sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

UM DIA UMA VIDA - RUY BELO

 


Não vazes tantas vezes vozes rente ao vento
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças nem sequer o vento se soprar
ouve o tempo passar escuta a sua voz
pois o tempo tem voz o tempo fala
Está atento abertos os ouvidos ouve
a vida é uma vasta música suave
É esta praia esta dúzia de casas
curiosas do mar que as lambe lá em baixo
a verdadeira capital da noite
Nos limites marítimos do burgo
de casas calmas sobre as pálpebras da morte
dormindo à luz da lua sobre as ondas
que trocam mais abaixo espuma com as rochas
nos extremos atlânticos de aquesta povoação precária
o homem abafado pelo alvo algodão do sono
transforma-se num peixe e devora esse peixe
sem pressentir sequer que a si mesmo se devora
Outras vezes o homem sempre vítima do sono
afaga na almofada um vulto imaginado
e dá-lhe mesmo um nome sem saber
que nomear as coisas é criá-las
Entretanto a sereia sulca o nevoeiro
nas masmorras erguidas na orla do sonho
depois de o náufrago nadar nu nos lençóis do leito
sob a noite cerrada sobre a cru cruel
concórdia do convénio conjugal
E há sonhos e segredos vislumbrados véus
nos que dormem nas casas onde o mar mergulha
vêm flocos de neve à tona da memória
e doses simples ou dobradas meias doses
de uma lua embalada em lenta trajectória
sulcam o céu de telha ou de betão das construções
Inexploradas conchas sobressaltam os caminhos
calcados por aqueles que o mar chama
e favas e feijões inaugurais rompem a terra
sensível à semente que a fecunda
cavada num convívio de indistintos mortos
que em sua noite metafórica articulam só
a imutável voz possível às inscrições pétreas
Mas já o coro das primeiras aves ergue um cântico
na vasta catedral do céu ainda indeciso
quando a alva alveja os sonhos dos vizinhos
embora ainda os embale o naufrágio do sono
A povoação ondula como um lago
levemente mexido pela névoa que inaugura
o espaço disponível para o dia
Ao sol horizontal saem de casa os habitantes
que após o sol não são os mesmos de antes
O tempo passa ouve o tempo passa
faz um breve ruído e passa irrefragável incontido
Já o primeiro sol surge e retira
a sonolenta capa que cobrira cada face
e as gaivotas filhas da manhã
trazem no bico a fímbria da recente luz
E começam as colunas de neblina a irromper
das chaminés de renda das recém-despertas casas
As árvores são verdes é sólido o mar
o tempo passa há raparigas novas
sinto-me em paz as coisas estão no seu lugar
Uma criança chora a terra rola há roupa suja
eu morro bem o sei mas o mundo melhora
Para quê destruir um por um os relógios
se não existe rosto onde não poise pés o tempo
que é feito de passar como de água o mar?
Sabe-me bem sentar sentir-me vivo
sem ter que sujeitar-me à morte mísera do sono
Leio o futuro nas folhas de chá
e vou verificar se o mar ainda lá está
no extremo ocidental do forte onde as gaivotas
procuram povoar ou abolir a solidão
O sol senhor despótico domina
o vasto principado que ilumina
O tempo continua a emitir a sua voz
Pudesse eu eleger por mim a companhia
decerto levaria apenas árvores ao lado
Um deus somente podia afogar
a cabeça no mar da minha vida
Começo a caminhar na madrugada
entre sardinhas e mulheres saltitantes
e ao chegar ao mar penso pregar
o meu sermão de algas e sargaços sobre a esperança humana
sob o canto dos pássaros e a língua dos vizinhos
Neste jardim só cresce a roupa seca pelo sol
as coisas são ou não não são verdade ou não
o povoado cheira a comida e maresia
e através da vida desafia o mundo o nada
Que hei-de fazer se sou a gata borralheira?
- canta a convulsa rapariga oculta nos arbustos
E em vão voga na expectativa de quem nunca vem
mordiscar-lhe a papoila mole dos lábios
com a sofreguidão da truta ao absorver o anzol
Um forasteiro só certa vez a beijou ao vê-la distraída
mas por mais que esperasse nunca mais voltou
a dar-lhe um beijo só em toda a vida
E o hálito leve de insolentes raparigas
embacia os espelhos da manhã
E quando até mim chegas deus chegou
mulher inesperada meio mulher e meio madrugada
recortada no céu de um homem que desesperou
tantas vezes voltou de mãos cheias de nada
Eu quero para mim parcelas de manhã
delas farei um tempo para mim
um tempo de porvir que se detenha
tempo que se renegue e seja tempo
e que ao negar-se afirme a sua condição
As coisas em redor prodigalizam cor
coisas que se concentram que têm sabor
E vejo como orvalho o teu olhar tombar
primeiro quase sólido e depois vapor
evaporar-se e dissipar-se como halo ou hálito
Teu corpo acolhedor calma baía
recorta-se na luz agora a esta hora
e alegra mesmo até a alegria
Pressinto que vieste e finalmente veio alguém
que verdadeiramente vem sem bem se saber quem
Pões os pés na manhã e tudo são caminhos
a orla do vestido roça no rocio depois do
baile breve na praia iluminada pela lua
muito mais tua do que do planeta
onde vivemos pois à tua volta
é que descreve a lua a sua órbita perfeita
A noiva tem no seu vestido branco óptima mortalha
e tem escovas de dentes iminente vida conjugal
dias de sol inúteis como logo este jornal
por trás do rosto imóvel que prospecta ao espelho
uma última vez antes de ir à casa sobrepor a igreja
O tempo não parou ó noiva é esse o mal
se hoje és imortal oxalá amanhã
leve a terra te seja
em sonhos sempre alguma borboleta sobre ti
desceu e escureceu a própria escuridão
sobre essa silhueta de senhora do olhar
sozinha em vida e pelo ar apenas rodeada
cercada só de terra e na morte isolada
Saíste com a aurora vertical recebeste o meio-dia
escondeste-te na luz perdeste-te na estrada
e não deixaste nada além da tua ausência
As vozes são às vezes vítimas do vento
à criança que foi substitui-se o adulto
cada rosto destrói as sucessivas formas desse rosto
um rosto é um momento
Um homem pisa pedra a pedra uma calçada
e ao pisar a primeira está a última pisada
A gente vai pela rua vai e vem
mas pela vida vai-se e nunca vem ninguém
O som do órgão ultrapassa os azulejos
a mole da igreja e inaugura a primavera
Não oiço a voz do mar oiço o tempo passar
É primavera mesmo sobre a minha idade
sobre os anos que põem pés pesados no meu peito
(eu agora nem mesmo me revejo já
nessas fotografias nessas outras tantas mortes)
A música solar murmura em meus ouvidos
o mar dorme um profundo sono azul
um grupo palrador de pombas arredonda o adro
e ao ver uma gaivota cospe um pescador
para na pesca o não abandonar a sorte
Grandes nuvens me nevam na cabeça
o dia alastra como um canto líquido
e com um mata-moscas procuro matar
o sol em cada raio que devassa os vidros da janela
A luz valsa e verseja em cada pedra
rebenta em ondas na margem do dia
parado como um mar a ventos não sujeito
A terra é musical no meu país
cantava tanto a brisa nas espigas
nas débeis raparigas nas umbrosas oliveiras
quando ao princípio éramos os campos e eu
E nem essa magnífica mulher
de um olhar que apenas por brilhar já transfigura o ar
que nas mãos manipula embrulhos e palavras
consegue afugentar a primavera
que entre dois ladrilhos do comprido corredor
culmina e se concentra numa flor naquela casa
(qual será o futuro dessa flor
que os campos renegou e mal nasceu domesticou
a explosão natural do reino vegetal?)
Boceja a tarde soalheira e sossegada nos
plátanos calmos como o espaço dos domingos
e o mar encosta preguiçoso a fronte
no regaço que a terra intimamente tem
na cúpula do corpo da nutrida primavera
nos confins da aldeia cheia de um odor de amor e mar
Vejo a fazenda a vida ameaçadas por
espumas e brisas de uma cor de esmeralda
e o louvor dos pássaros crepita
no fogo fluvial do mês de agosto
Ó natureza nua mãe do mundo
eu sacrifico apenas ao deus bach esse deus que
numa abóbada de música domina
A solidão rumina neste cabo
onde a névoa se adensa e principia a evocar
a geada caída no primeiro jardim
do homem donde ergueu o voo
a gaivota que agora um arenque devora
E entretanto a tarde não tem mãos a medir
e enquanto não cair os homens e os campos
sujeitam-lhe uns a vida outros a superfície
aceitam-na como uma solução
O sol que nasce põe-se nos teus olhos
e mal os fechas logo a noite desce sobre
um rosto que resume rápidas mulheres
Quando passas eu passo a conhecer de cor inúmeros países
há morangos vermelhos nos teus seios
e arremessam-te olhos curiosas árvores e ávidas janelas
que te deixam na rua puramente nua
enquanto o som do sino soa no teu peito
e o sol se dissolve em teu vestido
Pensam martirizar as tuas ancas
amaldiçoar maldizer o teu nome
e assassinar-te com olhares elaborados
no silencioso e chão laboratório
onde calculam complicadas cúmplices maquinações
tenebrosos embaixadores do país das trevas
O sol suave como um pensamento
despenha-se nas águas entre nuvens
e à minha volta fecha-se esse férreo
abraço conjugal que a sociedade
usa para devassar a intimidade
Mas se eu escancarar de par em par
as portentosas portas de acesso à minha vida
hão-de inundá-la ao mesmo tempo sol e mar
únicos portos para os meus navios
Afoga-se o crepúsculo na noite
como nele se afogara já o dia
e eu velo não venha a morte ver
se pálpebras pesadas me não velam
o olhar minha única defesa
Há magos que de flores fazem raparigas
que devagar se enfeitam para a festa
do fero e feroz fim da luz diária
Os mortos surgem nos seus fatos domingueiros
lágrimas luzem lá onde ontem uns olhos olharam
As ruas são de noite como que canais
por onde só circula a sonolenta escuridão
Saio de casa ou sóbrio como um domingo
ou exuberante e excessivo como um sábado
Vindo da agricultura e da cultura por
folhas de terra e páginas de livros
ordenho umas palavras leves e leitosas
e com elas procuro apreender deter o tempo
obrigá-lo a parar e impedi-lo de passar
Mas oiço-o falar é sua esta voz
Cobre-me o corpo a escuridão e cai sobre ele a chuva
e as nuvens indecisas contra as quais se apoiam
os arcos e abóbadas da noite
solidamente assente em dunas ou colunas
da mais universal obscuridade
comunicam-me a mágoa deste tempo português
e chego a pôr em causa a minha nacionalidade
Há uma luz lunar que ilumina o mar
o asparge pela areia pela maré cheia
o poema de espuma que lhe cabe recitar
e me fala das cinzas a que se reduz
o céu breve e restrito de uma noite
abençoada noite de mulheres
que quando dormem mais estão despertas
e são reais louças e temporãs
Faço uma coisa ou outra e depois disso
é ao túmulo só o sítio aonde tenho de ir
Preciso de dormir e só na pedra tumular
eu poderei poisar de verdade a cabeça
Ingresso para sempre no mais puro escuro
Fui um inveterado tripulante da memória
oiço os passos do tempo sei a minha idade
e deito-me com toda a dignidade
É inútil bater amigos inimigos a esta loisa
onde eu repouso como simples coisa
E o tempo poisa deixa finalmente de passar

Transcrito de: https://voarforadaasa.blogspot.com/2018/04/um-dia-uma-vida-ruy-belo-dito-por-luis.html

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O QUE É PRECISO É CRIAR DESASSOSSEGO - JOSÉ AFONSO

 José Afonso no concerto do Coliseu dos Recreios, em 1983, posteriormente editado em disco

José Afonso no concerto do Coliseu dos Recreios, em 1983, posteriormente editado em disco
Foto Rui Ochoa

«O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (…) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!»

José Afonso em entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85


José Afonso, homem integro e comprometido com a justiça social, a liberdade, a fraternidade, a solidariedade e a igualdade entre os povos, por isso, foi perseguido pela ditadura fascista colonialista.

1967 - foi expulso do ensino oficial, onde era professor, e só soube da expulsão quando se apresentou ao serviço, após receber alta da clínica onde esteve internado, devido a doença grave.

1973 - é preso pela PIDE e mandado para o Forte/Prisão de Caxias, onde esteve vinte dias.

Como estava comprometido com a luta pela liberdade, a justiça social, a fraternidade, a igualdade, participava activamente em actividades culturais e antifascistas, continuava a estar sob a vigilância da PIDE, tendo sido obrigado a  passar à clandestinidade, mas a polícia política perseguia-o, para o prender de novo, quando a ditadura fascista colonialista foi derrubada, em 25 de Abril de 1974.   

O seu compromisso com a luta pela liberdade, a justiça social, a fraternidade, a solidariedade e a igualdade, foi sempre genuíno e sem pretender obter, para si próprio ou para a sua família, dividendos ou honras de nenhum tipo, como o prova e demonstra a sua recusa em receber condecorações oficiais, quando lhe foram atribuídas, por exemplo, pelo Presidente da República Ramalho Eanes.

José Afonso deixou-nos no dia 23 de Fevereiro de 1987, levado pela esclerose lateral amiotrófica, que tinha sido diagnosticada em 1982. O funeral realizou-se no dia seguinte, sendo acompanhado por mais de trinta mil pessoas.

Fisicamente ausente, mas enquanto houver quem o ouça, leia e consulte a sua obra, continua entre nós e as gerações vindouras.

"Os Vampiros", de 1963. O "Venham Mais Cinco", de 1973, gravado em Paris, com a direcção musical de José Mário Branco. 

A sua vasta obra, são parte integrante da Cultura e da História Integral Portuguesa e Universal e, dado o contexto histórico de ascensão das forças nazi-fascistas, está actual e deve ser ouvida e lida com a atenção devida.

Fonte: aja.pt/biografia.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

LIBERDADE (Sérgio Godinho)


Viemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada

só se pode querer tudo quando não se teve nada

só se quer a vida cheia quem teve a vida parada

só se quer a vida cheia quem teve a vida parada

Ah, só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão – habitação - saúde - educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

a paz o pão – habitação - saúde - educação

Viemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

a sede de uma espera só se estanca na torrente

Ah, só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão

habitação

saúde educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

a paz o pão – habitação - saúde - educação


Fonte: https://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/content/letra-da-cancao-liberdade-de-sergio-godinho-espectaculo-tres-cantos-ao-vivo

Nota de rodapé, tendo em consideração as recentes eleições para a presidência...

A liberdade não se ausentou deste país, fomos nós que a desbaratámos, deixamos de lutar por ela, por que a liberdade conquista-se e defende-se quotidianamente e nunca está garantida, muito menos, consolidada e capaz de resistir a todos os ataques a que está permanentemente a ser sujeita... 

Apesar disso, mais de um milhão e setecentos mil pessoas votaram nas últimas eleições presidências numa proposta política, dando continuidade ao que já se verificou nas eleições legislativas, em que elegeram 60 deputados para a Assembleia da República Burguesa e Reaccionária, que serve e defende, única e exclusivamente, os interesses instalados, isto é, os interesses da burguesia, dos capitalistas, em particular, dos detentores e accionistas das grandes corporações financeiras, industrias fósseis, comunicação/manipulação, tecnológicas etc.... 

Demonstrando assim que, não estando satisfeitas com a situação actual, em vez de se mobilizarem, organizarem e agirem para criar e construir condições e propostas para transformar a sociedade, para melhor, optam por dar força a projectos políticos que, está provado e demonstrado historicamente, só vão agravar as coisas e arrastarão - já está em curso, como a realidade nos comprova, não podemos dizer que não sabíamos - a humanidade para a destruição, guerra e morte.  

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Memória - Feminismo n’A Voz do Operário: a pioneira Angelina Vidal

A julgar pelas narrativas mais correntes, pode parecer que a história do feminismo em Portugal se iniciou em 1908, com a «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas».

Porém, um quarto de século antes disso, já o jornal A Voz do Operário tinha uma mulher como redatora. Ainda por cima, uma mulher que já naquele tempo se assumia como republicana e breve se tornaria socialista. Seu nome era Angelina Vidal.


“Missão natural da mulher”…

Hoje será difícil de imaginar, o que era, nos anos 1880, uma mulher atrever-se assim, a ter uma intervenção política. Ainda por cima em oposição ao poder estabelecido e à classe dominante.

Na mesma altura em que se tornou redatora d’A Voz do Operário, Angelina Vidal começou a colaborar num outro jornal, o «Distrito de Santarém».

Mas foi uma colaboração efémera. No ano seguinte, esse mesmo jornal explicava, com o seguinte palavreado:

“Nós acatamos e respeitamos sempre uma senhora, mas […] sair do lar para subir à tribuna, esquecer o governo doméstico para discursar sobre administração pública”, e sobre “os perigos que cercam a nacionalidade portuguesa, pode ser muito patriótico, mas sobremaneira pouco feminil, e nós confessamos que nos desagrada sobremaneira”.

E a sentença era clara:

“A senhora dona Angelina Vidal – a única republicana, cremos, […] prega a transformação geral, deseja a emancipação […] desde o capitólio até ao lar, e tudo isso nos parece pouco de acordo com a missão natural da mulher” [Distrito de Santarém, 02/07/1882, p.1].

Feministas operárias

Nascida em Lisboa, em 1849, Angelina Vidal era filha de um maestro e casou com um médico (do qual se separou). Era uma senhora que, literalmente, tocava piano e falava francês. Tornou-se escritora, jornalista e professora. Publicou poesia, contos e teatro. Quando as futuras dirigentes da «Liga Republicana» ainda eram crianças.

Além disso, Angelina Vidal praticou um feminismo socialmente mais avançado do que essas posteriores republicanas. Um feminismo focado nas mulheres operárias.

Em 1880, já ela proferia uma conferência sobre “A mulher e a atualidade, perante o critério filosófico”, no mesmo sindicato onde nasceu A Voz do Operário, o dos operários da indústria de tabaco de Lisboa.

Em 1894, noutro evento sindical, Angelina Vidal discursou sobre a educação da mulher e apelou à sua participação no sindicalismo. A seu lado falou Luísa Maria, delegada do primeiro sindicato feminino em Portugal, o das «Lavadeiras de Lisboa» – fundado 15 anos antes da tal «Liga Republicana».

Em 1896, Angelina Vidal discursou, sobre “os direitos sociais e económicos da mulher operária”, noutro sindicato feminino, o das costureiras de Lisboa. E, no ano seguinte, ali voltou a falar sobre “os direitos da mulher”.

Veio mesmo a ser nomeada sócia honorária deste sindicato, pelo seu contributo como “distinta propagandista da emancipação da mulher”.

A biografia de Angelina Vidal é inseparável desta sua ligação a mulheres operárias e do lugar destas na história do feminismo em Portugal.

Feminismo socialista

Angelina Vidal viria a falecer em 1917, fiel aos seus ideais.

Ainda em 1914, ela denunciava que “a costureira, empregada nos ateliers, chega a trabalhar doze e quatorze horas [ao dia] por um salário mesquinhíssimo”.

Já falava na desigualdade de género a nível salarial, apontando o caso da “obreira fabril, [que] se não está tantas horas na roça, suporta a injustiça de diferenciação, para menos, do salário, quando mesmo em igualdade de produção com o homem” [Vanguarda, 22/05/1914, p.1]

E, longe de ser um caso isolado, Angelina Vidal foi precursora de uma corrente coletiva, um feminismo operário e socialista.

Outras intelectuais integraram essa corrente. Como a escritora Maria O’neill, que A Voz do Operário elegeu, em 1926, para a comissão de apoio à direção nas áreas de instrução, educação e arte.

Mas o grosso dessa corrente brotou da classe trabalhadora. Com figuras notáveis como a operária tabaqueira Virgínia Silva, cujos discursos empolgaram inúmeros encontros sindicais, como um grande plenário que se realizou no salão d’A Voz do Operário, naquele ano de 1926.

Mentalidades e práxis

O papel pioneiro de Angelina Vidal mais sobressai quando, por outro lado, a sociedade A Voz do Operário tardou 66 anos até eleger uma mulher para a sua direção. O que só aconteceu para o mandato de 1949.

Na história do movimento operário e do associativismo popular, só bem mais tarde é que outras coletividades deram esse passo.

Uma mulher presidente da direção? Isso, então, só depois da revolução de Abril de 1974.

Não será de espantar, tal lentidão no evoluir de mentalidades e de práxis. Não são coisas que se mudem assim, tão fácil e rápido.

Num estudo sobre a individualidade humana, Lucien Sève aponta que a classe trabalhadora é feita de pessoas com “personalidades produzidas pelo capitalismo e vítimas das suas contradições” [Marxisme et théorie de la personnalité, Paris: Éditions Sociales (1972), p.449].

Tal como outros desafios, a desigualdade de género é propiciada por todo um contexto histórico e social. Mesmo entre quem contesta esse contexto, no fito de uma sociedade mais livre e igualitária.

Luís Carvalho - Investigador

Transcrito de: https://vozoperario.pt/jornal/2026/02/10/feminismo-na-voz-do-operario-a-pioneira-angelina-vidal/

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Streets of Minneapolis - um poema

 


Pelo gelo e frio do inverno
Descendo a Avenida Nicollet,
Arrostou a cidade ardente fogo e gelo
Sob o tacão dum ocupante.
O exército privado d’el-rei Trump,
Armas a escorrer pelos blusões,
Vinha trazer a lei a Minneapolis
Ou assim contaram eles

Contra fumo e balas de borracha,
Reluzia o amanhecer,
De pé pela justiça,
Na noite a voz ecoou dos cidadãos,
A clemência não teve lugar,
Ficaram pegadas ensanguentadas,
Deitados à morte, dois, nas ruas nevadas
Alex Pretti e Renée Good

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Defenderemos esta terra
E o forasteiro no nosso seio
Aqui, em nossa casa, rusgaram, mataram
No inverno de 26
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Espancaram-no os jagunços de Trump
No rosto e no peito,
Soaram depois os tiros,
Alex Pretti jazeu na neve, morto.
Alegaram legítima defesa, senhor juiz,
Nos seus olhos não creia!
São o nosso sangue, os nossos ossos,
Mais estes apitos e telefones
Contra mentiras porcas do Miller e da Noem

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Dizem vir para a lei cumprir,
Mas espezinham nossos direitos
Pele negra ou morena tens, amigo?
Que t’interrogam e deportam à vista!
No cântico «ICE fora, já!»,
Revive da cidade coração e alma
Nos vidros partidos e lágrimas de sangue
Das ruas de Minneapolis

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Aqui, em nossa casa, rusgaram, mataram
No inverno de 26
Defenderemos esta terra
E o forasteiro no nosso seio
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE

Bruce Springsteen

Transcrito de: https://jornalmaio.org/tag/um-poema/

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O BANQUETE, FORMA DE GOVERNO - Pádua Fernandes

  Nosso lifestyle? O caviar! 
Como o governo quer apoio,
  começa pagando o jantar;

muitos pratos, mas estou de olho
    nos valores deste cardápio:
menos de milhão, não tem gosto,

cargos ou contratos, é sábio
      verificar o percentual
antes de combinar nosso ágio,

       que é o prato principal
dos que se alimentam do Estado
            o apetite do liberal,

     um ministério devorado,
no entanto com talheres finos;
  o orçamento serve de prato

  e os códigos, de aperitivo;
comemos por causa do preço
      e pelo sabor purgativo,

pois vomitando sem sossego
    o banquete permanente
   se torna forma de governo

  apesar de eleições, somente
mantidas porque as campanhas
 geram contratos e excedentes,

   migalhas que o povo apanha
    do chão e chama de direitos,
mas eram da mesa, e ele apanha

     por roubar do jantar alheio,
    por deixar a fome em apuros;
    um brinde à fome, nosso feito,

        e outro à ponte do futuro;
    com cem por cento de propina,
  nunca se ergueu, embora o muro

            isolando a carnificina
        lá fora do nosso banquete
       ainda esteja sangue acima.

Pádua Fernandes, poeta, prosador, ensaísta e activista brasileiro. Alguns dos seus livros foram inicialmente publicados em Portugal. Organizou a primeira antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil (A Encomenda do Silêncio, 2004). O presente poema foi extraído do seu livro Canção de Ninar com Fuzis (Urutau, São Paulo, 2019).

Transcrito de: MAPA / JORNAL DE INFORMAÇÃO CRÍTICA / JANEIRO-MARÇO 2026