segunda-feira, 24 de agosto de 2026

FOI EM AGOSTO DE 1978!

Foi em Agosto, dia 8, decorria o ano de 1978, quando, prematuramente - tinha completado, a 27 de Fevereiro, apenas quarenta e cinco anos de vida - o edema pulmonar nos levou o poeta, Ruy Belo é o seu nome. Mas, para além da poesia - a que se deu por inteiro - também foi, durante cerca de três anos, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo, assim como exerceu o cargo de leitor de Português na Universidade de Madrid, entre 1971 e 1977. Ano em que regressa a Lisboa.

Tendo requerido um lugar de assistente na faculdade de Letras de Lisboa, é-lhe recusado, apesar da falta de professores com que o ensino universitário se debatia, e ter qualificações e experiência que o habilitavam a exercer essas funções, tendo apenas conseguido um lugar de professor na Escola Técnica de Cacém, em horário nocturno.

Ruy Belo, para além de grande poeta, foi também um excelente, sério e eficiente tradutor de obras clássicas e primordiais para a humanidade:

Antoine de Saint-Exupéry (Piloto de Guerra, Cidadela e Um Sentido para a Vida), Montesquieu (Confidências sobre as Causas da Grandeza e da Decadência dos Romanos), Blaise Cendrars (Moravagine), Raymond Aron (Ensaios sobre as Liberdades), H.-I. Marron (Do Conhecimento Histórico) e Jorge Luís Borges (Poemas Escolhidos).


Rematamos, esta singela nota sobre o poeta que deu o que tinha: deu-se por inteiro, com um dos seus poemas:


O PORTUGAL FUTURO


O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Em: Ruy Belo, Todos os Poemas, Círculo de Leitores, 2000, p. 199.



  

terça-feira, 11 de agosto de 2026

DOIS POEMAS DE JORGE LUÍS BORGES

 

O truque

Quarenta cartas deslocaram a vida.
Pintando talismãs de cartão
fazem-nos esquecer os nossos destinos
e uma criação risonha
vai povoando o tempo roubado
com as floridas brincadeiras
de uma mitologia doméstica.
Nos limites da mesa
se detém a vida dos outros.
Dentro dela há um estranho país:
as aventuras do invejo e do quero,
a autoridade do ás de espadas,
como Don Juan Manuel, omnipotente,
e a manilha de ouros tilintando esperança.
Uma lentidão indolente
vai demorando as palavras
e como as alternativas do jogo
se repetem e repetem,
os jogadores desta noite
copiam antigas vazas:
facto que ressuscita um pouco, muito pouco,
as gerações de antepassados
que legaram ao tempo de Buenos Aires
os mesmos versos e as mesmas diabruras.



Um pátio

Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive
por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna.


Jorge Luís Borges, Obras completas I, 1923 - 1949, Círculo de Leitores, 1998, pp. 20, 21.