terça-feira, 11 de março de 2025

SANDERSON & A ESCOLA DE OUNDLE - AGOSTINHO DA SILVA

 Brevíssimo trecho, da obra supracitada. Esta, apesar de ter sido foi originalmente publicada em 1941, na essência, podia ter sido escrita hoje e, se não fizermos o que têm que ser feito, amanhã vai espelhar a realidade futura...


Durante a estada em Dulwich, Sanderson dava longos passeios com um amigo e com ele discutia todos os problemas importantes da época; interessados ambos, como verdadeiros homens, por tudo quanto se passava no mundo do seu tempo, traziam a campo todas as questões em aberto e criticava, as soluções que até aí se tinham proposto; a marcha excitava-os e vivamente debatiam as suas ideias, no esforço comum de encontrarem uma explicação para tudo que no universo os levava a uma atitude de dúvida e revolta.

Depois, no silêncio do gabinete, lendo os escritores ingleses que as pessoas remotas mencionavam a medo e os estrangeiros a quem os mesmos  problemas se apresentavam, Sanderson meditava sobre as incoerências e os defeitos do mundo e sobre a maneira de lhes dar remédio; sentia que não podia ser um educador, que não encontraria a sua missão sem que se lhe fizesse clara a sua concepção do mundo e sem que o seu trabalho de mestre se encontrasse em ampla ligação com os deveres de homem; a vida na torre de marfim, que os outro preconizavam, parecia-lhe completamente absurda.

Decerto achava como eles, e servindo-se da expressão que tinham sempre nos lábios, que «o professor era um sacerdócio»; não queria, porém, ser dos sacerdotes que só cuidam de salvar a sua alma, absolutamente indiferentes ao que possa acontecer à dos outros; tinha a certeza de que a sua vida só poderia ser bela e plenamente forte no dia em que tivesse por único motivo melhorar a vida dos outros; o período presente olhava-o como uma espécie de noviciado, em que experimentava a sua alma, lutando com o anjo, e em que assentava, por um verdadeiro exercício espiritual, os fundamentos da sua acção futura.

(...)

Porque, sem dúvida, o mundo, tal como o encontrava, era insuportável;
(...)

Se passava ao mundo dos homens, via ainda sobre eles as catástrofes naturais que os dizimam; a cada momento um incêndio, um naufrágio, um terramoto o levavam a uma interrogação ansiosa dos motivos...

Na organização social as coisas não corriam melhor; a miséria não chegava ao colégio de Dulwich senão em ecos enfraquecidos, mas a rápida visita aos bairros operários e às fábricas faziam-lhe entrever a dolorosa existência do pobre; havia na terra milhões de homens que nasciam para uma vida de servidão e de desespero e que, trabalhando como escravos, não retiravam do seu sacrifício mais do que o necessário para morrerem um pouco dia a dia; as casas lôbregas, remendadas a lata velha, as ruelas estreitas e imundas e, donde a onde, na sombra dum portal, as figuras que surgiam, desalinhadas e famintas, mais vivo lhes tornavam o sentimento de que tudo estava errado, de que era preciso recomeçar a criação.

Indignava-o que, depois de vinte séculos de cristianismo, ainda as crianças, as crianças amigas de Jesus, as crianças a que se fazem poesias e se nega o pão, andassem vestidas de farrapos, minadas de tuberculose, sem possibilidade de ir à escola e já condenadas, aos cinco ou seis anos, a procurarem nos recados ou na mendicidade o meio de subsistirem; se havia um Deus indiferente a tais brutalidades, ele não merecia senão o desprezo e o insulto de todo o homem com inteligência e coração.

O contraste com as ruas ricas da cidade ainda lhe punham o problema de forma mais aguda; a abundância e o luxo eram reservados a uma minoria, enquanto outros se debatiam com a falta de tudo que é essencial para uma vida humana; o mundo estava nitidamente dividido em duas classes - a dos que têm tudo, incluindo o supérfluo, e a dos que nada têm, nem mesmo a esperança; entre os dois grupos, nenhuma comunicação possível: de um lado, a miséria gerava o abatimento e o desespero; do outro, uma vida fechada às realidades não deixava aperceber a tremenda crueldade de uma organização de tal espécie.

Em: (SANDERSON & A ESCOLA DE OUNDLE. 1990)