quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Memória - Feminismo n’A Voz do Operário: a pioneira Angelina Vidal

A julgar pelas narrativas mais correntes, pode parecer que a história do feminismo em Portugal se iniciou em 1908, com a «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas».

Porém, um quarto de século antes disso, já o jornal A Voz do Operário tinha uma mulher como redatora. Ainda por cima, uma mulher que já naquele tempo se assumia como republicana e breve se tornaria socialista. Seu nome era Angelina Vidal.


“Missão natural da mulher”…

Hoje será difícil de imaginar, o que era, nos anos 1880, uma mulher atrever-se assim, a ter uma intervenção política. Ainda por cima em oposição ao poder estabelecido e à classe dominante.

Na mesma altura em que se tornou redatora d’A Voz do Operário, Angelina Vidal começou a colaborar num outro jornal, o «Distrito de Santarém».

Mas foi uma colaboração efémera. No ano seguinte, esse mesmo jornal explicava, com o seguinte palavreado:

“Nós acatamos e respeitamos sempre uma senhora, mas […] sair do lar para subir à tribuna, esquecer o governo doméstico para discursar sobre administração pública”, e sobre “os perigos que cercam a nacionalidade portuguesa, pode ser muito patriótico, mas sobremaneira pouco feminil, e nós confessamos que nos desagrada sobremaneira”.

E a sentença era clara:

“A senhora dona Angelina Vidal – a única republicana, cremos, […] prega a transformação geral, deseja a emancipação […] desde o capitólio até ao lar, e tudo isso nos parece pouco de acordo com a missão natural da mulher” [Distrito de Santarém, 02/07/1882, p.1].

Feministas operárias

Nascida em Lisboa, em 1849, Angelina Vidal era filha de um maestro e casou com um médico (do qual se separou). Era uma senhora que, literalmente, tocava piano e falava francês. Tornou-se escritora, jornalista e professora. Publicou poesia, contos e teatro. Quando as futuras dirigentes da «Liga Republicana» ainda eram crianças.

Além disso, Angelina Vidal praticou um feminismo socialmente mais avançado do que essas posteriores republicanas. Um feminismo focado nas mulheres operárias.

Em 1880, já ela proferia uma conferência sobre “A mulher e a atualidade, perante o critério filosófico”, no mesmo sindicato onde nasceu A Voz do Operário, o dos operários da indústria de tabaco de Lisboa.

Em 1894, noutro evento sindical, Angelina Vidal discursou sobre a educação da mulher e apelou à sua participação no sindicalismo. A seu lado falou Luísa Maria, delegada do primeiro sindicato feminino em Portugal, o das «Lavadeiras de Lisboa» – fundado 15 anos antes da tal «Liga Republicana».

Em 1896, Angelina Vidal discursou, sobre “os direitos sociais e económicos da mulher operária”, noutro sindicato feminino, o das costureiras de Lisboa. E, no ano seguinte, ali voltou a falar sobre “os direitos da mulher”.

Veio mesmo a ser nomeada sócia honorária deste sindicato, pelo seu contributo como “distinta propagandista da emancipação da mulher”.

A biografia de Angelina Vidal é inseparável desta sua ligação a mulheres operárias e do lugar destas na história do feminismo em Portugal.

Feminismo socialista

Angelina Vidal viria a falecer em 1917, fiel aos seus ideais.

Ainda em 1914, ela denunciava que “a costureira, empregada nos ateliers, chega a trabalhar doze e quatorze horas [ao dia] por um salário mesquinhíssimo”.

Já falava na desigualdade de género a nível salarial, apontando o caso da “obreira fabril, [que] se não está tantas horas na roça, suporta a injustiça de diferenciação, para menos, do salário, quando mesmo em igualdade de produção com o homem” [Vanguarda, 22/05/1914, p.1]

E, longe de ser um caso isolado, Angelina Vidal foi precursora de uma corrente coletiva, um feminismo operário e socialista.

Outras intelectuais integraram essa corrente. Como a escritora Maria O’neill, que A Voz do Operário elegeu, em 1926, para a comissão de apoio à direção nas áreas de instrução, educação e arte.

Mas o grosso dessa corrente brotou da classe trabalhadora. Com figuras notáveis como a operária tabaqueira Virgínia Silva, cujos discursos empolgaram inúmeros encontros sindicais, como um grande plenário que se realizou no salão d’A Voz do Operário, naquele ano de 1926.

Mentalidades e práxis

O papel pioneiro de Angelina Vidal mais sobressai quando, por outro lado, a sociedade A Voz do Operário tardou 66 anos até eleger uma mulher para a sua direção. O que só aconteceu para o mandato de 1949.

Na história do movimento operário e do associativismo popular, só bem mais tarde é que outras coletividades deram esse passo.

Uma mulher presidente da direção? Isso, então, só depois da revolução de Abril de 1974.

Não será de espantar, tal lentidão no evoluir de mentalidades e de práxis. Não são coisas que se mudem assim, tão fácil e rápido.

Num estudo sobre a individualidade humana, Lucien Sève aponta que a classe trabalhadora é feita de pessoas com “personalidades produzidas pelo capitalismo e vítimas das suas contradições” [Marxisme et théorie de la personnalité, Paris: Éditions Sociales (1972), p.449].

Tal como outros desafios, a desigualdade de género é propiciada por todo um contexto histórico e social. Mesmo entre quem contesta esse contexto, no fito de uma sociedade mais livre e igualitária.

Luís Carvalho - Investigador

Transcrito de: https://vozoperario.pt/jornal/2026/02/10/feminismo-na-voz-do-operario-a-pioneira-angelina-vidal/