segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O QUE É PRECISO É CRIAR DESASSOSSEGO - JOSÉ AFONSO

 José Afonso no concerto do Coliseu dos Recreios, em 1983, posteriormente editado em disco

José Afonso no concerto do Coliseu dos Recreios, em 1983, posteriormente editado em disco
Foto Rui Ochoa

«O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (…) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!»

José Afonso em entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85


José Afonso, homem integro e comprometido com a justiça social, a liberdade, a fraternidade, a solidariedade e a igualdade entre os povos, por isso, foi perseguido pela ditadura fascista colonialista.

1967 - foi expulso do ensino oficial, onde era professor, e só soube da expulsão quando se apresentou ao serviço, após receber alta da clínica onde esteve internado, devido a doença grave.

1973 - é preso pela PIDE e mandado para o Forte/Prisão de Caxias, onde esteve vinte dias.

Como estava comprometido com a luta pela liberdade, a justiça social, a fraternidade, a igualdade, participava activamente em actividades culturais e antifascistas, continuava a estar sob a vigilância da PIDE, tendo sido obrigado a  passar à clandestinidade, mas a polícia política perseguia-o, para o prender de novo, quando a ditadura fascista colonialista foi derrubada, em 25 de Abril de 1974.   

O seu compromisso com a luta pela liberdade, a justiça social, a fraternidade, a solidariedade e a igualdade, foi sempre genuíno e sem pretender obter, para si próprio ou para a sua família, dividendos ou honras de nenhum tipo, como o prova e demonstra a sua recusa em receber condecorações oficiais, quando lhe foram atribuídas, por exemplo, pelo Presidente da República Ramalho Eanes.

José Afonso deixou-nos no dia 23 de Fevereiro de 1987, levado pela esclerose lateral amiotrófica, que tinha sido diagnosticada em 1982. O funeral realizou-se no dia seguinte, sendo acompanhado por mais de trinta mil pessoas.

Fisicamente ausente, mas enquanto houver quem o ouça, leia e consulte a sua obra, continua entre nós e as gerações vindouras.

"Os Vampiros", de 1963. O "Venham Mais Cinco", de 1973, gravado em Paris, com a direcção musical de José Mário Branco. 

A sua vasta obra, são parte integrante da Cultura e da História Integral Portuguesa e Universal e, dado o contexto histórico de ascensão das forças nazi-fascistas, está actual e deve ser ouvida e lida com a atenção devida.

Fonte: aja.pt/biografia.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

LIBERDADE (Sérgio Godinho)


Viemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada

só se pode querer tudo quando não se teve nada

só se quer a vida cheia quem teve a vida parada

só se quer a vida cheia quem teve a vida parada

Ah, só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão – habitação - saúde - educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

a paz o pão – habitação - saúde - educação

Viemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

Ah, só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão

habitação

saúde educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

a paz o pão – habitação - saúde - educação


Fonte: https://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/content/letra-da-cancao-liberdade-de-sergio-godinho-espectaculo-tres-cantos-ao-vivo

Nota de rodapé, tendo em consideração as recentes eleições para a presidência...

A liberdade não se ausentou deste país, fomos nós que a desbaratámos, deixamos de lutar por ela, por que a liberdade conquista-se e defende-se quotidianamente e nunca está garantida, muito menos, consolidada e capaz de resistir a todos os ataques a que está permanentemente a ser sujeita... 

Apesar disso, mais de um milhão e setecentos mil pessoas votaram nas últimas eleições presidências numa proposta política, dando continuidade ao que já se verificou nas eleições legislativas, em que elegeram 60 deputados para a Assembleia da República Burguesa e Reaccionária, que serve e defende, única e exclusivamente, os interesses instalados, isto é, os interesses da burguesia, dos capitalistas, em particular, dos detentores e accionistas das grandes corporações financeiras, industrias fósseis, comunicação/manipulação, tecnológicas etc.... 

Demonstrando assim que, não estando satisfeitas com a situação actual, em vez de se mobilizarem, organizarem e agirem para criar e construir condições e propostas para transformar a sociedade, para melhor, optam por dar força a projectos políticos que, está provado e demonstrado historicamente, só vão agravar as coisas e arrastarão - já está em curso, como a realidade nos comprova, não podemos dizer que não sabíamos - a humanidade para a destruição, guerra e morte.  

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Memória - Feminismo n’A Voz do Operário: a pioneira Angelina Vidal

A julgar pelas narrativas mais correntes, pode parecer que a história do feminismo em Portugal se iniciou em 1908, com a «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas».

Porém, um quarto de século antes disso, já o jornal A Voz do Operário tinha uma mulher como redatora. Ainda por cima, uma mulher que já naquele tempo se assumia como republicana e breve se tornaria socialista. Seu nome era Angelina Vidal.


“Missão natural da mulher”…

Hoje será difícil de imaginar, o que era, nos anos 1880, uma mulher atrever-se assim, a ter uma intervenção política. Ainda por cima em oposição ao poder estabelecido e à classe dominante.

Na mesma altura em que se tornou redatora d’A Voz do Operário, Angelina Vidal começou a colaborar num outro jornal, o «Distrito de Santarém».

Mas foi uma colaboração efémera. No ano seguinte, esse mesmo jornal explicava, com o seguinte palavreado:

“Nós acatamos e respeitamos sempre uma senhora, mas […] sair do lar para subir à tribuna, esquecer o governo doméstico para discursar sobre administração pública”, e sobre “os perigos que cercam a nacionalidade portuguesa, pode ser muito patriótico, mas sobremaneira pouco feminil, e nós confessamos que nos desagrada sobremaneira”.

E a sentença era clara:

“A senhora dona Angelina Vidal – a única republicana, cremos, […] prega a transformação geral, deseja a emancipação […] desde o capitólio até ao lar, e tudo isso nos parece pouco de acordo com a missão natural da mulher” [Distrito de Santarém, 02/07/1882, p.1].

Feministas operárias

Nascida em Lisboa, em 1849, Angelina Vidal era filha de um maestro e casou com um médico (do qual se separou). Era uma senhora que, literalmente, tocava piano e falava francês. Tornou-se escritora, jornalista e professora. Publicou poesia, contos e teatro. Quando as futuras dirigentes da «Liga Republicana» ainda eram crianças.

Além disso, Angelina Vidal praticou um feminismo socialmente mais avançado do que essas posteriores republicanas. Um feminismo focado nas mulheres operárias.

Em 1880, já ela proferia uma conferência sobre “A mulher e a atualidade, perante o critério filosófico”, no mesmo sindicato onde nasceu A Voz do Operário, o dos operários da indústria de tabaco de Lisboa.

Em 1894, noutro evento sindical, Angelina Vidal discursou sobre a educação da mulher e apelou à sua participação no sindicalismo. A seu lado falou Luísa Maria, delegada do primeiro sindicato feminino em Portugal, o das «Lavadeiras de Lisboa» – fundado 15 anos antes da tal «Liga Republicana».

Em 1896, Angelina Vidal discursou, sobre “os direitos sociais e económicos da mulher operária”, noutro sindicato feminino, o das costureiras de Lisboa. E, no ano seguinte, ali voltou a falar sobre “os direitos da mulher”.

Veio mesmo a ser nomeada sócia honorária deste sindicato, pelo seu contributo como “distinta propagandista da emancipação da mulher”.

A biografia de Angelina Vidal é inseparável desta sua ligação a mulheres operárias e do lugar destas na história do feminismo em Portugal.

Feminismo socialista

Angelina Vidal viria a falecer em 1917, fiel aos seus ideais.

Ainda em 1914, ela denunciava que “a costureira, empregada nos ateliers, chega a trabalhar doze e quatorze horas [ao dia] por um salário mesquinhíssimo”.

Já falava na desigualdade de género a nível salarial, apontando o caso da “obreira fabril, [que] se não está tantas horas na roça, suporta a injustiça de diferenciação, para menos, do salário, quando mesmo em igualdade de produção com o homem” [Vanguarda, 22/05/1914, p.1]

E, longe de ser um caso isolado, Angelina Vidal foi precursora de uma corrente coletiva, um feminismo operário e socialista.

Outras intelectuais integraram essa corrente. Como a escritora Maria O’neill, que A Voz do Operário elegeu, em 1926, para a comissão de apoio à direção nas áreas de instrução, educação e arte.

Mas o grosso dessa corrente brotou da classe trabalhadora. Com figuras notáveis como a operária tabaqueira Virgínia Silva, cujos discursos empolgaram inúmeros encontros sindicais, como um grande plenário que se realizou no salão d’A Voz do Operário, naquele ano de 1926.

Mentalidades e práxis

O papel pioneiro de Angelina Vidal mais sobressai quando, por outro lado, a sociedade A Voz do Operário tardou 66 anos até eleger uma mulher para a sua direção. O que só aconteceu para o mandato de 1949.

Na história do movimento operário e do associativismo popular, só bem mais tarde é que outras coletividades deram esse passo.

Uma mulher presidente da direção? Isso, então, só depois da revolução de Abril de 1974.

Não será de espantar, tal lentidão no evoluir de mentalidades e de práxis. Não são coisas que se mudem assim, tão fácil e rápido.

Num estudo sobre a individualidade humana, Lucien Sève aponta que a classe trabalhadora é feita de pessoas com “personalidades produzidas pelo capitalismo e vítimas das suas contradições” [Marxisme et théorie de la personnalité, Paris: Éditions Sociales (1972), p.449].

Tal como outros desafios, a desigualdade de género é propiciada por todo um contexto histórico e social. Mesmo entre quem contesta esse contexto, no fito de uma sociedade mais livre e igualitária.

Luís Carvalho - Investigador

Transcrito de: https://vozoperario.pt/jornal/2026/02/10/feminismo-na-voz-do-operario-a-pioneira-angelina-vidal/

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Streets of Minneapolis - um poema

 


Pelo gelo e frio do inverno
Descendo a Avenida Nicollet,
Arrostou a cidade ardente fogo e gelo
Sob o tacão dum ocupante.
O exército privado d’el-rei Trump,
Armas a escorrer pelos blusões,
Vinha trazer a lei a Minneapolis
Ou assim contaram eles

Contra fumo e balas de borracha,
Reluzia o amanhecer,
De pé pela justiça,
Na noite a voz ecoou dos cidadãos,
A clemência não teve lugar,
Ficaram pegadas ensanguentadas,
Deitados à morte, dois, nas ruas nevadas
Alex Pretti e Renée Good

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Defenderemos esta terra
E o forasteiro no nosso seio
Aqui, em nossa casa, rusgaram, mataram
No inverno de 26
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Espancaram-no os jagunços de Trump
No rosto e no peito,
Soaram depois os tiros,
Alex Pretti jazeu na neve, morto.
Alegaram legítima defesa, senhor juiz,
Nos seus olhos não creia!
São o nosso sangue, os nossos ossos,
Mais estes apitos e telefones
Contra mentiras porcas do Miller e da Noem

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Dizem vir para a lei cumprir,
Mas espezinham nossos direitos
Pele negra ou morena tens, amigo?
Que t’interrogam e deportam à vista!
No cântico «ICE fora, já!»,
Revive da cidade coração e alma
Nos vidros partidos e lágrimas de sangue
Das ruas de Minneapolis

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Aqui, em nossa casa, rusgaram, mataram
No inverno de 26
Defenderemos esta terra
E o forasteiro no nosso seio
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE

Bruce Springsteen

Transcrito de: https://jornalmaio.org/tag/um-poema/

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O BANQUETE, FORMA DE GOVERNO - Pádua Fernandes

  Nosso lifestyle? O caviar! 
Como o governo quer apoio,
  começa pagando o jantar;

muitos pratos, mas estou de olho
    nos valores deste cardápio:
menos de milhão, não tem gosto,

cargos ou contratos, é sábio
      verificar o percentual
antes de combinar nosso ágio,

       que é o prato principal
dos que se alimentam do Estado
            o apetite do liberal,

     um ministério devorado,
no entanto com talheres finos;
  o orçamento serve de prato

  e os códigos, de aperitivo;
comemos por causa do preço
      e pelo sabor purgativo,

pois vomitando sem sossego
    o banquete permanente
   se torna forma de governo

  apesar de eleições, somente
mantidas porque as campanhas
 geram contratos e excedentes,

   migalhas que o povo apanha
    do chão e chama de direitos,
mas eram da mesa, e ele apanha

     por roubar do jantar alheio,
    por deixar a fome em apuros;
    um brinde à fome, nosso feito,

        e outro à ponte do futuro;
    com cem por cento de propina,
  nunca se ergueu, embora o muro

            isolando a carnificina
        lá fora do nosso banquete
       ainda esteja sangue acima.

Pádua Fernandes, poeta, prosador, ensaísta e activista brasileiro. Alguns dos seus livros foram inicialmente publicados em Portugal. Organizou a primeira antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil (A Encomenda do Silêncio, 2004). O presente poema foi extraído do seu livro Canção de Ninar com Fuzis (Urutau, São Paulo, 2019).

Transcrito de: MAPA / JORNAL DE INFORMAÇÃO CRÍTICA / JANEIRO-MARÇO 2026

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1949: O PREÇO QUE A VOZ DO OPERÁRIO PAGOU


A Voz do Operário foi um ponto central da campanha eleitoral de Norton de Matos. E as represálias não se fizeram esperar. O ano era 1949. E esta coletividade sofreu então a mais séria ameaça à sua existência, sob a ditadura de Salazar.

Presos políticos

A Voz do Operário sobreviveu a 48 anos de ditadura. Mas não escapou ilesa. Sofreu rudes golpes nesse percurso. Sobretudo a partir de 1933, quando a inicial ditadura militar se transformou numa ditadura de tipo fascista.

Desde logo, este jornal passou a ser alvo de uma censura mais severa. E viu-se expressamente proibido de exercer o seu papel primordial. Aquele que tinha sido o motivo da sua criação, em 1879: ser o porta-voz do sindicato dos operários da indústria tabaqueira de Lisboa.

O conteúdo do ensino nas escolas d’A Voz do Operário também foi mutilado, sob ameaça de serem encerradas. Como, aliás, aconteceu a duas delas que funcionavam em sindicatos. Em Lisboa e em Almada.

Por outro lado, há que não esquecer os dirigentes d’A Voz do Operário que foram presos políticos. Entre eles, três presidentes em funções.

Em 1947, a PIDE prendeu o então presidente da direção, Raul Esteves dos Santos.

Em 1937, prendeu o presidente do conselho fiscal, João Coelho.

E já antes, em 1927, ainda a PIDE não existia, foi a sua antecessora “Polícia de Informações” que entrou pela sede d’A Voz do Operário adentro. Interrompeu uma reunião e prendeu o presidente da direção, José Gregório de Almeida.

Mas a repressão teve outros contornos.

Represálias económicas

Aquando das pseudo-eleições presidenciais que a ditadura encenou em 1949, ao candidato da oposição democrática, Norton de Matos, não foi permitido um único comício de rua e ao ar livre, na cidade de Lisboa. Pelo que foi no salão d’A Voz do Operário que conseguiu realizar as suas maiores iniciativas na capital.

Ali se realizaram um total de seis “sessões”, entre 10 de Janeiro e 10 de Fevereiro de 1949. Havia que aproveitar aquelas semanas em que a censura abrandava.

Uma das “sessões” foi promovida pela “comissão feminina de apoio” a Norton de Matos. E era especialmente dirigida a mulheres.

Uma das oradoras foi Irene Russel. Ex-presa política, era mulher e irmã de dois antigos prisioneiros no campo de concentração do Tarrafal. Mas o seu discurso foi interrompido pela polícia, a qual “notificou que não podiam fazer-se alusões a maus tratamentos aos presos políticos nem a factos passados no Tarrafal”.

Isabel Aboim Inglês, também ela ex-presa política, era uma dirigente da campanha que estava ausente de Lisboa, nesse dia. Mas enviou uma mensagem, que foi lida n’A Voz do Operário.

Além da censura e da polícia política, ela apontou uma outra forma de repressão: as “represálias de carácter económico”. Com as quais se sentiam ameaçados os democratas, “vendo que tantos são privados dos seus empregos pelo simples facto de discordarem da doutrina do Estado Novo”.

Seria o caso da própria Isabel Aboim Inglês: professora que, proibida de exercer o seu ofício, se viu forçada a sobreviver como costureira.

“Instituto de Assistência à Família”

Em 1948, A Voz do Operário estava com problemas económicos. Iria terminar o ano com um défice acima dos 6% e um saldo negativo na ordem dos 200 mil escudos. Era muito dinheiro, à época.

A sua principal fonte de receita eram as quotas pagas pelos sócios (57% do total). Mas o problema é que o número de sócios estava a diminuir de uma forma acentuada, desde o início da década de 1930. Uma quebra de 40%!

Entre outros factores, pesou o impacto da grande crise económica de 1929 na vida da população mais pobre. Somaram-se depois mais contextos de crise com a 2ª Guerra Mundial e o pós-guerra.

Perante este cenário, no início de 1948, A Voz do Operário solicitou um apoio financeiro ao Estado. Evocou os altos serviços que prestava nas áreas da instrução e da assistência social.

E conseguiu obter um subsídio mensal de 5 mil escudos, por via de um organismo que tinha o nome de “Instituto de Assistência à Família”.

Não resolveu o problema, mas foi um alívio.

O preço

A última sessão de apoio a Norton de Matos n’A Voz do Operário realizou-se em Fevereiro de 1949. E as represálias não tardaram. No mês seguinte, o Instituto de Assistência à Família cortou o subsídio.

Além disso, ficou bloqueada a aprovação do orçamento d’A Voz do Operário para aquele ano. Situação que se iria arrastar por meses. No quadro legal da época, colocava esta coletividade numa situação de incumprimento. E, portanto, sujeita a mais penalizações.

Em oficío confidencial, o diretor-geral da Assistência informou o governador-civil de Lisboa de que não parecia “lógico que o Instituto de Assistência à Família continuasse a subsidiar as instituições que cederam as suas salas para nelas se realizarem sessões de propaganda contrárias à finalidade que o referido instituto se propõe” [sic!].

E sugeriu que, se A Voz do Operário se tinha “desviado dos seus fins estatutários, um problema se põe: pode a direção continuar no exercício das suas funções ou deverá ser afastada definitivamente?”.

Isto do “desvio” estatutário era o argumento usual para encerrar associações…

O desfecho fica para um próximo artigo!

Artigo originalmente publicado na A Voz do Operário a 4 de Dezembro de 2025

o - Investigador

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

AS CORPORAÇÕES DA INDÚSTRIA AGROQUÍMICA CONTRA ATACAM!

 

ALERTA!


A união de empresas multinacionais de agroquímicos, apoiada pelo Estado, está contra-atacando.  anular a vitória histórica "Justiça para os Vivos", conquistada após quatro anos de luta liderada por Pollinis e seus aliados, em nome de todos os cidadãos:


Uma vitória que obriga o Estado a testar (desta vez a sério!) e a retirar sem demora os pesticidas mais perigosos  para proteger a natureza, os polinizadores e a nossa saúde – mas que os nossos líderes se recusam a implementar!


Por favor, divulgue esta mensagem o máximo possível entre seus conhecidos. Precisamos da sua ajuda e da ajuda de todos os cidadãos que puderem se unir a nós na resistência a este novo ataque: juntos, vamos alcançar uma vitória definitiva para o futuro da Vida e das gerações futuras.

Senhora, Senhor,


Em 3 de setembro de 2025, a POLLINIS e seus aliados no julgamento "Justiça para a Vida" obtiveram uma decisão judicial histórica contra o Estado e o lobby francês dos pesticidas (1):


O reconhecimento oficial de que a contaminação generalizada do nosso ambiente por pesticidas é a principal causa do colapso dos insetos polinizadores e de toda a biodiversidade que depende deles (2).


E que o sistema de avaliação implementado para proteger os cidadãos, o seu ambiente e a sua saúde não está a funcionar:


>> Os testes destinados a verificar se os pesticidas não são perigosos não nos permitem compreender a sua real toxicidade para as abelhas e insetos em geral, nem para as aves ou pequenos mamíferos – nem mesmo para a saúde humana!


Nossas instituições, portanto, permitiram a passagem de uma série de pesticidas tóxicos, cujos resíduos se acumulam no meio ambiente, gerando o nível impressionante e completamente ilegal de poluição em que vivemos hoje – absolutamente todo o nosso ambiente está saturado de pesticidas, do solo aos rios, até a névoa nas nuvens (3)...


Foi com base nessa observação, documentada durante anos e sobre a qual todas as agências públicas procuraram alertar em numerosas ocasiões – o CNRS, a EFSA, o INSERM, o INRAe (4) – que a nossa coligação “Justiça para a Vida” conseguiu obter uma decisão judicial excecional:


>> O Estado É OBRIGADO a reavaliar todos os pesticidas cujos efeitos sobre a biodiversidade foram mal testados – potencialmente quase 3000 pesticidas atualmente em livre circulação nos nossos territórios (5);


É imprescindível proibir todos os produtos que matam abelhas e os pesticidas mais tóxicos para a natureza e para a nossa saúde, visto que testes recomendados por cientistas e agências de saúde comprovam a sua real toxicidade.


Essa decisão representa uma enorme onda de esperança e um ponto de virada rumo a uma mudança completa do sistema…


… um avanço que também possui um alcance excepcional devido à sua natureza “executória” : ou seja, deve ser aplicado imediatamente, sem espera, mesmo que o Estado decida contra-atacar perante o Conselho de Estado.


No entanto, apesar de inúmeros lembretes , reuniões oficiais, compromissos em Matignon e notificações formais, o Estado continua se recusando a executar sua sentença!


Isso é simplesmente inaceitável.


Diante da armada de lobistas e assessores que o Estado e as empresas agroquímicas estão mobilizando atualmente, de mãos dadas, para atacar nossa singular vitória cidadã em defesa das abelhas e da biodiversidade perante o Conselho de Estado…


… precisamos que vocês resistam, que os obriguem a respeitar o Estado de Direito e a fazer cumprir imediatamente a decisão judicial.


Com o seu apoio e o de todos os cidadãos envolvidos nesta batalha histórica contra as gigantes agroquímicas apoiadas pelo Estado, a POLLINIS e seus aliados na coalizão Justiça pela Vida estão se mobilizando para:


1 - Reunir imediatamente os melhores advogados, especialistas jurídicos e cientistas para defender as abelhas e a biodiversidade perante o Conselho de Estado e obter uma vitória definitiva sobre os grupos de pressão – pela natureza e pelo mundo que deixaremos para as gerações futuras!


2 - Acionar o juiz de execução o mais rápido possível para obrigar o Estado a agir o quanto antes e a reexaminar as centenas de pesticidas que matam abelhas e que circulam livremente, os quais devem ser urgentemente retirados do mercado;


3 - Replicar esta vitória nos tribunais, sempre que possível, na Europa, para pôr fim a várias décadas de extermínio generalizado de abelhas, zangões, borboletas e toda a biodiversidade floral e animal que delas depende.


Por favor, apoie as ações da POLLINIS para dar a eles os meios necessários para lutar contra os lobistas e alcançar uma vitória definitiva para os polinizadores, a natureza e o mundo que deixaremos para as futuras gerações.

► FAÇO UMA DOAÇÃO

Graças ao seu apoio, a POLLINIS está se preparando para enfrentar uma ofensiva total da indústria agroquímica.


Nos últimos dias, ficamos sabendo em rápida sucessão que:

 

>> Em 23 de outubro,o Estado recorreu ao Conselho de Estado para tentar reverter a decisão do Tribunal Administrativo de Recurso de Paris – sem, contudo, reconhecer publicamente a sua intenção;


>> Em 4 de novembro,o lobby francês Phyteis , que representa os interesses das multinacionais multibilionárias Bayer-Monsanto, Syngenta-ChemChina, BASF e Corteva e que defendeu o Estado francês ao longo de nossa ação judicial,também recorreu ao Conselho de Estado (6);


>> Acabamos de saber que a ANSES, a autoridade sanitária francesa, também está se preparando para intervir em apoio ao Estado, a prova definitiva de queo assunto está sendo levado muito a sério por nossos líderes e que eles estão buscando obter toda a ajuda possível para impedir a vitória de Pollinis e seus aliados.


Um contra-ataque cuidadosamente preparado entre nossos líderes e os lobbies da indústria agroquímica, que, há vários meses, vêm tentando por todos os meios paralisar o sistema de autorização de pesticidas:


Assim que a lei Duplomb foi aprovada, foipromulgado um decreto que dava ao Ministério da Agricultura o direito de impor suas prioridades na agenda da ANSES, para garantir que as demandas financeiras da indústria continuassem a prevalecer sobre a saúde pública e a proteção dos seres vivos…


 atacando diretamente a independência de uma instituição que deveria desempenhar um papel de salvaguarda da saúde e cuja prioridade deveria ser nos proteger…


… enquanto em Bruxelas, ao mesmo tempo, está sendo negociada uma lei impulsionada por lobistas, a “lei omnibus de segurança alimentar”, quedesfaz metodicamente os princípios jurídicos sobre os quais conseguimos vencer nos tribunais (7)!


Claramente, para os nossos decisores políticos,  O Estado de Direito é opcional e eles preferem ignorar uma decisão judicial (8), ou mesmo arriscar uma revolta cidadã como a mobilização contra a lei Duplomb…


… em vez de retirar os pesticidas mais perigosos que continuam a alimentar o poder financeiro da indústria agroquímica e dos seus lobbies (9).


Esse nível de corrupção é profundamente imoral.


Precisamos mobilizar imediatamente nossos advogados, especialistas jurídicos e demais profissionais para sermos capazes de enfrentar as multinacionais que conseguem formar um exército de lobistas, especialistas em comunicação e consultores num piscar de olhos…


…e garantir que este novo confronto contra a Bayer-Monsanto seja o último!


Porque, após esta batalha final perante o Conselho de Estado, não haverá mais recursos legais possíveis para o governo, nem táticas protelatórias, nem estratégias para contornar o processo, nem sabotagem processual por parte da indústria agroquímica.


Uma nova vitória marcaria umponto de virada histórico e irreversível para a proteção das abelhas, dos polinizadores, da biodiversidade e do futuro das gerações vindouras.


Apoie esta ação vital para o nosso futuro coletivo doando para a POLLINIS hoje mesmo: é somente através do compromisso e da generosidade de cidadãos engajados como você que podemos derrotar o Estado e os lobbies com um poder de impacto colossal!

► FAÇO UMA DOAÇÃO

Parece loucura, mas:


>> Tratam-se simplesmente de associações de cidadãos que são obrigadas alembrar aos nossos líderes os princípios básicos do Estado de Direito e a obrigação de cumprir uma decisão judicial;


>> São a POLLINIS e seus aliados que se encontram na linha de frente para documentar as consequências dramáticas das falhas na avaliação de risco de pesticidas que o Estado optou por ignorar durante anos;


>> e são as nossas equipas que devem, repetidamente, obrigar os decisores a encarar o colapso dos ecossistemas e a tirar as conclusões necessárias (10).


Éurgente tomar medidas :


A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) acabade alertar para a extraordinária velocidade com que os insetos polinizadores estão a desaparecer por toda a Europa (11):


>>Mais de cem novas espécies de abelhas selvagens foram adicionadas à lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção , incluindo 15 espécies de zangões das 70 que habitam a Europa e 14 espécies de abelhas-celofane, essenciais para a polinização de árvores como o bordo-vermelho e o salgueiro;


>> As populações de moscas-das-flores – o terceiro maior grupo de polinizadores – correm o risco de perder 37% de seus números se nada for feito;


>> Mais de 40% das borboletas exclusivas da região europeia, encontradas em nenhum outro lugar do mundo, estão agora ameaçadas de extinção ou à beira dela.


Esta é uma catástrofe que exige a mobilização de todos e uma resposta urgente antes que seja tarde demais.


Com o seu apoio, em seu nome e em nome de um milhão ou mais de cidadãos que lutam ao lado da POLLINIS:


>> Entregamos oficialmente umroteiro técnico e científico ao Primeiro-Ministro para que as autoridades de saúde possam assumir imediatamente a responsabilidade de revogar as autorizações dos300 pesticidas mais perigosos e disseminados na França ;


>> Reuniremos os melhores advogados paraobrigar o Estado a cumprir rigorosamente suas obrigações legais e processá-lo por descumprimento, caso continue se recusando a cumprir as determinações para retirar do mercado todos os pesticidas que matam abelhas e são utilizados em nosso solo;


>> Acompanharemosde perto , com a ajuda de especialistas de renome em abelhas, fauna terrestre e aquática e saúde humana, cada procedimento de revisão de autorizações de comercialização e cada proposta de reforma, para garantir que as respostas do Estado estejam à altura dos desafios.


É para implementar este plano ambicioso e benéfico para as abelhas que a POLLINIS apela urgentemente ao apoio dos cidadãos.


Por favor, apoie nossa luta por todos, hoje e pelas gerações futuras.

► FAÇO UMA DOAÇÃO

Uma coisa é certa:não venceremos sem a sua ajuda!


Ao contrário dos recursos colossais mobilizados pela Bayer-Monsanto e seu grupo de lobby, Phyteis, somos uma associação com recursos limitados e dependemos inteiramente de doações de cidadãos comprometidos como você.


Por isso,você pode nos dar uma ajuda decisiva com o valor que escolher : 10 euros, 40 euros, 100 euros ou até mais, se puder – cada doação conta e permitirá que a POLLINIS lute para defender a lei e os interesses dos cidadãos.


Nesta reta final,a emoção e a esperança são imensas para os milhões de cidadãos que, como você, se recusam a se curvar às empresas agroquímicas e aos seus pesticidas que estão destruindo a biodiversidade.


Unindo forças imediatamente, devemos impedir que nossos líderes atrasem ainda mais a remoção dos predadores de abelhas do nosso meio ambiente…


para desfazer as estratégias perniciosas das empresas agroquímicas multinacionais que usarão todos os seus recursos no confronto para salvar seus pesticidas tóxicos e seu modelo baseado no envenenamento de seres vivos, que está à beira do colapso…


…e lutar com toda a nossa energia e determinação pelaexecução firme e rigorosa da decisão do Tribunal de Apelação.


É por isso que precisamos de você mais do que nunca.


Faça uma doação para ajudar nossa equipe de advogados e especialistas jurídicos a alcançar uma vitória decisiva contra os pesticidas tóxicos.

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Agradeço antecipadamente o seu apoio e a sua ação decisiva.


Atenciosamente,


A equipe POLLINIS

  1. Le Monde, O Estado é obrigado a rever seus procedimentos de autorização de pesticidas no caso Justiça para a Vida , 3 de setembro de 2025.
  2. Tribunal Administrativo de Recurso de Paris, O Tribunal reconhece a responsabilidade do Estado pela existência de danos ecológicos resultantes da utilização de produtos fitofarmacêuticos , 3 de setembro de 2025.
  3. Angelica Bianco, Pauline Nibert, Yi Wu, Jean-Luc Baray, Marcello Brigante, Gilles Mailhot, Laurent Deguillaume, Davide Vione, Damien JE Cabanes, Marie Méjean, Pascale Besse-Hoggann, Are Clouds a Neglected Reservoir of Pesticides?, Environmental Science & Technology, 8 de setembro de 2025.
  4. INRAe, Impactos dos produtos fitofarmacêuticos na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos , maio de 2022.
  5. ANSES, Produtos fitossanitários, fertilizantes e substratos de cultivo , relatório de atividades temáticas de 2024.
  6. Le Monde, “Justiça para a vida”: O Estado e os fabricantes de pesticidas apelam ao Conselho de Estado , 20 de novembro de 2025.
  7. Comissão Europeia, Segurança alimentar para consumo humano e animal .
  8. POLLINIS, Justiça para a Vida: O Estado não pretende rever os procedimentos de autorização de pesticidas , 21 de novembro de 2025.
  9. Public Eye, Gigantes do agronegócio lucram bilhões com pesticidas cancerígenos ou prejudiciais às abelhas , 20 de fevereiro de 2020.
  10. Fundação Jean Jaurès, A decisão "Justiça para os Vivos", ou quando a justiça vier compensar a falta de vontade governamental em proteger a biodiversidade, 13 de novembro de 2025.
  11. IUCN, Riscos crescentes ameaçam a sobrevivência dos polinizadores selvagens europeus – Lista Vermelha da IUCN , 14 de outubro de 2025.