Eppur si muove (Galileu)
Não há sistros; é o punhal cheiro de rosa;
salta da areia e vai destruir. Na chã
tudo o que bole é água e
vem depois a ser o fruto. Oh raparigas festivas
de deserto que levais a morte justa
ao corpo dos assassinos.
São soberbas e húmidas de alto musgo e greda,
rododentro, as vossas paredes, os olhos
com que a luta se faz. Tendes as armas
no sangue.
Oh festivas mulheres do deserto:
aqui não há falésias, nem paisagens abruptas
sobre o mar; os nomes castos das coisas
- a faca, a língua solar, o púbis, a sede -
dão flores como se fossem seios ou granadas.
Nos gestos mais simples voam detritos
e lenços rasgados de tanto assoar;
a morte canta com os seus peixes de areia.
Continuai a matar os bichos rampantes.
Oh festivas guerrilheiras sarauís de todos os desertos.
Um dia o oásis será a vossa casa campestre
porque o sangue misturado na areia costuma ser
branco e pedra voraz. E tereis abelhas e
outros punhais: agora a luta continua
também nos vossos rins em brasa, corpos fulvos
quase trevo. Oh indomáveis raparigas.
estais sentadas, eu sei, por uns momentos
preparando as balas, ateando o lume,
vigiando os poços da noite e as cabras de água.
Tudo o que bole vem depois a ser o fruto,
as armas no sangue, a greda.
Oh mulheres festivas à porta do deserto.
O segredo não tem manchas para vós,
nem os beijos se desfazem pelo fogo.
O corpo que mostrais é casto, asa sonhada.
Não há cheiros de rosa que vos desviem
de erguer a faca justiceira.
Ireis de cavalo até ao mar. Festivamente.
Oh garbosas raparigas sarauís que
trazeis a morte e a liberdade.
Estoril - Janeiro de 1980
Em: Fernando Grade, QUEM DIZ MACHO DIZ FÊMEA, Edições Mic, Colecção Salamandra/2, 1982, p. 15