através da vida desafia o mundo o nada
Que hei-de fazer se sou a gata borralheira?
- canta a convulsa rapariga oculta nos arbustos
E em vão voga na expectativa de quem nunca vem
mordiscar-lhe a papoila mole dos lábios
com a sofreguidão da truta ao absorver o anzol
Um forasteiro só certa vez a beijou ao vê-la distraída
mas por mais que esperasse nunca mais voltou
a dar-lhe um beijo só em toda a vida
E o hálito leve de insolentes raparigas
embacia os espelhos da manhã
E quando até mim chegas deus chegou
mulher inesperada meio mulher e meio madrugada
recortada no céu de um homem que desesperou
tantas vezes voltou de mãos cheias de nada
Eu quero para mim parcelas de manhã
delas farei um tempo para mim
um tempo de porvir que se detenha
tempo que se renegue e seja tempo
e que ao negar-se afirme a sua condição
As coisas em redor prodigalizam cor
coisas que se concentram que têm sabor
E vejo como orvalho o teu olhar tombar
primeiro quase sólido e depois vapor
evaporar-se e dissipar-se como halo ou hálito
Teu corpo acolhedor calma baía
recorta-se na luz agora a esta hora
e alegra mesmo até a alegria
Pressinto que vieste e finalmente veio alguém
que verdadeiramente vem sem bem se saber quem
Pões os pés na manhã e tudo são caminhos
a orla do vestido roça no rocio depois do
baile breve na praia iluminada pela lua
muito mais tua do que do planeta
onde vivemos pois à tua volta
é que descreve a lua a sua órbita perfeita
A noiva tem no seu vestido branco óptima mortalha
e tem escovas de dentes iminente vida conjugal
dias de sol inúteis como logo este jornal
por trás do rosto imóvel que prospecta ao espelho
uma última vez antes de ir à casa sobrepor a igreja
O tempo não parou ó noiva é esse o mal
se hoje és imortal oxalá amanhã
leve a terra te seja
em sonhos sempre alguma borboleta sobre ti
desceu e escureceu a própria escuridão
sobre essa silhueta de senhora do olhar
sozinha em vida e pelo ar apenas rodeada
cercada só de terra e na morte isolada
Saíste com a aurora vertical recebeste o meio-dia
escondeste-te na luz perdeste-te na estrada
e não deixaste nada além da tua ausência
As vozes são às vezes vítimas do vento
à criança que foi substitui-se o adulto
cada rosto destrói as sucessivas formas desse rosto
um rosto é um momento
Um homem pisa pedra a pedra uma calçada
e ao pisar a primeira está a última pisada
A gente vai pela rua vai e vem
mas pela vida vai-se e nunca vem ninguém
O som do órgão ultrapassa os azulejos
a mole da igreja e inaugura a primavera
Não oiço a voz do mar oiço o tempo passar
É primavera mesmo sobre a minha idade
sobre os anos que põem pés pesados no meu peito
(eu agora nem mesmo me revejo já
nessas fotografias nessas outras tantas mortes)
A música solar murmura em meus ouvidos
o mar dorme um profundo sono azul
um grupo palrador de pombas arredonda o adro
e ao ver uma gaivota cospe um pescador
para na pesca o não abandonar a sorte
Grandes nuvens me nevam na cabeça
o dia alastra como um canto líquido
e com um mata-moscas procuro matar
o sol em cada raio que devassa os vidros da janela
A luz valsa e verseja em cada pedra
rebenta em ondas na margem do dia
parado como um mar a ventos não sujeito
A terra é musical no meu país
cantava tanto a brisa nas espigas
nas débeis raparigas nas umbrosas oliveiras
quando ao princípio éramos os campos e eu
E nem essa magnífica mulher
de um olhar que apenas por brilhar já transfigura o ar
que nas mãos manipula embrulhos e palavras
consegue afugentar a primavera
que entre dois ladrilhos do comprido corredor
culmina e se concentra numa flor naquela casa
(qual será o futuro dessa flor
que os campos renegou e mal nasceu domesticou
a explosão natural do reino vegetal?)
Boceja a tarde soalheira e sossegada nos
plátanos calmos como o espaço dos domingos
e o mar encosta preguiçoso a fronte
no regaço que a terra intimamente tem
na cúpula do corpo da nutrida primavera
nos confins da aldeia cheia de um odor de amor e mar
Vejo a fazenda a vida ameaçadas por
espumas e brisas de uma cor de esmeralda
e o louvor dos pássaros crepita
no fogo fluvial do mês de agosto
Ó natureza nua mãe do mundo
eu sacrifico apenas ao deus bach esse deus que
numa abóbada de música domina
A solidão rumina neste cabo
onde a névoa se adensa e principia a evocar
a geada caída no primeiro jardim
do homem donde ergueu o voo
a gaivota que agora um arenque devora
E entretanto a tarde não tem mãos a medir
e enquanto não cair os homens e os campos
sujeitam-lhe uns a vida outros a superfície
aceitam-na como uma solução
O sol que nasce põe-se nos teus olhos
e mal os fechas logo a noite desce sobre
um rosto que resume rápidas mulheres
Quando passas eu passo a conhecer de cor inúmeros países
há morangos vermelhos nos teus seios
e arremessam-te olhos curiosas árvores e ávidas janelas
que te deixam na rua puramente nua
enquanto o som do sino soa no teu peito
e o sol se dissolve em teu vestido
Pensam martirizar as tuas ancas
amaldiçoar maldizer o teu nome
e assassinar-te com olhares elaborados
no silencioso e chão laboratório
onde calculam complicadas cúmplices maquinações
tenebrosos embaixadores do país das trevas
O sol suave como um pensamento
despenha-se nas águas entre nuvens
e à minha volta fecha-se esse férreo
abraço conjugal que a sociedade
usa para devassar a intimidade
Mas se eu escancarar de par em par
as portentosas portas de acesso à minha vida
hão-de inundá-la ao mesmo tempo sol e mar
únicos portos para os meus navios
Afoga-se o crepúsculo na noite
como nele se afogara já o dia
e eu velo não venha a morte ver
se pálpebras pesadas me não velam
o olhar minha única defesa
Há magos que de flores fazem raparigas
que devagar se enfeitam para a festa
do fero e feroz fim da luz diária
Os mortos surgem nos seus fatos domingueiros
lágrimas luzem lá onde ontem uns olhos olharam
As ruas são de noite como que canais
por onde só circula a sonolenta escuridão
Saio de casa ou sóbrio como um domingo
ou exuberante e excessivo como um sábado
Vindo da agricultura e da cultura por
folhas de terra e páginas de livros
ordenho umas palavras leves e leitosas
e com elas procuro apreender deter o tempo
obrigá-lo a parar e impedi-lo de passar
Mas oiço-o falar é sua esta voz
Cobre-me o corpo a escuridão e cai sobre ele a chuva
e as nuvens indecisas contra as quais se apoiam
os arcos e abóbadas da noite
solidamente assente em dunas ou colunas
da mais universal obscuridade
comunicam-me a mágoa deste tempo português
e chego a pôr em causa a minha nacionalidade
Há uma luz lunar que ilumina o mar
o asparge pela areia pela maré cheia
o poema de espuma que lhe cabe recitar
e me fala das cinzas a que se reduz
o céu breve e restrito de uma noite
abençoada noite de mulheres
que quando dormem mais estão despertas
e são reais louças e temporãs
Faço uma coisa ou outra e depois disso
é ao túmulo só o sítio aonde tenho de ir
Preciso de dormir e só na pedra tumular
eu poderei poisar de verdade a cabeça
Ingresso para sempre no mais puro escuro
Fui um inveterado tripulante da memória
oiço os passos do tempo sei a minha idade
e deito-me com toda a dignidade
É inútil bater amigos inimigos a esta loisa
onde eu repouso como simples coisa
E o tempo poisa deixa finalmente de passar

Transcrito de: https://voarforadaasa.blogspot.com/2018/04/um-dia-uma-vida-ruy-belo-dito-por-luis.html

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O QUE É PRECISO É CRIAR DESASSOSSEGO - JOSÉ AFONSO

 José Afonso no concerto do Coliseu dos Recreios, em 1983, posteriormente editado em disco

José Afonso no concerto do Coliseu dos Recreios, em 1983, posteriormente editado em disco
Foto Rui Ochoa

«O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (…) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!»

José Afonso em entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85


José Afonso, homem integro e comprometido com a justiça social, a liberdade, a fraternidade, a solidariedade e a igualdade entre os povos, por isso, foi perseguido pela ditadura fascista colonialista.

1967 - foi expulso do ensino oficial, onde era professor, e só soube da expulsão quando se apresentou ao serviço, após receber alta da clínica onde esteve internado, devido a doença grave.

1973 - é preso pela PIDE e mandado para o Forte/Prisão de Caxias, onde esteve vinte dias.

Como estava comprometido com a luta pela liberdade, a justiça social, a fraternidade, a igualdade, participava activamente em actividades culturais e antifascistas, continuava a estar sob a vigilância da PIDE, tendo sido obrigado a  passar à clandestinidade, mas a polícia política perseguia-o, para o prender de novo, quando a ditadura fascista colonialista foi derrubada, em 25 de Abril de 1974.   

O seu compromisso com a luta pela liberdade, a justiça social, a fraternidade, a solidariedade e a igualdade, foi sempre genuíno e sem pretender obter, para si próprio ou para a sua família, dividendos ou honras de nenhum tipo, como o prova e demonstra a sua recusa em receber condecorações oficiais, quando lhe foram atribuídas, por exemplo, pelo Presidente da República Ramalho Eanes.

José Afonso deixou-nos no dia 23 de Fevereiro de 1987, levado pela esclerose lateral amiotrófica, que tinha sido diagnosticada em 1982. O funeral realizou-se no dia seguinte, sendo acompanhado por mais de trinta mil pessoas.

Fisicamente ausente, mas enquanto houver quem o ouça, leia e consulte a sua obra, continua entre nós e as gerações vindouras.

"Os Vampiros", de 1963. O "Venham Mais Cinco", de 1973, gravado em Paris, com a direcção musical de José Mário Branco. 

A sua vasta obra, são parte integrante da Cultura e da História Integral Portuguesa e Universal e, dado o contexto histórico de ascensão das forças nazi-fascistas, está actual e deve ser ouvida e lida com a atenção devida.

Fonte: aja.pt/biografia.