O truque
Quarenta cartas deslocaram a vida.
Pintando talismãs de cartão
fazem-nos esquecer os nossos destinos
e uma criação risonha
vai povoando o tempo roubado
com as floridas brincadeiras
de uma mitologia doméstica.
Nos limites da mesa
se detém a vida dos outros.
Dentro dela há um estranho país:
as aventuras do invejo e do quero,
a autoridade do ás de espadas,
como Don Juan Manuel, omnipotente,
e a manilha de ouros tilintando esperança.
Uma lentidão indolente
vai demorando as palavras
e como as alternativas do jogo
se repetem e repetem,
os jogadores desta noite
copiam antigas vazas:
facto que ressuscita um pouco, muito pouco,
as gerações de antepassados
que legaram ao tempo de Buenos Aires
os mesmos versos e as mesmas diabruras.
Um pátio
Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive
por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna.
Jorge Luís Borges, Obras completas I, 1923 - 1949, Círculo de Leitores, 1998, pp. 20, 21.