PORTUGUÊS SUAVE
Sorrir. De vez em quanto e apenas. A longínqua e doce primavera virá florescer mais perto, num bosque de sangue onde vagueia ainda uma horda de visigodos a embebedar-se todos os dias nesse mesmo sangue. Ah, mas não faz mal, como diria a legenda do mapa azul das terríveis vinganças. Vingar-nos-emos todos deste lapso de história em que estamos para nascer completamente roxos com o cordão umbilical a apertar-nos o pescoço mais e mais, já sem doer o que antes foi dor de parto e de partida. Apertemo-nos pois, todos, os mais fracos, para que cada forte possa ficar mais à vontade. E se alguém vier dizer que o nosso lugar não é aqui, já sabeis, nada de quezílias ou de maus modos. Sorrir. Sorrir de vez em quando e apenas.
CONTRA A MANIFESTAÇÃO
Aconteceu de repente: o homem vinha já a gritar, de braços abertos, abraçando coisa nenhuma, quando se ouviu o estampido. Sei lá que horas eram disse a testemunha cruzando as pernas no tribunal. A polícia não sabe de nada, não temos nada a declarar a não ser que o agente disparou para o ar, compreende, tem que se intimidar esta malta, mas o inquérito está quase concluído, além de que, compreende não é, se não querem que as coisas aconteçam não se metam nisto, nós apenas estamos aqui para defender a ordem, a ordem pois, nada mais do que isso, e depois olhe aqui na esquadra só não houve feridos por milagre, até a mãe do rapaz - (1) - se atirou a um dos nossos homens mas depois passou tudo, acalmou-se, compreende, sempre perdeu um filho e um filho é um filho, nós sabemos, etc.
(1) Chamava-se José Jorge Morais, 23 anos de idade, estudante de medicina, assassinado, em 1978, no dia 10 de Junho.
UM DIA O MEU PAI CHEGOU
E disse-me: não sei se sabes a história daquele leiteiro que mandou fazer umas casas à custa de misturar água no leite mas numa noite de abril águas mil desabaram em trovoada e na força da enxurrada lá se foram as casas do leiteiro que na manhã seguinte comentava coçando a cabeça « Sim senhor, água as deu água as levou...»
OS FIGOS
Já uma vez lhes falei das figueiras do Diabo. Volto agora ao assunto porque as colheitas têm sido cada vez melhores, isto é, cada vez piores, em matéria de figos. E que isto seja considerado um aviso, uma advertência ao menos, para aqueles glutões que comem tudo o que têm à mão e gostam de ir aos figos com tipos mais pequenos. Pois, então, antes de colherem seja o que for nas figueiras do Diabo, muita atenção ao fruto que nem sempre é o figo tradicional, mas pode muito bem ser qualquer traidorzito enforcado numa pernada alta, um pequeno Judas inteiriçado e roxo, com a língua de palmo toda para fora. Nesse caso não toquem nos figos. Hão-de estar de todo envenenados. Tragam apenas a bolsa que, decerto, ele ainda segura na mão direita, se alguém não se tiver antecipado, claro. Sempre lhes dará um certo jeito, embora, hoje em dia, com trinta dinheiros já ninguém vá longe.
A PROBLEMÁTICA
Afinal, a europa começa ou acaba aqui?, perguntou ela enquanto eu comia a sopa. Bem, disse eu, não te sei responder, mas peço-te que não espalhes a pergunta ou toda a gente poderá ficar carregada de dúvidas e é mais um problema que nos vai trazer preocupados, nomear-se-á uma comissão de inquérito, é o costume, acabam por não chegar a conclusão nenhuma, bem sabes, e essa frustração pode, inclusive, levar ao suicídio. Eu, já agora, aproveito para te dizer que também ando um bocado apoquentado, cheio de dúvidas sobre as andorinhas: não sei se são nossas e emigram para o estrangeiro ou se são estrangeiras e emigram para cá..., mas, mais tarde, quando tivermos as questões de fundo resolvidas, irei pôr pessoalmente este problema ao secretário de estado da emigração, que deve andar com a cabeça em água. Por enquanto, como deves compreender, para problemas já basta o que basta!
O CARNEIRO
Quando o carneiro tomou a chefia do rebanho, fez uma aliança com os lobos para que o protegessem e não o devorassem. Em troca, entregaria diariamente um cordeirinho no covil. Assim, o rebanho começou a enfraquecer e ao mesmo tempo a odiar o carneiro, enquanto os lobos passaram, de um, a exigir dois cordeiros por dia. Quando uma tarde o carneiro voltava do covil dos lobos, olhando o já reduzidíssimo rebanho, concluiu que, a manter-se aquela situação, em breve restaria apenas ele e seria devorado, mas devorado seria se não continuasse a entregar mais cordeiros para satisfazer o apetite da alcateia. Ainda pensou pedir ajuda ao rebanho mas decerto lha negariam os seus irmãos de raça. Decidiu então que o melhor era fugir e, sem hesitar, meteu cornos a caminho.
Em: Joaquim Pessoa, PORTUGUÊS SUAVE, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa 1979, p.p. 19, 21, 30, 31, 46 e 50.