Nosso lifestyle? O caviar!
Como o governo quer apoio,
começa pagando o jantar;
muitos pratos, mas estou de olho
nos valores deste cardápio:
menos de milhão, não tem gosto,
cargos ou contratos, é sábio
verificar o percentual
antes de combinar nosso ágio,
que é o prato principal
dos que se alimentam do Estado
o apetite do liberal,
um ministério devorado,
no entanto com talheres finos;
o orçamento serve de prato
e os códigos, de aperitivo;
comemos por causa do preço
e pelo sabor purgativo,
pois vomitando sem sossego
o banquete permanente
se torna forma de governo
apesar de eleições, somente
mantidas porque as campanhas
geram contratos e excedentes,
migalhas que o povo apanha
do chão e chama de direitos,
mas eram da mesa, e ele apanha
por roubar do jantar alheio,
por deixar a fome em apuros;
um brinde à fome, nosso feito,
e outro à ponte do futuro;
com cem por cento de propina,
nunca se ergueu, embora o muro
isolando a carnificina
lá fora do nosso banquete
ainda esteja sangue acima.
Pádua Fernandes, poeta, prosador, ensaísta e activista brasileiro. Alguns dos seus livros foram inicialmente publicados em Portugal. Organizou a primeira antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil (A Encomenda do Silêncio, 2004). O presente poema foi extraído do seu livro Canção de Ninar com Fuzis (Urutau, São Paulo, 2019).
Transcrito de: MAPA / JORNAL DE INFORMAÇÃO CRÍTICA / JANEIRO-MARÇO 2026