quarta-feira, 19 de novembro de 2025

perguntas - poesia de Afonso Dias



no dia mundial da criança

    deixemos suspirar as nuvens
    qual criança?
    quais crianças?
de que cor? 
de que brilhantes?
de que bairro?
de que choça?
de que palha?
de que berço?
     deixemos suar os olhos
     qual criança?
     quais crianças?
da rocinha?
da buraca?
do restelo?
do restolho?
de israel?
da palestina
pequenina?
     deixemos o pensamento
     atrapalhado
     qual criança?
     quais crianças?
da horta da areia?
da quinta do lago?
do desmaio da fome?
do fato vincado?
da festa de serralves?
do algodão doce?
da desilusão?
sem cor ou doçura?
de catar o lixo
com as ratazanas?
do brinquedo caro
no comércio rico?

se é de áfrica é preta!
(nenúfar no mediterrâneo)
se é cigana é nula!
se é loura é bonita!

e dormes sereno?
e dormes serena?

1.6.2018

Em: Afonso Dias, Poesia - largo do mercado, edição bons ofícios associação cultural, 2018, pp. 155/6

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Algumas teses preliminares sobre o conceito de ecocivilização

 

 

John Bellamy Foster (*)

  

 

Na Revolução Industrial do século XIX, em Inglaterra, Newcastle estava no centro da indústria do carvão. A expressão idiomática “levar carvão para Newcastle” surgiu então para indicar levar algo inutilmente para um local onde já estava presente em abundância. Para um pensador ocidental falar para um público na China sobre civilização ecológica (ou ecocivilização) é como levar carvão para Newcastle, uma vez que é na China onde o conceito está mais desenvolvido. No entanto, defenderei que a noção de ecocivilização está intrinsecamente relacionada com o marxismo. Esta palestra terá, portanto, como objetivo examinar o conceito de ecocivilização numa ampla perspetiva ecológica marxista. Neste sentido, tenho dez teses preliminares sobre a ecocivilização.

 

(1) O conceito de civilização ecológica tem origens marxistas e é inerentemente socialista. Surgiu pela primeira vez como uma perspetiva sistemática no final dos anos 1970 e nos anos 1980, na União Soviética, inspirada por considerações do pensamento ecológico de Karl Marx, e foi imediatamente adotada por pensadores chineses. Praticamente não tem presença até hoje no Ocidente, pois está radicalmente afastado da noção de civilização capitalista, bem como das visões eurocêntricas da modernidade (1).

 

(2) A perspetiva filosófica fundamental da ecocivilização tem raízes profundas nas primeiras noções civilizacionais da modernidade, ou da relação humana ativa com o mundo orgânico-material, tal como descritas pelos pensadores marxistas Joseph Needham e Samir Amin nas suas críticas ao eurocentrismo. Esta perspetiva filosófica orgânico-materialista surgiu no que é conhecido como a Era Axial, particularmente na civilização helenística e no Período dos Estados Combatentes na China, do quinto ao terceiro séculos a.C.. O próprio Marx adotou desde o início uma visão orgânico-materialista, desenvolvendo uma noção dos humanos como seres da natureza automediadores, o que rompeu com o mecanismo ocidental e as conceções eurocêntricas da modernidade, por intermédio do seu encontro com a filosofia materialista epicurista (2). No entanto, muito disto foi soterrado no marxismo posterior e foi completamente extinto na tradição filosófica marxista ocidental. Na China, a continuidade da civilização através do taoísmo (que foi paralelo ao epicurismo), do confucionismo e do neoconfucionismo, significou a perpetuação destas primeiras visões orgânico-materialistas, tornando a China mais recetiva à ecologia e às perspetivas ecológicas de Marx em particular (3).

 

(3) Embora tenha raízes filosóficas antigas, a civilização ecológica, enquanto perspetiva histórica transformadora, é um produto da sociedade pós-revolucionária e do desenvolvimento do socialismo. Reflete a noção dos seres humanos como seres automediadores da natureza, que era parte integrante de toda a visão de Marx sobre o desenvolvimento humano sustentável, incorporada na sua teoria da fratura metabólica. Esta abordagem rejeita qualquer noção de que a ecocivilização seja um produto direto do pré-modernismo ou do pós-modernismo, ou que possa ser explicada, como propuseram alguns teóricos ecológicos chineses, pela sequência da civilização tradicional para a civilização agrícola, para a civilização industrial e para a civilização ecológica (4).

 

(4) O conceito de civilização ecológica socialista na China concretizou estas ideias da forma mais completa. A civilização ecológica socialista deve ser considerada um desenvolvimento dentro do socialismo. É importante realçar que não pode existir qualquer conceito de “civilização ecológica capitalista”, pois o capitalismo é inerentemente estranho e destrutivo à natureza/ecologia. Falar, então, de civilização ecológica socialista é falar simplesmente de socialismo completo, como a afirmação plena do desenvolvimento humano sustentável, incorporando tanto a igualdade substantiva como a sustentabilidade ecológica. Significa a reconciliação da humanidade com a natureza.

 

(5) A civilização ecológica aponta para aquilo que os marxistas chineses apresentaram como a necessidade de “modernização da existência harmoniosa entre a humanidade e a natureza”. Isto é sustentado pelos princípios básicos do socialismo. Por conseguinte, é antitético à chamada modernização ecológica como filosofia de mecanismo e como projeto puramente tecnocrático no Ocidente (5). Ao mesmo tempo, adota algumas das mesmas tecnologias necessárias para uma transformação ecológica, mas utilizadas de acordo com princípios socialistas, exigindo relações sociais diferentes. O que é crucial aqui é a conceção fundamentalmente diferente da modernização dentro do marxismo chinês e do pensamento ecológico (6).

 

(6) O conceito de “comunidade da vida” desenvolvido pela teoria ecológica socialista na China é essencial para definir a civilização ecológica. Esta tem três componentes: (1) comunidade de vida com ecossistemas; (2) “a comunidade da vida da humanidade e da natureza”; e (3) uma síntese dialética, constituindo “a comunidade de toda a vida na Terra” e um “futuro partilhado” (7). Como escreveu o grande conservacionista norte-americano do início do século XX, Aldo Leopold “Abusamos da Terra porque a consideramos uma mercadoria que nos pertence. Quando vemos a Terra como uma comunidade à qual pertencemos, podemos usá-la com amor e respeito”. Leopold propôs uma ética da Terra que alargou “os limites da comunidade… para incluir os solos, as águas, as plantas, os animais ou coletivamente: a Terra” (8). Marx defendia que ninguém é dono da Terra, nem mesmo todos os países e todas as pessoas do planeta são donos da Terra, mas meramente “seus possuidores, seus beneficiários, que têm de a legar num estado melhorado às gerações seguintes como boni patres familias [bons chefes de família]” (9).

 

(7) A noção de sustentabilidade ecológica incorporada no conceito de comunidade da vida é exemplificada no “Pensamento de Xi Jinping sobre a Civilização Ecológica”. Xi afirmou que se tivermos de escolher entre “montanhas douradas” e “montanhas verdes”, precisamos de escolher montanhas verdes, reconhecendo que “águas límpidas e montanhas verdejantes são ativos inestimáveis”. Adotando uma abordagem materialista marxista da ecologia, Xi defendeu que a ecologia é “a forma mais inclusiva de bem-estar público”. Fazendo eco de Friedrich Engels sobre a “vingança” da natureza, Xi indicou que “qualquer dano que infligirmos à natureza acabará por voltar para nos assombrar”. A questão da natureza, além disso, insiste ele, vai para além da mera sustentabilidade material, abraçando também a estética, como no seu conceito de “Bela China” (10). Desta forma, a noção de civilização ecológica, como comunidade da vida, é ampliada e recebe um significado social mais amplo para o trabalhador coletivo, por meio da renovação da linha de massas.

 

(8) Marx defendia que o roubo da natureza pelo capitalismo, resultando na rutura metabólica, significava o enfraquecimento da base natural ou ecológica eterna da civilização. Isto significa que a relação metabólica precisava de ser restaurada, o que só é possível no socialismo (11). Com o mundo mergulhado numa crise ecológica planetária, tal restauração é a primeira prioridade (para lá da ameaça nuclear) na determinação do futuro da humanidade. Nos países ricos, caraterizados pelo excesso, isto levanta a questão do decrescimento. Para a humanidade como um todo, isto levanta a questão do desenvolvimento humano sustentável e, em última análise, da civilização ecológica sob o socialismo completo.

 

(9) O conceito de decrescimento estava ausente do socialismo do século XIX, embora Marx tivesse uma visão do desenvolvimento humano sustentável. O decrescimento como processo de desacumulação atinge todo o seu significado numa perspetiva marxista, a partir do sistema irracional do capitalismo monopolista/imperialismo e das suas crises de sobreacumulação. Qualquer movimento decisivo em direção à ecologia nos principais países capitalistas no centro do sistema mundial requer, portanto, um afastamento das estruturas do capitalismo monopolista/imperialismo (12). Os países capitalistas dominantes, que são também os principais países capitalistas monopolistas e imperialistas, são caracterizados ecologicamente pelo excesso ambiental, tendo pegadas ecológicas para além — por vezes até três ou quatro vezes para além — do que a Terra pode suportar se generalizadas para a humanidade como um todo. Estas enormes pegadas ecológicas refletem o imperialismo económico e ecológico. Portanto, do ponto de vista da humanidade global, estas nações devem reduzir drástica e desproporcionalmente a sua utilização de energia per capita, a utilização de recursos e as emissões de carbono, juntamente com a sua expropriação líquida de riqueza do resto do mundo. Uma vez que o capitalismo monopolista promove um vasto desperdício económico como meio de acumulação/financeirização, gerando pobreza artificial, e exibe níveis astronómicos de desigualdade, com um punhado de indivíduos a deter mais riqueza do que metade da população, uma estratégia de decrescimento planeada é consistente com condições económicas e sociais dramaticamente melhoradas para a maioria da classe trabalhadora (13).

 

(10) Em todos os países do mundo, a crise ecológica planetária exige uma revolução ecológica, abrangendo tanto as forças produtivas como as relações sociais. Em todos os casos, isto significa o desenvolvimento do proletariado ambiental em conflito com o capitalismo monopolista generalizado e o imperialismo. Na China e em alguns outros países pós-revolucionários, tal pode ser efetuado por uma linha de massas ecorevolucionária e pela construção de uma sociedade sustentável enraizada em estruturas comunitárias e coletivas já existentes. Para a maioria dos países do Sul global, o desenvolvimento humano sustentável requer uma desvinculação do sistema imperial de valor e uma ação revolucionária por parte de um proletariado ambientalista que vise a sobrevivência humana e a criação planeada de uma sociedade de desenvolvimento humano sustentável. No próprio Norte global, a revolução ecológica exige a destruição do imperialismo e a reunificação da humanidade no seu todo numa base igualitária num processo de solidariedade mundial. As pegadas ecológicas precisam de ser equalizadas em todo o mundo. O trabalho nos países ricos não pode ser ecológico quando nos países pobres (e no planeta como um todo) as bases da existência ecológica estão minadas.

 

 

 

 

 

 

(*) John Bellamy Foster (n. 1953) é professor de Sociologia na Universidade de Oregon (E.U.A.) e o atual diretor da indispensável revista marxista norte-americana Monthly Review. Discípulo de Paul Sweezy e continuador da escola de pensamento crítico por este fundada (com Paul Baran e Harry Magdoff), tem publicado numerosos livros sobre a crise ecológica e sua interseção com a economia política do capitalismo, bem como sobre história do pensamento, desenvolvimentos científicos, atualidade política e muitos outros temas. Merecem destaque: The Vulnerable Planet: A Short Economic History of the Environment (1994); Marx’s Ecology: Materialism and Nature (2000); Ecology Against Capitalism (2002); Naked Imperialism: The U.S. Pursuit of Global Dominance (2006); The Great Financial Crisis: Causes and Consequences, com Fred Magdoff (2009); The Ecological Revolution: Making Peace with the Planet (2009); The Ecological Rift: Capitalism's War on the Earth, com Brett Clark e Richard York (2010); What Every Environmentalist Needs To Know about Capitalism: A Citizen's Guide to Capitalism and the Environment, com Fred Magdoff (2011); The Endless Crisis, com R. W. McChesney (2012); The Theory of Monopoly Capitalism (2014); Marx and the Earth, com Paul Burkett (2016); Trump in the White House: Tragedy and Farce (2017); The Robbery of Nature: Capitalism and the Ecological Rift (2020), com Brett Clark; The Return of Nature: Socialism and Ecology (2020); Capitalism in the Anthropocene: Ecological Ruin or Ecological Revolution, com Hannah Holleman (2022) e The Dialectics of Ecology: Socialism and Nature (2024). O presente artigo foi publicado originalmente no N.º 6 do Volume 76 (novembro de 2024) da revista Monthly Review. O presente texto resulta de uma palestra proferida (via rede) no Simpósio Internacional sobre “O Progresso Ecocivilizacional da China num Mundo em Mudança”, Universidade de Pequim, 20 de outubro de 2024, tendo sido publicado no Volume 76, N.º 8 (janeiro de 2025) da revista Monthly Review. Todos os direitos reservados. A tradução é da responsabilidade de Ângelo Novo.

 

 

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NOTAS:

 

(1) Leia-se a discussão desta história em John Bellamy Foster, The Dialectics of Ecology (New York: Monthly Review Press, 2023), pp. 161–66.

 

(2) Karl Marx, Early Writings (London: Penguin, 1974), p. 356; István Mészáros, Marx’s Theory of Alienation (London: Merlin Press, 1975), pp. 162–65; John Bellamy Foster, Breaking the Bonds of Fate: Epicurus and Marx (New York: Monthly Review Press, a publicar, 2025).

 

(3) Joseph Needham, Within the Four Seas: The Dialogue of East and West (Toronto: University of Toronto Press, 1969), pp. 27, 66–68, 93–97, 212; Samir Amin, Eurocentrism (New York: Monthly Review Press, 2009), pp. 13, 22, 108–11, 212–13; Foster, The Dialectics of Ecology, pp. 171–74.

 

(4) Leia-se Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China: From Marxist Ecology to Socialist Eco-Civilization Theory”, Monthly Review vol. 76, n.º 5 (October 2024): pp. 32–46 (um tradução em língua portuguesa deste artigo está publicado neste mesmo número de O Comuneiro); Zhihe Wang, Huili He e Meijun Fan, “The Ecological Civilization Debate in China: The Role of Ecological Marxism and Constructive Postmodernism—Beyond the Predicament of Legislation”, Monthly Review vol. 66, n.º 6 (November 2014): pp. 37–59.

 

(5) Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China,” 41–42; John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), pp. 41–43, 253–58.

 

(6) Chen Xueming, The Ecological Crisis and the Logic of Capital (Boston: Brill, 2017), pp. 467–72, 566–70.

 

(7) Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China”, pp. 41–43; Foster, The Dialectics of Ecology, p. 13.

 

(8) Aldo Leopold, The Sand County Almanac (New York: Oxford University Press, 1949), p. viii; John Bellamy Foster, Ecology Against Capitalism (New York: Monthly Review Press, 2002), pp. 86–87.

 

(9) Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), p. 911.

 

(10) Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China”, pp. 42–43; Xi Jinping, The Governance of China (Beijing: Foreign Languages Press, 2020), pp. 3, 6, 20, 25, 54, 417–24.

 

(11) Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), pp. 637–78; John Bellamy Foster e Brett Clark, The Robbery of Nature (New York: Monthly Review Press, 2000), pp. 12–13.

 

(12) Paul Burkett, “Marx’s Vision of Sustainable Human Development”, Monthly Review vol. 57, n.º 5 (October 2005): pp. 34–62; Brian M. Napoletano, “Was Karl Marx a Degrowth Communist?”, Monthly Review vol. 76, n.º 2 (June 2024): pp. 9–36.

 

(13) John Bellamy Foster, “Planned Degrowth: Ecosocialism and Sustainable Human Development”, Monthly Review vol. 75, n.º 3 (July–August 2023): pp. 1–29.

 


Em: Revista "O Comuneiro" N.º 41 - Setembro de 2025:


www.ocomuneiro.com


domingo, 9 de novembro de 2025

A AMAZÓNIA É FONTE DE VIDA!

 



A Amazónia é fonte de vida para todos nós, armazena milhares de milhões de toneladas de carbono, regula as chuvas em todos os continentes e alberga uma em cada dez espécies na Terra. A ciência vem agora confirmar o que a história já havia demonstrado: as comunidades Indígenas são as melhores guardiãs da floresta. Onde os seus direitos aos territórios são legalmente reconhecidos, a desflorestação reduz drasticamente e a floresta prospera.

Com a proximidade da principal cimeira mundial sobre o clima que ocorrerá no Brasil e com as eleições já no próximo ano, o Presidente Lula está sob crescente pressão para mostrar liderança no tema da Amazónia. Esta é a nossa oportunidade para ajudar a garantir os direitos territoriais que podem proteger a floresta e os seus povos durante gerações. 


🌱🌳🌿
Porque reconhecer os direitos territoriais dos Povos Indígenas é a melhor forma de proteger a Amazónia
  • Florestas vibrantes: Os Povos Indígenas cuidam das florestas mais saudáveis da Terra. A regularização fundiária e os direitos legais permitem-lhes usar o seu conhecimento ancestral para conservar ecossistemas vivos onde outros grupos falharam.
  • Percentagens mais baixas de desflorestação: As terras geridas pelos Povos Indígenas têm menos 83% de desflorestação, e as florestas sob sua guarda têm uma regeneração 20% mais rápida do que as áreas circundantes.
  • Previne a mineração e extração: Onde os direitos territoriais dos Povos Indígenas são reconhecidos, estes conseguem parar a mineração e outros projetos de extração nocivos para o clima, mantendo os rios limpos, as florestas vivas, as comunidades, a vida selvagem e o nosso clima a salvo.
  • Justiça que funciona: O reconhecimento dos direitos territoriais dos Povos Indígenas é frequentemente mais rápido, mais justo e bastante mais eficaz do que as políticas de conservação centralizadas. Unidos, podemos ajudar a proteger as culturas Indígenas e a Amazónia por muitas gerações.
Partilhamos esta mensagem da AVAAZ: https://secure.avaaz.org 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

AO MIGUEL, NO SEU 4.º ANIVERSÁRIO, E CONTRA O NUCLEAR, NATURALMENTE - EUGÉNIO DE ANDRADE


Vais crescendo, meu filho, com a difícil
luz do mundo. Não foi um paraíso,
que não é medida humana, o que para ti
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo o homem, todo,
tem direito de sê-lo inteiramente
até ao fim. Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando~
o medo, a ambição, a estupidez,
se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil
besta fardada é tudo o que nos resta,
ou aos chacais, que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes paria.
Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que cegueira e cobardia?

11-3-84

Em: Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa [1940-1986], 3.ª edição aumentada, II volume, Círculo de Leitores, 1987, pp. 47, 48. 

A resistente Alda Nogueira, professora n’A Voz do Operário


Resistência

Alda Nogueira foi uma das mulheres que mais se destacaram na resistência à ditadura de Salazar. Por isso esteve presa, durante 9 anos da sua vida, no Forte de Caxias.

Pouco tempo depois do 25 de Abril, Alda Nogueira contou que tinha sido professora d’A Voz do Operário.

Aconteceu no período a seguir a terminar o curso, na Faculdade de Ciências, em 1946. E antes de passar à clandestinidade, em 1949.

Disse ela: “Logo a seguir à minha formatura ainda exerci a minha profissão como professora legal na Escola Industrial Alfredo da Silva, no Barreiro, na Voz do Operário, [em Lisboa, e noutra escola], em Olhão” [Melo (1975), p.178].

Palavras diferentes

Mais recentemente, tem sido divulgada uma ‘informação’ da PIDE, de que Alda Nogueira deu aulas num suposto “Externato Comercial da Voz do Operário”.

Na história da resistência em Portugal, esta é precisamente uma das mais abundantes fontes de equívocos: a propensão a reproduzir-se, de forma acrítica, as ‘informações’ da polícia política. Sem o elementar cruzamento com outras fontes. E repetindo a sua terminologia, os seus conceitos.

Como se a PIDE fosse um modelo historiográfico de rigor científico e de respeito pela verdade…

Para além dos problemas levantados pela sua função repressiva, por exemplo na manipulação de interrogatórios e respectivas transcrições, importa ter presente a sua função ideológica, difusora de determinados “valores”. Essa função que Althusser assinalava estar presente em todos os “aparelhos de Estado”.

O que a PIDE chamou de “externato” era o curso comercial d’A Voz do Operário.

E estas palavras fazem diferença. Porque A Voz do Operário não é, nunca foi, uma vulgar escola privada, com fins lucrativos.

É um projecto colectivo, desde a origem norteado por fins de solidariedade e igualdade social. E com a identidade de classe que o seu nome expressa.

Em 1948

A contratação de Alda Nogueira ficou registada na reunião da direção d’A Voz do Operário de 17 de Março de 1948. Foi admitida para substituir outra professora, a meio do ano lectivo.

Era uma jovem com 25 anos de idade. Mas já era uma assumida opositora à ditadura de Salazar.

Em 1945, aderiu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD) – que a ditadura ilegalizou em menos de dois anos.

Em 1947, proferiu uma conferência versando a mulher e a ciência, no âmbito de uma exposição sobre livros escritos por mulheres. Um evento que, de tal forma incomodou o regime, que este resolveu encerrar a associação promotora – o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

Além dessa, Alda Nogueira estava envolvida na Associação Feminina para a Paz. Outra que acabaria encerrada pelas autoridades, 4 anos depois.

E, desde 1942, que era militante do Partido Comunista Português (PCP) – este ilegalizado logo em 1927, nos primórdios da ditadura.

Quando deu aulas n’A Voz do Operário, Alda Nogueira era uma das três responsáveis pelo “setor de mobilização e organização das mulheres comunistas”. Um organismo que “trabalhava à escala nacional”, em “movimentos democráticos associativos, recreativos, desportivos, etc” [Melo (1975), p.177].

E depois?

Um ano depois de dar aulas n’A Voz do Operário, a professora Alda Nogueira abdicou da sua carreira profissional, para se consagrar à resistência que o seu partido movia contra a ditadura.

Passou a viver na clandestinidade e veio a ser uma das primeiras mulheres no comité central do PCP. Com um papel dirigente que não se limitou a tratar apenas de questões estritamente femininas.

Há testemunho de que foi responsável pela estrutura do PCP entre os empregados bancários e dos seguros [Samara (2019), p.42].

E pode verificar-se o conjunto de 5 artigos que publicou na revista teórica do seu partido, entre 1954 e 1958. Os quais assinou com o pseudónimo «Lídia« [PCP (2023), p.9].

O primeiro versou sobre “a mobilização e organização das mulheres”. Os dois seguintes abordaram o papel dos intelectuais e dos católicos na luta contra a ditadura.

No quarto artigo, sobre o 20º Congresso do PC da URSS, expressou uma visão crítica do stalinismo, ou “culto da personalidade de Stáline”, como então foi designado. E no último artigo, publicado em Março de 1958, analisou o “momento político nacional”, perante as pseudo-eleições presidenciais que a ditadura iria encenar, nesse ano.

Até que, como aconteceu a milhares de pessoas, Alda Nogueira foi presa pela PIDE. Mas poucas mulheres foram sujeitas a tão longos anos de cárcere em Portugal, por motivos políticos.

Em liberdade

Derrubada a ditadura, voltou-se a ouvir a voz de Alda Nogueira n’A Voz do Operário.

Em Abril de 1976, participou, aqui, num evento do PCP, no qual defendeu a necessidade de serem “criadas condições sociais, económicas e outras, assim como estruturas (creches, jardins de infância, cantinas, etc.) que facilitem a vida das mulheres trabalhadoras”.

Também apelou à memória histórica. Recordou os governos da ditadura, que “entoavam loas à família. Mas que fizeram eles na prática? […] toda a sua política de discriminação, obscurantismo, opressão e super exploração mais não fez que agravar a insegurança, a coesão e a harmonia da família e, em especial, das famílias trabalhadoras” [O Diário, 09/04/1976, p.12].

Luís Carvalho - Investigador

Este artigo foi originalmente publicado no Jornal "A Voz do Operário" a 4 de Novembro de 2025