11 de Março de 1975, as forças políticas e militares que pretendiam repor uma ditadura, tentam um golpe militar, tendo como figura de proa; Spínola, com a participação da GNR.
O RAL1 (Regimento de Artilharia de Lisboa 1) é bombardeado e cercado por unidades de paraquedistas, sendo morto o soldado Luís. Em sua homenagem o RAL1 passou a designar-se, oficialmente, por: RALIS.
Derrotado o golpe, o general Spínola e demais oficiais, participantes activos no golpe, fogem para Espanha. Spínola e outros oficiais fogem em helicópteros das Forças Armadas.
Nesse mesmo dia, por convocação de vários partidos, realiza-se grande manifestação no centro de Lisboa. E, nessa noite, realiza-se uma Assembleia do MFA, para clarificar a situação e tomar as decisões mais adequadas, para a normalização da situação política e militar...
Passamos a transcrever um texto escrito em 1990, por Francisco Martins Rodrigues:
COMO A ESQUERDA FOI DERROTADA NO 11 DE MARÇO
A passagem do 15.º aniversário do 11 de Março deu lugar a um espectáculo que só não chocou ninguém porque já faz parte dos hábitos políticos nacionais: a gente de direita, que durante todo este tempo tinha protestado indignada que não houvera nessa data nenhuma tentativa de golpe e que fora tudo uma montagem ou um exagero dos comunistas para assaltarem o poder, veio agora confirmar, com tranquila insolência e até vangloriando-se, todos os pormenores da conspiração, o papel de Spínola, os planos de guerra civil, a intervenção dos serviços secretos estrangeiros - tudo! Tudo aquilo que a esquerda tinha proclamado em vão durante anos e anos é agora posto a nu, com a maior desfaçatez, pelos visados.
É possível que esta tardia reposição da verdade encha de orgulho melancólico Cunhal, Otelo ou Vasco Gonçalves: finalmente, a História terá que reconhecer que foram democratas fiéis ao povo e vítimas das calúnias da reacção. Só que essa desforra moral não adianta nada ao nosso destino colectivo, traçado para longos anos naquele episódio; por isso mesmo a burguesia já não se dá ao trabalho de esconder a verdade.
a História incomodar-se-á pouco no futuro se em 75 Cunhal foi mais honesto do que Spínola. O que a História perguntará (está já a perguntando) é: o que fez no 11 de Março a esquerda?
Aproveitou o passo em falso da direita, a vacilação, incompetência e cobardia de que os conspiradores deram provas, para lhes aplicar um golpe demolidor? Ou, pelo contrário, a esquerda teve medo de derrotar a direita?
A pergunta pode parecer mal intencionada. Existe até hoje a opinião generalizada de que a esquerda militar, o PCP e as franjas «esquerdistas» tiraram amplo partido do fiasco direitista do 11 de Março, avançando de maneira fulminante com as nacionalizações, as Assembleias do MFA, a Reforma Agrária, o «poder popular» - o extremismo gonçalvista. Mas esta ideia só se mantém devido à tacanhez reformista com que a luta de classes ainda hoje é vista entre nós.
Se as forças que conduziram o processo quisessem ripostar ao golpe taco-a-taco teriam metido os golpistas na prisão, desarticulado as suas organizações, desmascarado as cumplicidades de Mário Soares e Sá Carneiro, mandado retirar o embaixador Carlucci, armado as comissões de trabalhadores - numa palavra, teriam aprofundado a revolução em actos e não apenas em decretos ou discursos.
Seria um desafio arriscado, pois que dúvida? Mas todo o jogo que se estava jogando desde a queda do fascismo era arriscado e só tinha hipótese de vitória se avançasse audaciosamente de etapa em etapa. E, a seguir ao 11 de Março, havia condições para um salto em frente com o apoio dos trabalhadores.
Ora, não foi nada disso que se fez. Tomaram-se contra os conspiradores apenas as medidas estritamente obrigatórias para aquietar o povo. E manteve-se, com lisura cavalheiresca, o calendário eleitoral que fora acordado, quando todos os indícios mostravam que a esquerda correria um risco mortal em submeter-se a eleições quando o controlo do poder não estava definido e a direita, longamente enraizada em emo século de fascismo, se entrincheirava nos novos partidos «democráticos» para voltar ao contra-ataque.
Só por debilidade mental (ou não seria por manhoso cálculo capitulacionista?) podiam os chefes oficiais da esquerda considerar-se obrigados a «cumprir a palavra» e submeter-se ao escrutínio popular, apenas mês e meio após a tentativa golpista. Uma esquerda digna desse nome, disposta a conduzir os trabalhadores a uma vitória real, teria assumido o adiamento das eleições como o seu direito indiscutível até ter levado a cabo as transformações económicas e sociais urgentes para decidir a batalha.
Mas os nossos mentecaptos líderes «revolucionários» acharam mais nobre jogar os destinos do movimento popular nessa eleição. Se esperavam que o povo reconhecido votasse massivamente no PCP, no MDP ou no MES, tiveram um desgosto. A grande maioria inclinou-se para os partidos «moderados» e mesmo para os «defensores da ordem», ou seja, os pontas de lança legais da contra-revolução. Mas que outra coisa seria de esperar quando a pequena burguesia vivia no receio pela segurança da propriedade e quando a frouxidão da esquerda não permitia a formação dum pólo revolucionário decidido?
Com a previsível vitória eleitoral do PS e do PSD em 25 de Abril de 75 agravou-se em vez de se clarificar o quadro da luta de classes. A situação entrou em derrapagem à direita, oculta durante alguns meses pelas leis radicais, pelas manifestações para meter medo e pelos discursos inflamados, mas só para cobrir uma impotência irremediável. De facto, a direita jogava com a força moral que resultava da vitória eleitoral e exigia o direito a formar governo. A posição dos «esquerdistas» tornou-se insustentável: com que autoridade se mantinham como detentores do poder, se tinham feito as eleições e reconhecido os seus resultados? E é claro que um número crescente de oficiais do MFA achava esta lógica irrespondível.
Assim, depois de Vasco Gonçalves ter esgrimido com as suas leis «revolucionárias», destinadas, na sua débil cabeça, a funcionar como uma «muralha de aço» contra a reacção, teve que se retirar, apeado vergonhosamente pela intimidação dos seus camaradas oficiais no pronunciamento de Tancos, e abandonado por Cunhal, esse estratego das batalhas adiadas. O que veio depois até ao 25 de Novembro não foi mais do que o epílogo desta triste comédia «revolucionária».
Em: (Política Operária, Março/Abril 1990)