SANTARÉM - CONCENTRAÇÃO, 15H, JUNTO À LOJA DO CIDADÃO
«1. Todos têm direito, para
si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em
condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a
privacidade familiar.»
Constituição da República Portuguesa (artigo 65.º, ponto 1)
«Continuamos na Rua por uma Casa Para Viver. Não se deixem enganar – este novo governo só veio agravar ainda mais a crise de habitação! Os
preços e as rendas das casas continuam a subir; a sobrelotação aumenta,
assim como as barracas, as pessoas em situação de sem abrigo e os
despejos. A maior parte do nosso salário, senão todo (e muitas vezes
este já não chega!) é gasta a pagar a casa. Desta forma, é inevitável
que a pobreza aumente. […]»
«[…] A maioria daqueles que cá vivem e
trabalham vêem a sua habitação ameaçada, ou pelo valor da renda ou do
crédito, ou pela curta duração do contrato. Os salários já não chegam
sequer para pagar a casa e, enquanto isso, crescem os lucros da banca e
da especulação. Muitos são os que já perderam as suas casas. Muitos são
aqueles que adiam a autonomia ou regressam a casa de familiares para
enfrentar a situação. Muitos são os que vivem em casas partilhadas, em
quartos, em situações verdadeiramente indignas, sem qualquer tipo de
privacidade e salubridade. Esta situação tem que ser revertida. […]»
A situação crítica vivida pela população, residente e trabalhadora
em Portugal, inclusive professores, educadores e investigadores, no acesso e na manutenção de uma habitação digna, bem como
de todas as pessoas que estando numa situação mais vulnerável, já
perderam o acesso a este direito fundamental.
A habitação, designadamente o seu preço, em muitas das
regiões onde mais faltam professores, é mais um contributo para o
agravamento do problema da falta de professores qualificados.
Sim, é necessário ter em conta que o custo da habitação
impede hoje que muitos docentes aceitem colocações longe de casa, sendo
que muitos abandonaram e poderão vir a abandonar a profissão por essa
razão.
Também estudantes e famílias vivem diariamente esta
situação crítica que não contribui para o direito à igualdade de
oportunidades de acesso e êxito escolar.
Urgem respostas efectivas do governo, as quais enfrentem
desde logo e de forma determinada os interesses da banca e dos fundos
imobiliários.
Resolver a crise de habitação é possível. Por
isso, este sábado, 28 de Setembro de 2024, vamos estar presentes na manifestação em Santarém e apelamos a todas as pessoas que participem nas diferentes manifestações «Casa para
Viver» convocadas por todo o país, designadamente na que se realiza em Santarém:
Santarém - 15h, Loja do Cidadão
Pelo cumprimento do direito à habitação, participa!
Respigado de: https://www.spgl.pt/pelo-direito-a-habitacao-manifestacoes-28-de-setembro-de-2024
Talhadas é uma freguesia do concelho de Sever do Vouga, ali a
meio caminho entre Aveiro e Viseu, com cerca de 1.000 habitantes que,
nos inícios dos anos 1970, na altura com 325 famílias, deu início a uma
luta que despertou o mundo rural para a acção colectiva que desafiava o
Estado fascista.
Nos finais dos anos 1930, ainda no rescaldo da Guerra Civil Espanhola
e já em tempos de Segunda Guerra Mundial, em Talhadas e um pouco por
toda a realidade circundante, não havia estradas, nem luz eléctrica ou
telefone. Os pobres da zona viviam sob um regime que se poderia dizer
feudal: meros escravos do sector rico. Tempos de seca, também, com a
consequente subida de preços trazida pela aliança entre a escassez e a
ganância. Um ambiente fértil para negociatas e enriquecimento rápido de
alguns, que acabariam por determinar quem seria a classe dominante dos
anos seguintes.
É por esta altura que o Estado cria uma nova realidade, com a
imposição da reflorestação da Serra e dos Serviços Florestais, os
encarregados de a levar a cabo. Pretendia o Estado Novo extinguir o
controlo colectivo e tradicional do território e substituí-lo por um
regime florestal centralizado, decidido pelo centro de poder estatal,
condenando as serras e os montes à subserviência perante a economia de
larga escala.
Houve terrenos que transitaram directamente para o nome desses
serviços. Acima de tudo, houve terrenos «livres», que na realidade eram
baldios ou pastagens, que foram tomados ou vendidos, num processo que
permitiu o avanço da área florestal até limites inconcebíveis (junto de
casas agrícolas, aldeias, templos,…) colocando as populações, como se
viria em breve a confirmar, sob risco mortal em caso de incêndio.
Houve,
durante muitos anos, perseguição a quem entrasse nas matas para arranjar
lenha. O dinheiro, pouco utilizado até então, passou a ser fundamental.
A vida e as possibilidades de subsistência tradicionais foram
desaparecendo: os rebanhos foram abandonados por falta de baldios e pela
proibição de entrada de animais e gente na floresta. O leite, a carne e
o vestuário acabaram por se tornar produtos difíceis de produzir.
Houve, durante muitos anos, perseguição a quem entrasse nas matas para
arranjar lenha. O dinheiro, pouco utilizado até então, passou a ser
fundamental. Restava a opção de sair dali. Para a indústria, por
exemplo, em Águeda, ou para o estrangeiro. Os que ficavam apenas podiam,
em troca de salários de miséria, participar nas limpezas das matas ou
na sementeira dos Serviços Florestais, sob o olhar atento de capatazes,
armados em senhores absolutos, que não tardaram a humilhá-los e a
invadir terrenos particulares, usurpando-os assim como aos seus bons
recursos aquíferos.
Basta!
No final dos anos 1960, a «pacatez» do meio rural foi interrompida,
quando as populações, fartas dos abusos das autoridades e da opressão
que sobre elas se abatia, decidiram tomar os seus destinos nas suas
próprias mãos e afirmar que «nada se faz sem a vontade do povo». 1
Os acontecimentos iniciaram-se precisamente em Talhadas, em 1970, e
foram cobertos jornalisticamente por Armando Pereira da Silva, que, com
as recolhas e informações que obteve, escreveu um pequeno livro, Ocupação sem Limites, editado em 1973, que relata a luta contra a ocupação dos Serviços Florestais e pela restituição dos terrenos ocupados.
Na freguesia de Talhadas, em 3 de Novembro de 1970, todos os
habitantes com mais de 14 anos assinaram por si ou a rogo uma exposição
ao governo, na altura encabeçado por Marcelo Caetano, onde se podia ler:
«Não contestamos a utilidade ou validade dos Serviços Florestais a
nível nacional, porque infelizmente não tivemos possibilidade de
adquirir conhecimentos suficientes para isso. Mas sabemos que para esta
freguesia são maus. Nada fizeram que nós próprios não tivéssemos feito
melhor. E impediram que 300 famílias continuassem a beneficiar dos
rendimentos dos seus rebanhos, impedindo-as ao mesmo tempo de os
substituir pelos das matas que já estavam a semear e a plantar nos
baldios». As exigências eram a restituição «aos seus legítimos donos dos
bens particulares usurpados pelos Serviços Florestais» e a restituição
ao povo da freguesia, por parte dos Serviços Florestais, de «todo o
baldio que ocupam, ou pelo menos todo o baldio que excede a zona amarela
assinalada na carta, que é a única a que se refere o acordo que foi
feito entre os mesmos serviços e a Junta de Freguesia de Talhadas».
A exposição incluía ainda uma espécie de estalada de luva branca, ou
talvez uma forma de dizerem «desapareçam e não se fala mais nisso»,
quando propunha «que, embora sejam apuradas as responsabilidades dos
funcionários dos Serviços Florestais nas injustiças sofridas pelo povo
desta freguesia, não sejam estes em nenhum caso perseguidos
criminalmente ou disciplinarmente, por julgarmos as suas atitudes mais
fruto de deformada preparação para o exercício do ofício de que foram
incumbidos, do que resultante de personalidade antissocial».
Coube ao povo de Talhadas a iniciativa de despoletar esta luta, que
rapidamente ganhou amplitude e se alastrou a outras aldeias, outras
geografias, sempre com esse carácter de exigência de participação na
gestão das suas próprias vidas, das suas próprias actividades, das suas
próprias serras e sempre com um carácter de reivindicação dos baldios
enquanto terrenos comunitários dos povos que sempre os usaram
colectivamente.
Um combate que se prolongou até à revolução e que abalou as
freguesias de Talhadas (Município de Sever do Vouga), Préstimo (antiga
freguesia do Município de Águeda agregada a Macieira de Alcoba em 2013),
Albergaria das Cabras (actualmente Albergaria da Serra) e Cabreiros
(ambas em Arouca), entre muitas outras situadas no Vale do Vouga.
Ocupação
Sem Limites. Talhadas Do Vouga, Um Caso Exemplar. História Breve da
Reacção Popular Contra os Abusos de Autoridade Praticados na Serra de
Talhadas do Vouga Armando Pereira da Silva Lisboa, Prelo, 1973.
Deixar arder
Quando, em Julho de 1972, um incêndio brutal deflagrou na Serra, os
Serviços Florestais comportaram-se como senhores feudais e, se bem que
houvesse povoados que enfrentavam ameaça de destruição completa,
preferiram mobilizar quatro auto-tanques para uma casa de guarda. As
populações ajudaram os bombeiros e soldados, lutaram bravamente e foram
os seus contra-fogos, que sabiam utilizar com mestria, o que acabou, em
vários casos, por deter as chamas no limiar da tragédia. No entanto,
recusaram-se a combater o fogo dentro dos perímetros de florestação
oficial. Aí, deixavam arder.
E a luta foi endurecendo. Quando os Serviços Florestais avançavam com
novo abuso, por exemplo, com a venda de um lote de pinheiros que a
Junta de Freguesia e a população consideravam seus, as pessoas
organizavam-se para ocupar as matas administradas pelos Serviços até que
essa venda fosse anulada. «De qualquer modo, o nosso objectivo é a
transferência total da administração florestal para as mãos do povo»,
dizia o presidente da Junta. Que concluía: «Os interesses do povo – e do
país, portanto – serão muito melhor defendidos pelo povo. Desde que o
interessemos e o façamos participar honestamente na administração
daquilo que lhe pertence». A devolução dos baldios era a primeira
exigência, a mais audível, digamos assim. No pós-incêndio, uma outra
reivindicação era a da construção de um sistema de segurança eficaz
contra incêndios, que passava pelo abate de partes da floresta demasiado
próximas de aldeias que por ela tinham sido envolvidas. Exigiam-se,
ainda, indemnizações.
«De qualquer modo, o nosso objectivo é a transferência total da administração florestal para as mãos do povo».
Mas havia muitas outras lutas, algumas pequenas, com objectivos
aparentemente limitados e pouco ambiciosos, alguns até possivelmente
corporativos, mas sem as quais o conjunto não teria sido tão impactante.
Os tempos eram ainda de domínio fascista e, à sua maneira, cada uma
dessas lutas teve por trás muita coragem, muita determinação, alguma
dose de repressão e vários sucessos e desilusões. Mas foram, no fim de
contas, a chama vitoriosa que ficou até culminar numa outra exposição ao
governo, esta já de 1974, posterior ao 25 de Abril, em consequência da
qual, no dia 19 Janeiro de 1976, foi publicada a legislação de
restituição dos baldios aos povos com direito a eles.
Artigo publicado no JornalMapa, edição #39, Outubro|Dezembro 2023.
António Afonso de Pinho, na altura presidente da Junta de Freguesia de Talhadas, citado no livro Ocupação sem limites,
de Armando Pereira da Silva (1973), do qual saiu grande parte da
informação deste texto. Entretanto, em 2020, a editora conimbricense
Lápis de Memórias lançou o livro O despertar das montanhas: as lutas dos agricultores e povos da montanha antes do 25 de Abril,
de Vasco Paiva, um engenheiro florestal da área do PCP que esteve
envolvido no apoio a estas lutas e que, como tal, dá um relato mais
pessoal e autobiográfico. Neste livro tem-se uma visão que começa por
destacar o papel clandestino do PCP na animação dos protestos e passa
depois para um apanhado bastante profundo de estratégias de luta e
momentos repressivos, acabando, tal como o livro Ocupação sem limites, com uma secção preenchida por documentos que não são mais do que os principais textos produzidos pelos povos em luta.
Foi no passado 18 de agosto, uma noite de lua cheia, que nasceu
para o mundo a Rede Global Anti-Extrativista. Movimentos anti-minas de
países como Portugal, Espanha, França, Argentina e Sérvia recusam deixar
as suas terras tornar-se “zonas de sacrifício”, em benefício de uma
economia cada vez mais desconectada das realidades sociais e ecológicas
do nosso planeta. Cada um à sua maneira, com as suas comunidades,
celebraram em simultâneo a vida e a resistência rural. Em Covas do
Barroso, onde centenas de pessoas se juntaram no quarto Acampamento em Defesa do Barroso, revelou-se o manifesto da nova rede, que aqui reproduzimos.
Escutem. Parem o que estão a fazer, pousem as vossas ferramentas.
Parem tudo. E escutem. Hoje falamos para um planeta inteiro. Juntem-se
nos campos, vilas e cidades, e oiçam. Porque hoje falamos nós. E o que
temos para vos dizer é importante. Queremos falar-vos das nossas terras,
das nossas lutas, das nossas vidas. Somos gente enraizada. Fazemos
parte de comunidades e movimentos aliados que defendem territórios
ameaçados por projetos de mineração. Enfrentamos o monstro
extractivista.
É um monstro antigo, este. Um que cresce a cada dia, o mesmo em todo o
lado, sedento do que é nosso. Esfomeado do que é vida. Que olha para os
lugares onde nascemos, onde crescemos, onde vivemos, e só vê números,
cifrões e valores em bolsa. É um monstro que transforma a Natureza em
lucro, e depois em lixo. É um monstro que não dá lugar a outras formas
de viver.
Por isso dizemos: atacam mais que as nossas terras. Atacam os nossos
costumes, os nossos afetos, a nossa identidade. Tentam despojar-nos dos
nossos territórios, para nos despojarem dos nossos valores, dos nossos
projetos de futuro, dos nossos sonhos. Não o aceitamos. E por isso
lutamos.
Sabemos que enfrentamos gigantes. Que a situação mundial não está do
nosso lado. Que a Transição Energética que tanto se apregoa não é
possível sem a destruição de redes de vida por todo o lado. Que dá via
livre a multinacionais para a exploração desenfreada de territórios, com
a cumplicidade de governos e instituições internacionais. Que por ela
se atropelam ecossistemas e comunidades inteiras. Em nome do lucro,
tentam convencer-nos de que um só caminho nos pode salvar das crises que
vivemos. Prometem mudar tudo para que tudo fique igual. Para se
manterem os mesmos de sempre no poleiro. Para que nos viremos umas
contra as outras.
Mas não nos rendemos. O assédio dos governos e das empresas às
comunidades rurais é uma ferida aberta nas nossas democracias. Uma
ferida aberta que expõe as contradições do nosso tempo, vista cada vez
por mais pessoas. Por isso sabemos que não estamos sozinhas. As
comunidades resistentes e os movimentos solidários com as suas lutas
multiplicam-se por todo o mundo. E nós também nos sabemos organizar. Por
isso, este ano criámos a Rede Global Anti-Extractivista, um grupo
internacional de coordenação de movimentos dedicados a esta luta.
Como primeiro passo, hoje, dia 18 de Agosto, organizamos uma rede de
ações anti-mineração em vários territórios do mundo. Juntamos as nossas
raivas, mas também as nossas forças e sonhos, em defesa dos nossos
territórios e da preservação da vida. Juntas, gritamos numa só voz e
lembramos às esquecidas. Lembramos que o povo é quem mais ordena. Que o
baldio, hoje e sempre, é da sua gente. Que o povo é sereno, mas a foice
está amolada.
Fora da bouça, que a bouça é nossa!
Participam na iniciativa:
Unidos em Defesa de Covas do Barroso. Território transmontano. Portugal. Plataforma Sierra de Gata Viva. Espanha.
Plataforma No a la Mina de Cañaveral. Espanha.
Plataforma ciudadana Rebollar Vivo. Espanha.
Stop mines 03. Echassiére. França.
Coligação francesa para uma luta internacional contra o extrativismo. França.
Coligação “ Mines de Rien”. França.
Cueca de Salinas Grandes y laguna de Guayatayoc. Argentina.
Epitopiagonapanagias. Grécia.
Antamanta. Itália
Coalición of local organisations agaisnt lithium mining in the Balkans. Sérvia.
Kolonierna. Territorio Sampi. Grécia.
Coalitión of people from the Ore Mountaisn. República Checa
Pelo quarto ano consecutivo, a aldeia de Covas do Barroso, em
Trás-os-Montes, acolheu centenas de pessoas solidárias com a luta da
comunidade local contra as ameaças da exploração mineira. Em 2024, o
Acampamento em Defesa do Barroso procurou honrar a luta popular contra a
empresa Savannah Resources, que já implicou vários processos legais e
sete meses de bloqueio diário de uma máquina que invadira os terrenos
baldios. Durante seis dias, cultivou-se um ambiente de aprendizagem,
celebração e partilha entre as pessoas do Barroso e os apoiantes que
visitavam este pequeno paraíso abraçado por montanhas e ameaçado pela
avidez capitalista.
O programa teve início oficial a 14 de Agosto, com a exibição do
filme Lavra, que aborda as dramáticas consequências da exploração
mineira sofridas por diversas comunidades brasileiras, vendo «o chão a
ceder sobre os seus pés» e «o céu a cair sobre as suas cabeças». No
entanto, nos dias anteriores várias foram as pessoas que acorreram a
Covas do Barroso, oferecendo os seus dias de verão para garantir que
todas as necessidades logísticas do evento seriam satisfeitas.
A “acampada” foi precisamente caracterizada pelo envolvimento das
participantes, responsabilizando-se pelas tarefas diárias segundo
princípios de auto-gestão e apoio-mútuo, tornando-a num fervilhante
laboratório de horizontalidade. A estrutura organizativa desdobrou-se em
grupos de trabalho, cujas responsabilidades iam desde a limpeza e a
confecção de refeições à (celebr)ação e ao cuidado inter-pessoal. As
refeições, que alimentariam mais de 300 pessoas, ficaram a cargo dos
colectivos Maldatesta, Mula, Disgraça e Rede de Apoio Mútuo de Lisboa. A
loiça, por sua vez, era lavada pelas próprias participantes sob o
espigueiro da Quinta do Cruzeiro, onde outrora fora armazenado o milho
após ser colhido. Ironicamente, este complexo senhorial do século XVIII
passa, nos verões dos anos 2020, a testemunhar práticas vivas de
organização anarquista.
O dia seguinte foi marcado por uma conversa com Paula Oliveira, que
se dedica a fomentar a produção têxtil através de técnicas tradicionais,
sobre a utilização de linho e de lã no Barroso, seguida da escuta de
histórias partilhada pelas habitantes locais, que se estenderam pela
«caminhada sensorial» e pela «caminhada da memória», nas quais os
forasteiros foram convidados a enveredar.
Ao cair da noite, o Largo do Cruzeiro encheu-se de gente para
assistir ao Grupo Teatral de Boticas, que trouxe uma leitura encenada do
livro “Lítio”, lançado essa noite. Seguiu-se a estreia nacional do
filme “A Savana e a Montanha”, de Paulo Carneiro. Um filme de tom
satírico à estilo western, protagonizado pelos próprios habitantes do
Barroso, que estreara em maio no festival de Cannes e de onde se destaca
a máxima «somos poucos, mas não somos números».
O programa de dia 16 começou com uma contextualização sobre o
projecto de mineração em Covas do Barroso, combinada com a crítica ao
processo de expansão energética (disfarçado de «transição energética»)
em Portugal, contando com a presença de representantes da Mútua de
Pescadores de Setúbal. Antigos mineiros, da Associação de
ex-trabalhadores das Minas de Urânio (ATMU), partilharam a sua luta de
mais de duas décadas pelos direitos de quem teve de, como nos versos de
Sérgio Godinho cantados hoje no Barroso, «construir as cidades pr´ós
outros, carregar pedras, desperdiçar muita força p´ra pouco dinheiro».
Denunciaram a violência exercida por qualquer grande projecto de
mineração sobre a saúde das pessoas, das comunidades e da natureza, e
afirmaram a sua solidariedade com a resistência de Covas e de todas as
populações ameaçadas.
A tarde foi brindada com sete oficinas, realizadas paralelamente:
escrita criativa e performance, ilustração naturalista, construção de
máscaras barrosãs, criação de meias de lã, danças de rancho, visita ao
ecomuseu do Barroso, introdução à ecologia e cuidado da vida para
crianças. Houve ainda lugar para uma conversa sobre solidariedade com o
povo palestino, com uma faixa em pano de fundo onde se lia «Do Barroso à
Palestina, a terra a quem a trabalha».
A noite foi embalada pela contadora de histórias Estefânia Surreira,
pelo Grupo Couto de Dornelas, ao som do qual o largo inteiro se tornou
um tremendo baile tradicional, e pelo inebriante Coro dos Anjos, que
partilhou estar a experienciar um processo de horizontalização, na
ausência do seu mentor Edgar Valente.
Na manhã de dia 17, abriu-se espaço para o pensamento utópico na
sessão “2050: um mundo sem minas”, onde se esboçaram colectivamente
alternativas ao modelo extractivista. A tarde foi novamente repleta de
actividades simultâneas, por sua vez repletas de participantes: oficinas
de herbalismo, crochet, cante alentejano e teatro para crianças, assim
como uma conversa sobre os impactos da mineração. Em seguida, sentados
numa grande roda de escuta, membros do colectivo Vozes de Dentro leram
cartas de mulheres encarceradas e estimularam reflexões sobre a privação
da liberdade no sistema prisional em articulação com a análise dos
mecanismos igualmente opressivos das instituições psiquiátricas.
As celebrações nocturnas contaram com um espetáculo acrobático, que
teve lugar no campo de futebol da aldeia; o surpreendente
concerto-performance de Buterflai, que ecoou as anteriores histórias
carcerárias – com ritmos de cadeados a evocar memórias da escravatura
histórica e contemporânea – e celebrou a resistência e a criatividade em
meio rural; e a performance musical «Volta ao Mundo em 80 Minutos», por
João Barroso, músico autodidata das montanhas do Gerês, que quebrou
barreiras entre artistas e público, convidando os presentes a tomar os
instrumentos e participar numa criação coletiva.
O domingo, dia da celebração, despertou para a criação de alianças
entre movimentos nacionais e internacionais que resistem à mineração,
com a presença de companheiros do Montalegre Com Vida, que lutam contra o projeto da Mina do Romano, em Morgade, pela empresa Lusorecursos; companheiras da Ação Floresta Viva,
na Serra da Estrela, que lutam contra a expansão anunciada da mina de
Alvarrões pela Sociedade Mineira Carolinos, atualmente em consulta
pública; companheiras galegas de Suído-Seixo; e de companheiros
franceses de Allier-Echassiéres.
Ao cair da tarde, as e os participantes juntaram-se à entrada da
quinta para marcharem em direção à vizinha aldeia de Romainho – que
dista apenas 200m dos terrenos em que a Savannah tenciona levar a cabo
os seus projectos de mineração. «Querem dar cabo das serras, Barroso /
Nós não vamos permitir / O povo vai resistir» – entoavam-se os versos do
cantautor barrosão Carlos Libo, à medida que o pôr-do-sol conferia às
montanhas um impressionante contorno rosado.
No largo de Romainho, diante de uma parede granítica decorada com
ferramentas de trabalho e de luta (como a icónica sachola), maçarocas
avermelhadas, vinhas contorcidas e uma cabaça tornada candeeiro, teve
lugar uma performance onde pássaros humanos, adornados com máscaras de
junco criadas durante a acampada, aludiam a um futuro em que a luta
contra a mineração terá sido ganha e em que os guerreiros podem voltar a
ser gente. Em seguida, leu-se o comunicado da nova Rede Global Anti-Extractivista,
apelando ao cuidado, ao apoio mútuo e à solidariedade internacional
contra as pulsões auto-destrutivas do capitalismo neoliberal.
A música prolongou-se pela noite dentro, com vários momentos
comoventes, como a atuação do próprio Carlos Libo, a música tradicional
galega interpretada por crianças e adultos, ou a participação da Dona
Albina, habitante de Covas do Barroso e presença regular nos turnos de
bloqueio das máquinas, que brindou a multidão com uma cantiga da sua
infância e com o fado que marcara a sua vida.
No último dia da acampada falou-se sobre práticas comunitárias
ibéricas, com destaque para os baldios, a sua importância histórica e
atual e o seu funcionamento, com depoimentos de Nelson Gomes, presidente
da associação Unidos em Defesa de Covas de Barroso e uma das figuras
fundamentais na luta contra a mineração juntamente com a sua esposa,
Aida Fernandes, presidente do Conselho Diretivo dos Baldios das Covas do
Barroso. Seguiu-se uma conversa com membros da comunidade de baldios de
Montes de Couso, na Galiza, que apresentaram uma fascinante experiência
de gestão agroflorestal e organização económica para benefício
comunitário.
A tarde contou com a apresentação dos livros La Sanabria Anarquista de los anõs 30, de Carlos Coca, e The Sytem is Killing Us,
de Xander Dunlap. Ao pôr-do-sol, encerrou-se o programa de reflexão
colectiva em conversa com o sindicalista Bruno Candeias sobre as pontes
entre os movimentos ecológicos e os movimentos laborais. Até a escuridão
começar a tomar conta da tenda principal, foram-se tecendo ligações
entre a mineração de lítio, a requalificação do complexo industrial de
Sines, a tão prometida fábrica de hidrogénio verde, o tão cobiçado data center,
as centrais fotovoltaicas que se multiplicam pelo país e a voracidade
do capital internacional para aumentar infinitamente a produção e o
consumo energéticos num planeta onde os recursos são finitos e a vida
vulnerável.
À luz da lua cheia, O Gajo tornou-se lobo com o uivar da sua viola
campaniça, e Säflor embalou a noite com a sua inspiradora recolha de
canções tradicionais ibéricas e uma voz de arrepiar tanto os fãs de
música softezinha como os punks mais hardcore.
Enquanto a população de Covas recupera a calma das lides diárias e
centenas regressam às suas terras e aos seus caminhos pelo país e mundo
fora, ficam a força deste encontro, as sementes de cuidado e de
resistência, a chama de «vida verdadeira» que se viveu durante uma
semana, e que se desejam capazes de travar o projecto mineiro com que o
governo e a Savannah ameaçam os animais, as plantas, os rios, as
montanhas do Barroso, com que nos ameaçam a todas nós.
Texto deFilipe Olival e Francisco Colaço Pedro
Imagens deCatarina Leal, Jan Kleinpeter e Florian Scheible
O poeta José Gomes Ferreira escreveu, no anos supracitado, o poema que passamos a transcrever:
II
(De repente a Natureza deixou de ser uma visão e surgiu-me como é: real)
Que voz é esta
que vem da floresta
e não do meu coração?
Pois os pássaros não cantam apenas
na minha imaginação?
Existem em cor e penas
na realidade desta canção
de mim tão alheia?
O pássaro autêntico
volta a ser ideia.
José Gomes Ferreira, Poeta Militante II, Círculo de Leitores, 2003, p. 9
Setenta e nove anos depois as vozes, que vem das monoculturas intensivas de madeira industrial, são de abandono, destruição e morte (nove mortos, vários feridos e casas e vidas destruídas, nos incêndios da semana passada).
Porque a floresta não passa de uma visão, e os pássaros cantam apenas na nossa imaginação...
Que voz é esta
que não vem da floresta
mas da nossa vontade?
Pois os pássaros cantam apenas
na nossa imaginação?
Inexistentes em cor e penas
na realidade desta canção
de mim tão alheia?
O pássaro autêntico
volta a ser ideia.
E se pegarmos e consolidarmos a ideia, em conjunto, e nisso nos empenharmos voltaremos ter floresta e pássaros de cores, penas e cantares diversos...
Tudo é possível é só querermos... Para isso, é necessário emanciparmo-nos, libertarmo-nos do jugo ideológico hegemónico, escravizador, e juntos e organizados mudamos o mundo para melhor... Onde a justiça seja lei.
Porque, quem espera nunca alcança... Mas, se adoptarmos a máxima de Aquilino Ribeiro: "Alcança quem não cansa", tudo será diferente...
Estás nas tuas, nas nossas mãos, resgatar o presente e construir o futuro... Este é, sempre foi e será, uma criação colectiva...
Não permitas que uns quantos, muito poucos, decidam por ti e te manipulem e tratem como mercadoria, um recurso a explorar até ao tutano, e a deitar borda fora assim que já não sirvas os seus gananciosos intentos..
A justa luta das pessoas que trabalham na corporação multinacional, sigma/alfa, actual detentora da Nobre tem repercussões e capta apoios e a solidariedade de todos os sectores que lutam por uma organização económica, produtiva, social e cultural que rompa com o sistema capitalista.
Por isso, partilhamos o artigo abaixo que, apesar de ser de maio de 2023, continua actual e nos apresenta uma análise e perspectiva diferente e fundamentada, contribuindo assim para aprofundar o debate, e a importância da luta que as trabalhadoras e trabalhadores da Nobre travam por trabalho com direitos, numa perspectiva de transformação estrutural das relações sócio-económicas, produtivas e culturais.
Isto é, vai para além das reivindicações económicas, salariais que são, no sistema capitalista, sempre escassas, precárias e pontuais. Porque o capital, detentor do poder efectivo, tem ao seu dispor os mecanismos de - através da inflação, por exemplo - anular de imediato todo os ganhos obtidos pela classe trabalhadora, através da sua unidade, organização e luta.
“Somos uma família pobre”: como o caso da Nobre é um sintoma da doença capitalista
Depois das manifestações e greves dos trabalhadores e
trabalhadoras da Nobre Alimentação, fica mais uma vez claro que a
máquina de gerar lucros que é o capitalismo não cumpre o seu propósito
na sociedade.
Recentemente, com grande taxa de
adesão, as trabalhadoras e trabalhadores da Nobre Alimentação –
conhecida pelo fabrico de enchidos – organizaram greves e manifestações,
utilizando essas ferramentas fundamentais para expressar o seu profundo
descontentamento em relação à empresa. Lutam por salários mais altos,
carga horária mais baixa e mais dias de férias, para além de um sistema
de progressão nas carreiras que, até agora, parece ser completamente
inexistente. Nas manifestações, a falar à comunicação social, uma das
funcionárias afirma que a empresa criou um lema interno que usava para
comunicar às pessoas que lá trabalham: “Somos uma família Nobre”. As
manifestantes aproveitaram para virar este lema do avesso e trazê-lo
para a realidade que conhecem: “Somos uma família pobre”.
A inércia na subida dos salários
Na reportagem da SIC Notícias acima mencionada
é dito que a esmagadora maioria da força de trabalho da Nobre recebe o
ordenado mínimo permitido por lei. Isto pode, à primeira vista, parecer
uma exceção à regra, mas não é. É apenas o capitalismo a funcionar.
Nele, as pessoas são um recurso como qualquer outro; um custo a ser
minimizado de forma a maximizar o lucro. Isto é provavelmente intuitivo:
quem tem o poder (ou capital) vai querer mantê-lo e fazê-lo crescer..
De 2020 para 2021, os lucros da Nobre aumentaram, enquanto que o custo
com pessoal diminuiu. E assim, a fatia da receita que vai para os donos
aumenta..
Vendo deste prisma, percebemos que os
salários baixos não são mais do que a escolha “racional” do empregador:
para maximizar os lucros dos acionistas, terá que minimizar os salários
de quem produz a riqueza. No caso da Nobre, como em tantos outros
sítios por Portugal, pela Europa e pelo mundo fora, isto é verdade. E
não o deixará de ser enquanto não mudarmos radicalmente o nosso sistema
económico.
As vendas ao capital multinacional
Outro aspeto incluído na reportagem é
a notória degradação das condições de trabalho a partir do momento em
que foi vendida a gigantes multinacionais. Desde que saiu da posse da
família original (a família Nobre), a empresa de alimentação já passou
por mãos espanholas, chinesas, até chegar aos seus atuais donos, um
grupo mexicano chamado Sigma (que, por sinal, pertence, por sua vez, a uma corporação chamada alfa).
O que é de relevar aqui é que, no
mercado internacional dos “billions”, as pessoas são um mero produto. Da
mesma forma que eles compram e vendem fábricas, maquinaria e terrenos,
também compram pessoas. Passamos a ser apenas mais uma célula na sua
ultra-eficiente folha de Excel. E quando somos uma célula numa folha de
Excel, o objetivo torna-se um: aumentar o número na última linha da
folha.
“Somos uma família Nobre”
Internamente, a gestão da Nobre tenta
convencer os trabalhadores e trabalhadoras de que pertencem a uma
família. Esta tática, que é utilizada internamente dentro de várias
empresas, serve como uma tentativa, muitas vezes conseguida, de tornar
os trabalhadores mais “dóceis”, fazendo com que, por exemplo, se torne taboo
falar sobre salários com as colegas – dado que toda a gente deve
trabalhar por amor à camisola ou, neste caso, à família – ou que surja
um sentimento de culpa ou traição por queremos pertencer a sindicatos ou
organizar greves.
É de louvar o génio do marketing
que, pela primeira vez, se lembrou de usar a expressão “família” desta
forma. Para muitas de nós a família é um aspeto nuclear da vida. São
pessoas pelas quais temos emoções muito fortes, muitas vezes positivas,
mas, acima de tudo, uma ligação intangível quase inegável.
Sacrificamo-nos por família, mesmo quando discordamos. Sentimos uma
forte vontade de a ajudar a superar qualquer desafio, mesmo depois de
passar por maus momentos. Não é, por isso, coincidência, que as empresas
não usem termos como “comunidade” ou “vizinhança”. A família toca-nos
num lugar especialmente profundo, do qual se tentam aproveitar.
A política de intimidação como recurso de desespero
O trabalhador favorito de um
acionista é o trabalhador solitário; aquele que não comunica com os seus
colegas, aquele que não é confrontado com a sua própria falta de
direitos. E é exatamente isto que uma união (quer na forma de sindicato
ou não) dá às pessoas. A união dos trabalhadores oferece a oportunidade
de, democraticamente, se organizarem, debaterem e pensarem em soluções
para os problemas. Chegado ao ponto em que as trabalhadoras e
trabalhadores conseguiram organizar-se, vemos imediatamente a reação
natural por parte da gestão: o medo. Sem capacidade de produção, a
empresa não consegue responder aos seus clientes, perde receita e pode
mesmo gerar graves prejuízos financeiros. Tudo isto se reflete na
valorização da empresa e nos ganhos dos seus donos.
E é, por isto mesmo, que este medo
dos chefes e acionistas se transforma numa reação defensiva e agressiva,
o que começa com indiretas acerca de sindicatos, um dia talvez acabe
com ameaças de despedimentos caso haja greves. E aqui entra o papel
fundamental da união. Sozinha, nenhuma pessoa tem a capacidade de se
opor a tais ameaças. Juntas, as pessoas conseguem equilibrar a balança
do poder. Mas continua a não ser fácil. Às vezes há vitórias, outras
vezes não. E essa é a vida em capitalismo: uma constante necessidade de
lutar.
Posição do DiEM25: as cooperativas como solução empresarial
Existe uma alternativa. Uma
alternativa justa, desenhada para organizar as empresas à volta de
suprir necessidades e vontades humanas, de forma sustentável. Chama-se cooperativa.
Cooperativas são empresas sem fins
lucrativos controladas democraticamente pelos trabalhadores, que, em
igual parte, detêm o capital da empresa. Para além disso, as
cooperativas devem seguir um conjunto de princípios. Um destes é que
devem cooperar com outras cooperativas, criando uma rede nacional e
internacional de empresas focadas nas pessoas, e onde o principal
objetivo é suprir necessidades e desejos, não gerar lucros. Aliás, o
conceito de lucro, de certa forma, desvanece! As receitas da empresa são
distribuídas igualmente por todos os membros da cooperativa ou
reinvestidos, caso os membros achem que esse é o melhor uso das
receitas.
Façamos um exercício criativo: como
seria a Nobre se, em vez de uma empresa capitalista, controlada pelos
acionistas, fosse uma cooperativa, controlada democraticamente pelas
trabalhadoras? O primeiro passo seria criar os estatutos que guiam como a
cooperativa funciona no seu dia-a-dia – que trabalho se faz, que
funções existem dentro da empresa, etc..
Estes estatutos seriam escritos, revistos e votados por todas as
trabalhadoras. O segundo passo seria, provavelmente, eleger alguns
órgãos de gestão, como uma administração e um conselho de ética, por
exemplo. Note-se a maneira como estas pessoas chegam ao poder: por
eleição, não por nomeação ou contratação externa; qualquer pessoa que
pertença aos órgãos tem obrigatoriamente de ser membro da cooperativa. A
partir daqui, toda a gestão e trabalho do dia-a-dia é gerido pelas
mesmas pessoas que fazem o próprio trabalho. São elas que decidem os
seus salários, são elas que decidem quando comprar maquinaria nova, que
alimentos produzir, quando trocar a fábrica de local, quantos dias de
férias acham adequados, onde e com que frequência realizar jantares de
empresa, e tudo o mais que se possa imaginar para o dia-a-dia da Nobre.
Não esquecer: como em toda a boa democracia, há rotatividade; a cada
ano, ou qualquer período decidido, serão realizadas novas eleições para
os órgãos da empresa, garantindo assim que não existe uma pessoa ou
pequeno grupo que toma a cooperativa pelas rédeas para ganho próprio. E
assim se poderia gerir a Nobre democraticamente.
Atualmente, em Portugal e pelo mundo,
existem inúmeras cooperativas bem sucedidas. Muitas delas operam na
área da alimentação ou da produção agrícola. No entanto, há já exemplos
mais recentes de cooperativas a funcionar em áreas tipicamente
“reservadas” ao capitalismo mais puro, como é o exemplo da cooperativa The Drivers Cooperative,
em Nova Iorque. Uma cooperativa nativamente digital, que compete com
gigantes como a Uber ou a Bolt. É apenas um exemplo de como as
cooperativas podem ser uma das ferramentas nucleares numa sociedade
pós-capitalista, mais justa e que proporcione uma melhor vida a todas as
pessoas.
O DiEM25 apoia a luta das
trabalhadoras e trabalhadores da Nobre, assim como de todas as outras
pessoas que lutam pelo seus direitos, pelo seu bem-estar e pela sua
liberdade. Temos como um dos nossos objetivos fazer uma transição justa
para uma sociedade e economia pós-capitalistas, onde todas as pessoas
têm os seus direitos concretizados, incluindo nos seus trabalhos.
Fotografia original em: https://www.stopareeiros.pt
Associação de Defesa do Território de Azinheira Chainça e Quintas,
Como está demonstrado, ao longo de décadas de destruição dos ecossistemas, da biodiversidade e da relação das pessoas com a natureza, da qual fazem partem, o Estado, os governos e as empresas declararam guerra às pessoas e às condições que lhes permitem viver condignamente na Terra Mãe.
A expansão dos areeiros é demonstrativo da senda destruidora que é inerente ao sistema capitalista, à sua ideologia política, económico-financeira, produtiva, social e cultural, onde prevalece a ganância insaciável que esmaga e destrói a vida em todas as suas dimensões.
O atentado à vida das pessoas destas três localidades (Azinheira, Chainça e Quintas), é em tudo semelhante ao que se passa nas terras do Barroso, com a concessão, por parte do Estado/governos, para a abertura de minas de lítio, a céu aberto, próximo das povoações, com impactos igualmente destruidores da vida das pessoas e da natureza...
Por isso, é necessário e urgente juntar forças e vontades para trabalhar e organizar a resistência a estes sistemáticos e deliberados atentados à vida das pessoas e à destruição dos ecossistemas e respectiva biodiversidade natural, da qual a espécie humana é parte integrante e sem os quais a vida, tal como a conhecemos, não é possível.
Expressamos, publicamente, o nosso apoio e solidariedade com todas as pessoas da Azinheira, Chainça e Quintas, na sua luta em defesa da vida, em todas as suas dimensões. Conscientes que a vossa luta é a luta de todos nós, pela construção de uma comunidade onde a justiça social e climática seja efectiva e a justiça seja lei.
Passamos a transcrever a nota de imprensa da Associação de Defesa do Território de Azinheira Chainça e Quintas:
“Recentemente a população de Azinheira, aldeia do concelho de Rio
Maior, tomou conhecimento da expansão da exploração mineira de caulino e
de quartzo (areias siliciosas) até muito próximo das suas habitações.
Esta expansão foi concessionada pela Direção-Geral de Energia e
Geologia (DGEG) a duas empresas – Sifucel e Sibelco. A concessão destas
áreas, denominadas «Quinta da Rosa» (Sibelco) e «Via Vai» (Sifucel),
foram publicadas em Diário da República, em 2 de fevereiro de 2024 e 16
de dezembro de 2021, respetivamente.
Os limites destas explorações mineiras a céu aberto, que envolvem
escavações com 50 a 70 metros de profundidade (até à cota 46) e a
criação de grandes lagoas, chegam a 80 metros da povoação de Azinheira, a
escassos 20 metros de algumas habitações do bairro da Chainça e a 600
metros da povoação de Quintas, ficando muito próximo de alguns casais
isolados.
Junto ao Bairro da Chainça encontra-se uma outra exploração de areia
que confina com os muros de algumas moradias, dista cerca de 30 metros
de uma creche e estende-se até cerca de 150 metros das primeiras
habitações de Azinheira.
Para além desta expansão a sul da povoação de Azinheira, a população
ficou ainda mais desassossegada e alarmada após ter tido conhecimento de
um pedido de concessão a nascente e a norte da aldeia (denominada
«Joquinho»), para extração de areia semelhante e com limites de
exploração a cerca de 50 metros das habitações da aldeia de Azinheira.
Este processo encontra-se na fase final, com vista à concessão de
contrato de exploração, pela DGEG. Paralelamente, existe um pedido de
prospeção e pesquisa de depósitos minerais a norte e poente da aldeia.
Perante as concessões atribuídas (sul), em processo de atribuição
(nascente e norte) e pedido de prospeção e pesquisa (norte e poente) a
aldeia de Azinheira fica completamente rodeada de areeiros e de enormes
lagoas.
Esta exploração mineira “desenfreada” tem múltiplos e cumulativos
impactes negativos, inaceitáveis para as populações, que não foram
consultadas, para além da alteração do uso do solo, nomeadamente a
desvalorização do património rústico e urbano, a deterioração das
edificações (como já acontece no bairro da Chainça), a degradação da
paisagem, a redução dos recursos hídricos (seca de nascentes, poços e
furos devido à drenagem das águas para o nível freático das lagoas), a
poluição dos aquíferos, a redução da estabilidade dos solos próximo das
habitações (não existem camadas rochosas que os sustentem), o ruído, a
restrição ou corte de acessos às terras agrícolas e florestais, a
destruição de ecossistemas importantes, como é o caso do montado de
sobro que dá suporte a uma avifauna diversificada, como de outras
espécies protegidas, etc..
Concluindo, devido à enorme expansão da área das explorações de
areias, já concessionadas e em processo de concessão, são esperados
efeitos de grande magnitude, maioritariamente irreversíveis, ao nível da
qualidade ambiental, paisagística e funcional, particularmente no uso e
ocupação do solo, qualidade visual, contaminação do aquífero, ruído,
degradação da qualidade do ar e da qualidade de vida das populações que
residem nas proximidades. As populações estão indignadas e reuniram-se
no dia 17 de fevereiro para uma tomada de posição. Foi assim criada uma
Associação de Defesa do Território de Azinheira, Chainça e Quintas com o
objetivo de lutar pela preservação da sua qualidade de vida e do seu
território”.
Tinha
completado no dia 27 de Fevereiro, do ano acima referido, quarenta e cinco anos de
idade quando, no dia 8 do supracitado mês, o edema pulmonar o
matou, prematuramente, na sua casa de Monte Abraão (Queluz). Foi uma
morte prematura e inesperada, para quem não privou com o Homem, o
Cidadão e o Poeta Ruy Belo.
Para
além de poeta reconhecido pelos seus pares e de todos os amantes da
poesia, Ruy Belo foi também um cidadão íntegro e comprometido
socialmente, como fica claro e evidente numa brevíssima nota biográfica,
onde se realça a sua procura de saber, conhecimento científico e sua
divulgação, através de umas quantas excelentes traduções de autores
como: Antoine de Saint-Exupéry (Piloto de guerra, Cidadela e Um Sentido para a Vida), Montesquieu (Confidências sobre as causas da grandeza e da Decadência dos Romanos), Baise Cendrars (Doravagine), Raymond Aron (Ensaios sobre as Liberdades), H. - I. Marron (Do Conhecimento Histórico) e Jorge Luís Borges (Poemas Escolhidos).
Na
sua busca de conhecimento científico obtêm duas licenciaturas: Direito;
Filologia Românica; e, Doutoramento em Direito Canónico, com uma tese
intitulada Ficção Literária e Censura Eclesiástica, na Universidade de S. Tomás de Aquino (Roma), em 1958.
Regressa a Lisboa e, durante cerca de três anos, é director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo.
Em
1969 integrou a lista de candidatos a deputados, por Lisboa, da CEUD
(Comissão Eleitoral de Unidade Democrática). Em 1971 ocupa o cargo de
leitor de Português na Universidade de Madrid. Como homem e cidadão
íntegro e vertical, não se submeteu às clientelas político-partidárias
nem aos jogos de poder, trocas de favores e influências. Por isso,
quando regressou de Madrid, em 1977, apresentou requerimento para o
lugar de assistente na Faculdade de Letras de Lisboa, este foi-lhe
sistematicamente recusado. Apesar de ter habilitações
académicas e experiência profissional que correspondiam ao então
exigido, e a faculdade, como todo o sistema de ensino, ter falta de professores. Consegue, e em horário nocturno, um lugar de professor na
Escola Técnica do Cacém.
Ruy Belo escreveu, no seu livro País Possível, a nota que transcrevemos abaixo:
NOTA DO AUTOR
Este
livro, que aparentemente poderia não passar de uma antologia visto que o
integram um poema inédito e poemas extraídos dos meus últimos livros
publicados, tem realmente uma unidade e é afinal um livro novo. E não o é
apenas por eu publicar pela primeira vez na íntegra composições
anteriormente truncadas por razões várias ou por eliminar ou emendar
versos, por voltar a tentar suprimir o mais possível a pontuação, por
resolver de vez «a guerra maiúsculas-minúscúlas» a favor do lado mais
fraco.
Este
livro é um livro novo porque um livro de poesia é, afinal, um lugar de
convívio, um local onde os poemas reagem uns contra os outros, se
criticam mutuamente, se transformam uns nos outros. É um livro novo, em
suma, porque a ele, como a nenhum outro livro meu, preside
indubitavelmente uma unidade temática: a do mal-estar de um homem que,
ao longo da vida, tem pagado caro o preço por haver nascido em Portugal;
a problemática de uma consciência que sofre as contradições próprias da
sociedade em que vive e de um homem que tem atrás de si vários passados
e vive várias vidas simultaneamente e que intensamente se autodestrói;
que se vai suicidando lentamente porque essa sociedade o destrói e
assassina e o censura e a censura se instala na sua própria consciência.
Unidade
essa devida ao facto de estes poemas serem uma reflexão sobre o próprio
poeta e a realidade que o rodeia, de serem uma forma de intervenção, de
compromisso, de luta por um mundo melhor (não nos grita Mário
Sacramento, no final da sua admirável Carta-Testamento: «Façam o mundo
melhor, ouviram?») sem, por outro lado, o poeta pactuar com a demagogia,
com o oportunismo que afinal representa não ver primordialmente na arte
criação de beleza, construção de objectos tanto quanto possível belos
em si mesmos, embora de difícil acesso porque a arte é difícil e precisa
que, através da educação, da divulgação, da interpretação, quem a
receba possa assim e só assim ter acesso a ela e assim se sentir vivo,
vertical e assim actuar, intervir.
A
poesia não é em si mesma, creio eu, uma forma de comunicação, como
tão-pouco o são a pintura, a música, o romance, o verdadeiro e único
romance, o romance que consegue que passe por ele a linha evolutiva da
literatura. A poesia comunica, comunica até intensamente desde que se
faça o leitor chegar até ela, esse leitor saído talvez de um povo que
hoje, em Portugal, no estado de alienação ou alheamento em que se
encontra, nem sequer se revê nas suas próprias criações, como, por
exemplo, os romances do romanceiro tradicional. O povo português nem
sequer se reconhece na sua música e prefere muitas vezes, penso eu, uma
cançoneta de Tonicha transmitida pela rádio ou pela televisão,
verdadeiras «técnicas de aviltamento», a uma composição qualquer das
muitas que foram escrupulosamente recolhidas por Lopes Graça e
Giacometti.
País Possível, portanto, creio eu, mais do que uma antologia, um livro novo: o
livro possível, neste momento, a um homem que sente na poesia a sua
mais profunda razão de vida mas se sente, simultaneamente, solidário com
os outros homens, que talvez tenham dificuldade em compreendê-lo porque
houve quem se empenhasse em que não compreendessem, nem pensassem,
poque pensar é realmente um perigo, o maior dos perigos Pensar, pensar
como um homem que nasceu livre e quer morrer livre, leva depois
inevitavelmente a actuar, a lutar contra qualquer forma de opressão.
Mas só agorareparo
que digo melhor tudo isto nalgum destes poemas. Estou afinal a
comentar-me, a plagiar-me a mim próprio e só isso eu não aceito em arte.
Por isso, ponho ponto final nesta nota, onde espero ter sido mais claro
do que na minha poesia em geral.
É
que não acredito realmente na clareza como um propósito da arte, quanto
mais não fosse porque eu, quando construo um poema, não procedo de
maneira a obter resultados que seriam decerto mais fáceis de conseguir
através de uma carta, de uma conversa telefónica, de um artigo, de um
discurso. É evidente que espero, ao fim e ao cabo, vir a ser claro. Mas
isso não é, num poema, problema meu. Em contrapartida, espero tê-lo sido
nesta nota, redigida um pouco à maneira de quem conversa em família.
Madrid, 1 de Maio de 1973.
Notas:
O poeta é intemporal, como o demonstra o texto acima... No fundamental, podia ter sido escrito hoje.
Fonte e fotografia: Mais Ribatejo, 12 Agosto, 2024.
A mortandade agora verificada no rio Almonda é inerente ao modelo económico-financeiro, produtivo, social e cultural, ancorado na ideologia hegemónica que é imposta, pela classe social detentora do poder, "senhores do mundo / mandadores sem lei", às comunidades humanas...
Obviamente, os seus servidores nunca sabem a causa, a origem do crime (ecocídio), nem identificam o criminoso, e, quando é impossível "fingir" que não sabem a identidade do criminoso, não acontece nada, ou, são-lhe aplicadas umas coimas irrisórias e a actividade criminosa pode continuar, de preferência, com menos arrogância, isto é, sem dar tanto nas vistas...
Vejamos a situação do rio Maior/vala real/canal de Azambuja - é um rio com várias designações -: começou a ser poluído/destruído, de forma visível na década de 50 do século XX, numa extensão considerável, com inicio na então Vila de Rio Maior. Em 1965, com a entrada em funcionamento da fábrica de tomate, situada em S. João da Ribeira, foi uma mortandade absoluta (peixes, enguias, galinhas de água, etc.) desde a referida localidade até à foz (Azambuja)...
Desde então, a situação agravou-se com a introdução de outras indústrias, a agricultura e a pecuária - ambas tóxicas e intensivas - em particular, a produção intensiva de porcos em recinto fechado, de grandes dimensões, porque as produções familiares foram levadas à falência, dado as regras a cumprirem e a fiscalização permanente e rigorosa. Estas só se aplicam aos pequenos produtores, os grandes estão isentos...
Enquanto os pequenos produtores tinham que ter fossa séptica e campos para agricultura suficientes para escoar as águas residuais ("chorume"), os grandes, basta-lhes mandar abrir uns buracos no chão e enche-los com as águas residuais produzidas por milhares de porcos (excrementos, urinas, águas de lavagem, etc.). Estes cheios, vai de descarregar para as linhas de água e terrenos próprios ou alheios, poluindo e contaminando ambos.
Poluem as massas de água superficiais e subterrâneas, assim como os solos e o ar, tornando-o irrespirável e doentio, com os gases emitidos, inclusive, o metano e, indirectamente, o dióxido de carbono, ambos gases de efeito de estufa que estão a provocar as alterações climáticas, visíveis, para todas as pessoas que se recusem a negar a realidade.
Obviamente, a cidadania activa, organizada, unida e determinada pode alterar todo este sistema podre, corrupto, hipócrita e criminoso, como a história nos demonstra e a experiência nos prova.
Quanto à iniciativa pública organizada pelo executivo camarário de Santarém, em que participaram os executivos das quatro Câmaras (Azambuja, Santarém, Cartaxo e Rio Maior) e suinicultores, assim como o grupo de trabalho constituído pelas entidades referidas acima, resultaram da pressão feita pelas pessoas e as organizações ecologistas, cívicas e ambientais (Eco-Cartaxo, Movimento Ecologista - Vale de Santarém, Movimento Cívico Ar Puro - Rio Maior, No Coração da Cidade - Santarém, proTEJO - Movimento pelo TEJO) que se juntaram e, em conjunto, organizaram acções e iniciativas várias em que participaram centenas de pessoas.
Este trabalho conjunto e coordenado conseguiu ganhar pessoas, mudar, apenas, a retórica das entidades oficiais, por exemplo, até então, o discurso do executivo camarário de Rio Maior era: "os maus cheiros é sinónimo de riqueza e desenvolvimento do concelho"; passou para: "vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para resolver a situação e implementar a sustentabilidade, a economia verde, blá,blá... Mas, no essencial, a situação continua a agravar-se.
Por isso, é urgente e imperioso retomar o trabalho conjunto, coordenar e delinear estratégias, aprender com os erros cometidos, ganhar pessoas, para tomarem em mãos o resgatar do presente e construir futuro. Se ficarmos à espera que os criminosos e seus serviçais invertam a situação, vamos ser cúmplices da catástrofe que o capital está a impor a toda a humanidade.
Fonte: SINTAB (Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Indústrias de Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal)
Começamos por realçar a resistência das pessoas, trabalhadoras e trabalhadores, que trabalham nesta corporação multinacional que, apesar das dificuldades inerentes aos miseráveis salários que recebem, persistem na luta por melhores salários, condições de trabalho, de higiene, segurança no trabalho e o fim da precariedade laboral.
Treze meses a perderem um dia de trabalho por mês e respectivos subsídios, persistem em enfrentar a prepotência e arrogância de uma corporação multinacional que adquiriu a empresa, com o objectivo de obter o máximo de lucro no mais curto espaço de tempo, explorando ao máximo a classe trabalhadora que garante e sustenta a ganância insaciável dos seus accionistas.
Esta corporação multinacional, como todas as outras, multinacionais ou não, por mais que explorem, oprimam e pilhem a riqueza produzida pelas pessoas da classe social trabalhadora, tem todo o apoio das autoridades oficiais locais, regionais e nacionais, ("Município distinguiu exemplos de sucesso em Gala Empresarial (...) Vencedores (...) Empresa Investidora: Nobre Alimentação". Boletim Municipal - junho 2024).
O prolongamento da luta, como nos demonstra a história da classe trabalhadora, corre o risco de quebrar pelo lado, fase à correlação de forças, mais fraco, isto é: perante as dificuldades inerentes ao rombo, todos os meses, nos miseráveis salários que recebem, pode levar pessoas a desistir, reduzindo, assim, as que resistem e persistem em continuar.
É imperioso reforçar a união, organização e determinação de todas as pessoas que trabalham na empresa, porque todas estão a ser exploradas, oprimidas e humilhadas por esta corporação multinacional. Para isso, é imperioso que as trabalhadoras e trabalhadores, assim como as suas organizações de classe, avancem no sentido de enfrentar a empresa de forma integrada, isto é, organizando-se e coordenando as suas lutas como um todo, e não como se fossem empresas distintas.
Se nos permitem, perante uma corporação multinacional, para a enfrentar, com forte probabilidade de vencer, as pessoas que nela trabalham devem organizar-se, unir-se e encetar as lutas de forma coordenada, solidária e fraternal, envolvendo as trabalhadoras e trabalhadores de todo o grupo, e não por país.
Por último, consideramos que é fundamental que as trabalhadoras e trabalhadores, que estão a ser exploradas, oprimidas e humilhadas por esta corporação multinacional, recebam a solidariedade fraternal e o apoio de todas as pessoas, que trabalham e vivem em Rio Maior, comprometidas com a justiça social. Por exemplo, participando na marcha prevista para dia 11 de Setembro, da porta da empresa até à Câmara Municipal, ou, fazendo-lhes chegar mensagens de solidariedade e apoio à sua justa luta.
A luta é de toda a classe social trabalhadora e de todas as pessoas comprometidas com o fim da opressão, exploração, injustiça social, climática e a construção de uma comunidade humana solidaria, fraterna e em harmonia com a natureza. Um mundo onde a justiça seja Lei.
Cerca
de meia centena de trabalhadores da empresa Nobre, em Rio Maior,
concentrou-se hoje em frente à empresa, cumprindo a 13.ª greve por falta
de resposta ao caderno reivindicativo.
A
greve, a 13.ª convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e
das Indústrias de Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal (SINTAB),
acontece depois de mais uma reunião com a empresa que “negou todos os
pontos do caderno [reivindicativo], não cedeu em nada e implementou em
junho um aumento de cinco euros, pareceu bastante mal aos
trabalhadores”, disse à agência Lusa o dirigente sindical Diogo Lopes,
sustando não ser esse valor “que resolve os problemas que as pessoas têm
hoje em dia”.
O caderno reivindicativo
apresentado à empresa no início do ano exigia um aumento salarial de 150
euros, a valorização do subsídio de refeição e do trabalho noturno, a
implementação de diuturnidades, direito a 25 dias de férias e o fim do
recurso à contratação precária, entre outras reivindicações.
“Falamos
de uma empresa em que os trabalhadores recebem o salário mínimo
nacional, independentemente dos anos de casa”, disse o dirigente do
Sintab, sublinhando haver “trabalhadores com 40 anos de casa que recebem
o salário mínimo nacional e com o aumento do custo de vida, hoje em
dia, é bastante difícil”.
De acordo com o
sindicalista “a empresa nos últimos três anos teve um lucro de nove
milhões de euros, portanto, tem todas as possibilidades de aumentar o
salário a estes trabalhadores”, que reivindicam que o salário ascenda a
950 euros.
“Enquanto a empresa não vir que
realmente é necessário implementar com urgência este aumento salarial os
trabalhadores vão continuar em luta, garantiu Diogo Lopes, adiantando
que já está agenda uma nova paralisação para o dia 11 de setembro, dessa
vez integrando a realização de uma marcha lenta pelas ruas da cidade.
“A
nossa luta tem que continuar”, afirmou Inês Santos, admitido que os
trabalhadores façam “uma greve por mês até vencer pelo cansaço a empresa
que recentemente “ainda retirou direitos”. Segundo a trabalhadora, a
empresa retirou a majoração que dava a possibilidade de os trabalhadores
sem faltas poderem gozar 25 dias de férias, estipulando que todos os
trabalhadores passarão a gozar 22 dias úteis e o dia de aniversário.
Numa
moção aprovada hoje os trabalhadores exigem a reposição dos 25 dias de
férias e o aumento do subsídio de alimentação para oito euros diários,
ao invés dos 5,30 praticados atualmente, depois de este subsídio “nos
últimos 10 anos ter aumentado apenas 14 cêntimos”, disse Diogo Lopes.
Segundo o sindicato, a paralisação de hoje conta com a adesão de cerca de 80% dos mais de 600 trabalhadores da empresa.
Contactada
pela agência Lusa, a Nobre Alimentação Lda não respondeu às questões
sobre as negociações nem sobre o número de trabalhadores que aderiram à
greve.
“[Estamos] sempre atentos às
necessidades dos nossos colaboradores e da empresa”, afirmou a Nobre,
numa resposta enviada por email, acrescentando que a administração
“realiza reuniões frequentes com os sindicatos para discuti-las, de
forma positiva e transparente”.
Na resposta
a empresa reitera ainda o “compromisso de disponibilidade para dar
continuidade às reuniões regulares” e, em conjunto com os trabalhadores,
olhar “para o caminho a seguir”.
Os
trabalhadores têm agendada uma nova greve para o dia 11 de setembro,
data em que preveem concentrar-se em frente à câmara municipal.
Um
desastre iminente pesa sobre o mundo vivo, por causa da corrupção das
autoridades sanitárias que deveriam proteger o meio ambiente e a saúde
dos cidadãos...
E precisamosseu apoiohoje
para se levantar e impedir que nossos líderes distorçam a Lei e a
Ciência para satisfazer os interesses das multinacionais agroquímicas!
Há poucos dias, a Autoridade Europeia para a Segurança da Saúde (EFSA) publicou umopinião rápida e tendenciosa para encorajar a comercialização de novos organismos geneticamente modificados na Europa (1) que a indústria agroquímica e agrogenética está a exigir .
Os riscos para o futuro do nosso sistema alimentar e para o funcionamento dos ecossistemas dos quais dependemos são cruciais:
A luz verde da EFSA augura uma vitória total para os agroquímicos
nos próximos meses, que obteriam condições de autorização para as suas
novas tecnologias OGM que são extremamente frouxas e perigosas para a
biodiversidade:
>> Nenhuma avaliação
dos efeitos que os novos OGM podem ter nas abelhas, borboletas,
minhocas, aves ou seres humanos, para saber se estes produtos são ou não
perigosos;
>> Não há rastreabilidade de produtos geneticamente modificados, desde o campo até nossos pratos;
>> Nenhuma rotulagem de alimentos produzidos a partir desses novos OGM, que, no entanto, encontraríamos em massa nas prateleiras de TODAS as lojas !
E
isto, apesar de estudos científicos que descrevem os potenciais efeitos
negativos que poderiam ser causados pela difusão massiva de genes
modificados descontrolados e incontroláveis na natureza e no nosso
ambiente...
…apesar
da opinião de muitos investigadores científicos de renome (2) e da
opinião de autoridades de segurança sanitária como a ANSES (3), em
França, que denunciaram repetidamente a falta de fundamentação
científica do projecto europeu e os riscos que resultariam da distribuição gratuita de novos OGM sem primeiro estudar os seus efeitos .
É, portanto, de facto, uma corrupção abjecta das instituições europeias que devemos combater hoje.
É por isso que apelamos urgentemente a todas as pessoas empenhadas como vós nesta corrida frenética para salvar os seres vivos e o mundo que deixaremos às gerações futuras .
Graças
ao apoio financeiro que poderá obter hoje, a POLLINIS criará uma
resposta cidadã para contrariar a ofensiva política dos lobbies e evitar
que a agro-indústria assuma definitivamente o nosso sistema agrícola e
alimentar – e juntos a vida!
Perante a EFSA e a Comissão Europeia que se preparam para entregar o nosso sistema agrícola e alimentar às multinacionais agroindustriais, os únicos grandes vencedores desta desregulamentação...
… mesmo que isso signifique espezinhar sem escrúpulos
as opiniões de várias autoridades científicas nacionais, incluindo a
ANSES, a agência francesa de saúde e segurança ambiental, que gritaram
alto e bom som o seu contundente desacordo ao insistirem na existência
real de riscos potenciais para o ambiente ( 4)...
…e mesmo que isso signifique negar as provas científicas que lhe são fornecidas por todos os lados pelos seus Estados-Membros…
…lutaremos com todas as nossas forças, em seu nome, para:
>> Restaurar os factos e tornar publicamente visível e audível a voz científica dos especialistas e agências independentes que foram suficientemente corajosos para tomar uma posição pública contra o projecto irresponsável da Comissão Europeia;
>> Combater as mentiras de instituições e lobbies, ponto por ponto e sempre que necessário;
>> Testar-nos,
se necessário, os efeitos dos novos OGM nas abelhas e nos
polinizadores, para forçar a implementação de uma avaliação científica
robusta e sincera de qualquer novo produto candidato à comercialização;
>> Pesar todo o nosso peso
na balança, contra os interesses das multinacionais irresponsáveis e
criminosas, usando o Direito, a Justiça e a mobilização cidadã!
Não temos escolha hoje a não ser levar este confronto à vitória.
Para entender completamente o que está acontecendo, precisamos voltar um pouco no tempo.
Durante vários anos, um punhado de empresas agroquímicas têm trabalhado nas sombras para sabotar a lei existente sobre OGM, que é a única forma de proteger os consumidores e o ambiente.
A sua poderosa ofensiva visa invadir os mercados europeus com as suas sementes potencialmente prejudiciais, desviando e distorcendo os processos de desenvolvimento da lei.
A
sua estratégia: pretexto de que as plantas geneticamente manipuladas em
laboratório através de novas técnicas genómicas são comparáveis às
plantas convencionais, para fazer acreditar que não apresentam quaisquer
riscos, e assim impor uma desregulamentação forçada em toda a União Europeia...
Mas quem pode acreditar seriamente nesta grande farsa?
As autoridades nacionais francesa (5) e alemã (6) foram muito claras: a chamada equivalência proposta pela Comissão Europeia, e aprovada pela EFSA, não tem justificação científica !
A EFSA é manipulada, usada como garantia científica
para satisfazer os interesses das multinacionais agro-industriais, e
permitir-lhes expandir ainda mais o seu vasto império e sufocar os
agricultores que dela dependerão...
E estas empresas agirão fora da vista e com impunidade porque, ao obterem luz verde das autoridades de saúde europeias, NÃO serão responsabilizadas ou condenadas quando surgirem escândalos ambientais.
A legislação europeia não prevê salvaguardas, nem controlos de segurança, nem sistema de vigilância :
Uma vez que os genes modificados sejam propagados no ambiente e na nossa alimentação, não haverá caminho de volta.
E as empresas NUNCA pagarão pelos seus actos criminosos,
uma vez que os custos ambientais, financeiros e morais associados às
suas terríveis consequências serão - como já acontece com os pesticidas
químicos - inteiramente suportados apenas pelos cidadãos .
Perante este escândalo e esta injustiça, POLLINIS subiu à frente.
E nosso trabalho duro está começando a dar frutos!
Graças ao apoio dos doadores, conseguimos:
>> trazer este escândalo à luz na imprensa , através de inúmeras entrevistas e participações em emissões do France Inter, Reporterre, Le Monde, entre outros;
>> assediar
os governantes eleitos e o governo, o gabinete do Primeiro-Ministro, o
Ministério da Agricultura, o Ministério da Economia, etc.para defender a protecção dos polinizadores e a opinião dos cidadãos ;
>> mobilizar os cidadãos para enviarem conjuntamente centenas de milhares de mensagens de inquérito a funcionários eleitos europeus e franceses.
Para exigir que os nossos representantesnos ouçam, que nos escutem, e se oponham a este projecto prejudicial, devemos continuar a lutar contra o mau uso das instituições e as mentiras da agro-indústria.
Implementaremos uma resposta estratégica incansável para:
> mobilizar TODOS os consumidores
para forçar os supermercados a obterem oposição firme e oficial do
governo francês à comercialização descontrolada de novos OGM;
> alertar e sensibilizar TODOS os governantes franceses eleitos
para que se comprometam abertamente com a protecção da agricultura
francesa e com a liberdade dos cidadãos de escolherem alimentos naturais
sem OGM;
> multiplicar, aumentar dez vezes, aumentar cem vezes os alertas para que TODOS os meios de comunicação
finalmente tratem deste tema crucial e retransmitam a voz dos cidadãos,
consumidores e agricultores que se opõem a este projecto.
Numa altura em que a extinção generalizada ameaça o equilíbrio da vida e precipita o colapso das populações de aves, anfíbios e peixes de água doce que se alimentam de insectos...
…os nossos líderes políticos não podem dar-se ao luxo de colocar os organismos vivos em qualquer risco adicional . No entanto , é isso que eles estão fazendo .
Diante desta situação insuportável e intolerável , não desistiremos:
>> Ainda é possível inverter o curso da história : as discussões estão bloqueadas a nível europeu e uma nova ronda de negociações começou em 1 de julho.
Os
próximos meses serão decisivos para consolidar o bloqueio e impedir que
os países europeus, por todos os meios ao nosso dispor, cheguem a um
acordo no Conselho da União Europeia.
Estamos determinados e firmemente decididos a pôr os lobbies de joelhos.
Para conseguir isso, POLLINIS amplificará o contra-ataque e lançará um movimento de cidadãos em grande escala
para exigir que os nossos governantes eleitos finalmente ouçam a voz
fundamentada dos cientistas, agricultores e consumidores e que enterrem este projecto de uma vez por todas .