quarta-feira, 11 de março de 2026

Poemas e uma História Fabulosa de Joaquim Pessoa

 

PORTUGUÊS SUAVE

Sorrir. De vez em quanto e apenas. A longínqua e doce primavera virá florescer mais perto, num bosque de sangue onde vagueia ainda uma horda de visigodos a embebedar-se todos os dias nesse mesmo sangue. Ah, mas não faz mal, como diria a legenda do mapa azul das terríveis vinganças. Vingar-nos-emos todos deste lapso de história em que estamos para nascer completamente roxos com o cordão umbilical a apertar-nos o pescoço mais e mais, já sem doer o que antes foi dor de parto e de partida. Apertemo-nos pois, todos, os mais fracos, para que cada forte possa ficar mais à vontade. E se alguém vier dizer que o nosso lugar não é aqui, já sabeis, nada de quezílias ou de maus modos. Sorrir. Sorrir de vez em quando e apenas.


CONTRA A MANIFESTAÇÃO   

Aconteceu de repente: o homem vinha já a gritar, de braços abertos, abraçando coisa nenhuma, quando se ouviu o estampido. Sei lá que horas eram disse a testemunha cruzando as pernas no tribunal. A polícia não sabe de nada, não temos nada a declarar a não ser que o agente disparou para o ar, compreende, tem que se intimidar esta malta, mas o inquérito está quase concluído, além de que, compreende não é, se não querem que as coisas aconteçam não se metam nisto, nós apenas estamos aqui para defender a ordem, a ordem pois, nada mais do que isso, e depois olhe aqui na esquadra só não houve feridos por milagre, até a mãe do rapaz - (1) - se atirou a um dos nossos homens mas depois passou tudo, acalmou-se, compreende, sempre perdeu um filho e um filho é um filho, nós sabemos, etc.

(1) Chamava-se José Jorge Morais, 23 anos de idade, estudante de medicina, assassinado, em 1978, no dia 10 de Junho.
 

UM DIA O MEU PAI CHEGOU

E disse-me: não sei se sabes a história daquele leiteiro que mandou fazer umas casas à custa de misturar água no leite mas numa noite de abril águas mil desabaram em trovoada e na força da enxurrada lá se foram as casas do leiteiro que na manhã seguinte comentava coçando a cabeça « Sim senhor, água as deu água as levou...»


OS FIGOS
 
Já uma vez lhes falei das figueiras do Diabo. Volto agora ao assunto porque as colheitas têm sido cada vez melhores, isto é, cada vez piores, em matéria de figos. E que isto seja considerado um aviso, uma advertência ao menos, para aqueles glutões que comem tudo o que têm à mão e gostam de ir aos figos com tipos mais pequenos. Pois, então, antes de colherem seja o que for nas figueiras do Diabo, muita atenção ao fruto que nem sempre é o figo tradicional, mas pode muito bem ser qualquer traidorzito enforcado numa pernada alta, um pequeno Judas inteiriçado e roxo, com a  língua de palmo toda para fora. Nesse caso não toquem nos figos. Hão-de estar de todo envenenados. Tragam apenas a bolsa que, decerto, ele ainda segura na mão direita, se alguém não se tiver antecipado, claro. Sempre lhes dará um certo jeito, embora, hoje em dia, com trinta dinheiros já ninguém vá longe.


A PROBLEMÁTICA

Afinal, a europa começa ou acaba aqui?, perguntou ela enquanto eu comia a sopa. Bem, disse eu, não te sei responder, mas peço-te que não espalhes a pergunta ou toda a gente poderá ficar carregada de dúvidas e é mais um problema que nos vai trazer preocupados, nomear-se-á uma comissão de inquérito, é o costume, acabam por não chegar a conclusão nenhuma, bem sabes, e essa frustração pode, inclusive, levar ao suicídio. Eu, já agora, aproveito para te dizer que também ando um bocado apoquentado, cheio de dúvidas sobre as andorinhas: não sei se são nossas e emigram para o estrangeiro ou se são estrangeiras e emigram para cá..., mas, mais tarde, quando tivermos as questões de fundo resolvidas, irei pôr pessoalmente este problema ao secretário de estado da emigração, que deve andar com a cabeça em água. Por enquanto, como deves compreender, para problemas já basta o que basta!


O CARNEIRO

Quando o carneiro tomou a chefia do rebanho, fez uma aliança com os lobos para que o protegessem e não o devorassem. Em troca, entregaria diariamente um cordeirinho no covil. Assim, o rebanho começou a enfraquecer e ao mesmo tempo a odiar o carneiro, enquanto os lobos passaram, de um, a exigir dois cordeiros por dia. Quando uma tarde o carneiro voltava do covil dos lobos, olhando o já reduzidíssimo rebanho, concluiu que, a manter-se aquela situação, em breve restaria apenas ele e seria devorado, mas devorado seria se não continuasse a entregar mais cordeiros para satisfazer o apetite da alcateia. Ainda pensou pedir ajuda ao rebanho mas decerto lha negariam os seus irmãos de raça. Decidiu então que o melhor era fugir e, sem hesitar, meteu cornos a caminho.   


Em: Joaquim Pessoa, PORTUGUÊS SUAVE, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa 1979, p.p. 19, 21, 30, 31, 46 e 50.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

O MAR DOS MEUS OLHOS

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

LIBERDADE


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

 

EXÍLIO


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades


AS ROSAS


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.


A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ter melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos


DATA


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo da ameaça


MAR

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

INICIAL

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras: O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.


AUSÊNCIA


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num País sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


OS RITMOS


Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.


POEMA AZUL


O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia os cabelos do meu bem
Que olha o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu e a lua cheia
um beijo meu

sábado, 7 de março de 2026

Sindicatos iranianos dizem: “A classe trabalhadora não ganha nada com a guerra”

 


Os trabalhadores do Irão – operários, professores, enfermeiros, reformados e outros assalariados – não ganharam nem ganharão nada com a guerra, a crescente militarização, os bombardeamentos ao país ou as políticas imperialistas e exploradoras

Dadas as actuais condições instáveis e perigosas no Irão e na região, as organizações signatárias acreditam ser seu dever tomar uma posição colectiva.
Os trabalhadores do Irão – operários, professores, enfermeiros, reformados e outros assalariados – não ganharam nem ganharão nada com a guerra, a crescente militarização, os bombardeamentos ao país ou as políticas imperialistas e exploradoras.
Os ataques de Israel e o bombardeamento de centenas de alvos em diversas partes do Irão – incluindo infraestruturas, locais de trabalho, refinarias e zonas residenciais – fazem parte de um projecto belicista cujo preço é pago pelas pessoas comuns, especialmente as classes trabalhadoras, com as suas vidas, meios de subsistência e bem-estar.
A alegação de que Israel não tem nada contra o povo iraniano não passa de mentira e propaganda política. O ministro da Defesa israelita ameaçou “incendiar Teerão”. As repetidas ameaças de Trump e de outros responsáveis norte-americanos, juntamente com o apoio irrestrito dos governos ocidentais a tais acções, apenas alimentaram ainda mais a tensão, a insegurança e a destruição na região.
Os governos de Israel e dos Estados Unidos estão entre os principais perpetradores do genocídio em curso em Gaza e de muitos outros crimes na região e no mundo. As Nações Unidas e outras instituições internacionais que, hipocritamente, se apresentam como defensoras da paz enquanto se mantêm em silêncio perante tais atrocidades, também fazem parte desta estrutura de dominação. Todo o sistema capitalista global – a sua lógica orientada para o lucro e os seus poderes imperialistas – é uma das principais causas das guerras, das catástrofes humanas e da destruição ambiental.
A classe operária iraniana não só não ganha nada com a guerra, como é directamente afectada por estes conflitos em termos de vida e segurança. As sanções económicas contínuas, as alocações orçamentais maciças para fins militares e a supressão das liberdades conduzirão a uma pobreza ainda maior, à repressão generalizada, à fome, à morte e ao deslocamento de milhões de pessoas.
Nós, trabalhadores independentes, organizações populares e activistas do Irão, não temos ilusões sobre a pretenção dos EUA e Israel de trazer-nos liberdade, igualdade ou justiça – tal como não temos ilusões sobre a natureza repressiva, intervencionista, aventureira e anti-operária da República Islâmica.
Nós, trabalhadores e operários iranianos, pagamos há anos um preço elevado – prisão, tortura, execução, despedimento, ameaças e espancamentos – na nossa luta para conquistar os direitos mais básicos e condições de vida dignas, e ainda estamos privados do direito de nos organizarmos, de nos reunirmos e de falarmos livremente. Os trabalhadores e os oprimidos deste país estão justificadamente revoltados e desiludidos com a República Islâmica e as elites capitalistas que acumularam riquezas astronómicas à nossa custa durante mais de quatro décadas, enquanto nos mantêm sem direitos e num estado de insegurança perpétua. Todos os funcionários e instituições envolvidos na repressão e no assassinato de trabalhadores, mulheres, jovens e do povo oprimido do Irão devem ser julgados e punidos pelo próprio povo.
A nossa luta enquanto trabalhadores é uma luta social e de classe. Avançará com base na nossa própria força, dando continuidade a movimentos recentes como o Pão, o Trabalho, a Liberdade e Mulher, a Vida, a Liberdade, e através da solidariedade com a classe trabalhadora internacional e com as forças humanitárias, amantes da liberdade e que lutam pela igualdade.

A continuidade do atual caminho da guerra resultará apenas em mais destruição, danos irreparáveis ao ambiente e repetidos desastres humanos. A classe trabalhadora iraniana e a população desfavorecida do país – bem como os oprimidos noutras nações da região – estão entre as principais vítimas desta situação.
As organizações signatárias apelam a todos os sindicatos, organizações de direitos humanos, grupos pacifistas, activistas ambientais e forças amantes da paz de todo o mundo para se unirem para exigir o fim imediato da guerra, dos bombardeamentos, do assassinato de inocentes e da destruição ambiental, e para apoiarem as lutas do povo do Irão e da região nos seus esforços para pôr fim ao genocídio, à beligerância e à repressão.
Os povos do Médio Oriente necessitam do fim das tensões devastadoras entre as potências regionais e globais e do estabelecimento de uma paz duradoura – uma paz na qual as pessoas possam determinar os seus próprios destinos através da organização, das associações de massas, do alargamento dos protestos e da participação directa e colectiva.

Não à guerra – Não às políticas belicistas
Cessar-fogo imediato é a nossa exigência urgente.

Assinado por:
Sindicato dos Trabalhadores de Autocarros de Teerão e Subúrbios
Sindicato dos Trabalhadores da Cana-de-Açúcar de Haft-Tappeh
Trabalhadores Reformados do Khuzistão
Aliança dos Reformados
Comité Coordenador para a Formação de Organizações de Trabalhadores
Grupo de Unidade dos Aposentados

artigo transcrito de: https://bandeiravermelhablog1.wordpress.com/2026/03/03/sindicatos-iranianos-dizem-a-classe-trabalhadora-nao-ganha-nada-com-a-guerra/    Março 3, 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

MAU TEMPO NOS CANAIS - Joaquim Pessoa

 

Nos canais televisivos
há mau tempo. Ciclones.
Cultura em preservativos.
muitos filmes dos camones.

Nos canais televisivos
devíamos ter o rosto
coberto com adesivos
mas temos sorrisos vivos
de um senhor muito bem posto.

Nos canais televisivos
pasmam-se noites inteiras.
Dão-nos como aperitivos
folhetins rebarbativos
para as angústias caseiras.

Há mau tempo nos canais
que entopem com porcaria.

Apascenta-se a manada
nos pastos da nostalgia.
E lá vem dia após dia
(de uma forma descarada)
a brilhante apologia
da morte ressuscitada.

Sessões de necrologia
sempre à hora programada.

Nos canais televisivos
fazem-se mesas redondas
sobre cultura quadrada.
Diz-se uma boa piada
quando a conversa se afunda.

Nos canais televisivos
ameniza-se a tristeza
num jogo sensacional
em que ganha Portugal
por duas bolas a uma.

E depois desta proeza
não há pobreza nenhuma!

Por dentro destes canais
de anemia encaixotada
a mentira é por demais
uma verdade adiada.

Há telepublicidade.
Telefoto, Teledisco.
Teledor. Telejornal.
Tele-etcetera e tal.

Mas diz o telechovisco
que há bom tempo em Portugal.


Em: Joaquim Pessoa PORTUGUÊS SUAVE, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa/1979, p.p. 75 e 76.

RUY BELO PORTUGALÊS - Joaquim Pessoa



Ruy Belo porque é que já não escreves para A Bola?
Agora A Bola está mais pobre sem os poetas do futebol
que fazem versos com a mesma saúde de quem faz
                                                                   [desporto.

Só nos resta o Carlos Pinhão mas é um gozão
leva tudo a brincar só quer a bola para ele e quando
chega a vez de a passar finta-nos transforma a bola
num bolo ou num bicho e nunca
numa laranja para os jogadores descascarem
uns nos outros.

Ruy Belo não viste a malta ganhar à Áustria
nem o Benfica dar uma tareia no Sporting
(cinco a zero vê bem cinco a zero)
e a GNR dar muito mais no Alentejo.
Ai há quanto tempo a gente não via uma coisa e outra!

Olha abro este livro Português Suave
com o primeiro verso do teu Portugal sacro-profano
lugar onde
a tua poesia ficou por ler e a gente espera
que o Ruy Belo era uma vez
seja dado morto ou vivo
ao povo português.

Ruy Belo não era mau rapaz
e eles não te mereciam.

Apetece dizer como diria
a Raquel Maria

Bando de cagalhões!

Em: Joaquim Pessoa, PORTUGUÊS SUAVE, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lx/1979, p. 74.