terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O BANQUETE, FORMA DE GOVERNO - Pádua Fernandes

  Nosso lifestyle? O caviar! 
Como o governo quer apoio,
  começa pagando o jantar;

muitos pratos, mas estou de olho
    nos valores deste cardápio:
menos de milhão, não tem gosto,

cargos ou contratos, é sábio
      verificar o percentual
antes de combinar nosso ágio,

       que é o prato principal
dos que se alimentam do Estado
            o apetite do liberal,

     um ministério devorado,
no entanto com talheres finos;
  o orçamento serve de prato

  e os códigos, de aperitivo;
comemos por causa do preço
      e pelo sabor purgativo,

pois vomitando sem sossego
    o banquete permanente
   se torna forma de governo

  apesar de eleições, somente
mantidas porque as campanhas
 geram contratos e excedentes,

   migalhas que o povo apanha
    do chão e chama de direitos,
mas eram da mesa, e ele apanha

     por roubar do jantar alheio,
    por deixar a fome em apuros;
    um brinde à fome, nosso feito,

        e outro à ponte do futuro;
    com cem por cento de propina,
  nunca se ergueu, embora o muro

            isolando a carnificina
        lá fora do nosso banquete
       ainda esteja sangue acima.

Pádua Fernandes, poeta, prosador, ensaísta e activista brasileiro. Alguns dos seus livros foram inicialmente publicados em Portugal. Organizou a primeira antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil (A Encomenda do Silêncio, 2004). O presente poema foi extraído do seu livro Canção de Ninar com Fuzis (Urutau, São Paulo, 2019).

Transcrito de: MAPA / JORNAL DE INFORMAÇÃO CRÍTICA / JANEIRO-MARÇO 2026