Brevíssima nota prévia: Miguel Torga, seu nome verdadeira Adolfo Correia Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907 em S. Martinho de Anta e faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995. Em 1920 emigrou para o Brasil... Regressou a Portugal em 1925.
Unha Negra
Hoje,
Nem a vida me foge,
Nem eu fujo;
É não sei quê no sol
Que está sujo.
Visita
Fui ver o mar,
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.
Da penedia triste
Pus-me a olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.
E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.
Canção da Pura Humildade
Fio de água,
Vou por tojos e urgueiras
A cantar esta mágoa,
Sabendo que há mais água e mais maneiras.
Vou sem nenhuma inveja.
Apenas peço ao céu
Que, espelhando-se em mim, me veja,
Porque afinal sou eu.
Nocturno
Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
Estes poemas foram escritos no ano de 1940